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Raízen aprova recuperação extrajudicial histórica de R$ 10 bi

Com adesão de 75% dos credores, a Raízen caminha para aprovar a maior recuperação extrajudicial da história do Brasil. Entenda o impacto.

Raízen aprova recuperação extrajudicial histórica de R$ 10 bi
Foto: alexandre saraiva carniato / Unsplash

A Raízen conseguiu a adesão de 75% dos credores para sua recuperação extrajudicial, um marco que a coloca no caminho de concluir o maior processo do tipo na história corporativa brasileira. A reestruturação envolve bilhões de reais em dívidas acumuladas durante um ciclo agressivo de expansão que, com a mudança de cenário macroeconômico, se tornou insustentável.

Em paralelo, a companhia anunciou a venda de suas operações na Argentina por US$ 1,4 bilhão, reforçando o caixa e sinalizando ao mercado que o plano de ajuste é real, não apenas cosmético.

Como a Raízen chegou a esse ponto

A Raízen é uma joint venture entre Cosan e Shell, nascida em 2011 como a maior produtora de açúcar e etanol do mundo. Seu IPO em 2021 levantou R$ 6,9 bilhões e foi cercado de otimismo: a tese de transição energética, com etanol de segunda geração e biogás, parecia irresistível num mundo obcecado por descarbonização.

O problema foi a execução. A empresa investiu pesado em plantas de etanol de segunda geração (E2G) que enfrentaram atrasos e custos acima do previsto. Ao mesmo tempo, a Selic saltou de 2% em 2021 para os dois dígitos que persistem até hoje, encarecendo dramaticamente o serviço da dívida. O resultado foi um endividamento que sufocou a operação.

Para quem acompanha o cenário de reestruturações corporativas no Brasil, o caso Raízen não é isolado. É o sintoma mais visível de um ciclo de crédito farto seguido de aperto monetário que atingiu dezenas de empresas brasileiras nos últimos anos, das Americanas à Light.

O que significa a adesão de 75% dos credores

Na recuperação extrajudicial, ao contrário da judicial, a empresa negocia diretamente com os credores fora do tribunal. A legislação brasileira exige que pelo menos 60% dos credores de cada classe aprovem o plano para que ele possa ser homologado judicialmente e se torne vinculante para todos, inclusive os que não aderiram.

Com 75%, a Raízen superou com folga o piso legal. Isso indica que o plano oferece condições aceitáveis: provavelmente uma combinação de alongamento de prazos, deságio parcial e conversão de parte da dívida em instrumentos atrelados à performance futura da companhia.

O mecanismo é mais rápido, menos custoso e menos estigmatizado que a recuperação judicial. Enquanto empresas em RJ enfrentam restrições operacionais e danos reputacionais severos, a extrajudicial permite que a Raízen continue operando normalmente enquanto reestrutura seu passivo.

A venda da Argentina e o plano de desinvestimento

A alienação das operações argentinas por US$ 1,4 bilhão não é apenas uma transação financeira. É uma mudança estratégica. A Raízen está sinalizando que vai se concentrar no Brasil, onde tem escala e vantagem competitiva, e abandonar apostas geográficas que diluem foco e capital.

O comprador e as condições exatas do negócio ainda estão em processo de confirmação, mas o valor é relevante. Para contextualizar: a receita líquida anual das operações argentinas da Raízen girava em torno de US$ 2 bilhões, o que sugere que a venda foi feita com desconto significativo. Ainda assim, o caixa gerado é essencial para cumprir as condições da reestruturação e manter a operação brasileira rodando.

Movimentos semelhantes de empresas pressionadas pelo ciclo de juros altos têm se repetido no mercado brasileiro. O que diferencia a Raízen é a escala: estamos falando de uma das maiores empresas de energia renovável do hemisfério sul.

O que o mercado está precificando

As ações da Raízen acumulam queda superior a 60% desde o IPO, refletindo a deterioração operacional e financeira. A recuperação extrajudicial, paradoxalmente, pode ser o catalisador para uma reprecificação positiva, desde que a execução do plano de reestruturação seja convincente.

O risco é conhecido: planos de reestruturação funcionam no papel, mas a realidade operacional pode impor novos desafios. A produção de E2G, que era a grande promessa, ainda não atingiu escala comercial plena. E a dependência de commodities agrícolas, açúcar e etanol, mantém a empresa exposta a oscilações de preço que fogem ao seu controle.

Para o investidor, o caso Raízen oferece uma lição mais ampla sobre o mercado de crédito corporativo brasileiro. Quando o custo de capital sobe rápido, teses de crescimento alavancado que pareciam brilhantes com Selic a 2% se tornam armadilhas com Selic a 14,75%.

Recuperação extrajudicial como tendência no Brasil

O caso Raízen pode inaugurar uma nova fase no uso da recuperação extrajudicial como instrumento de reestruturação para grandes corporações brasileiras. Historicamente, o mecanismo era mais utilizado por empresas de médio porte. Mas a reforma da Lei de Falências de 2020 ampliou as possibilidades e tornou o instrumento mais atrativo.

Se a Raízen concluir o processo com sucesso, é provável que outras empresas em situação semelhante optem pelo mesmo caminho, evitando o desgaste da recuperação judicial. Para o mercado de capitais, isso é positivo: reestruturações mais rápidas e previsíveis reduzem a incerteza e facilitam a reprecificação dos ativos.

O que resta saber é se a nova Raízen, mais enxuta e focada, conseguirá entregar a rentabilidade que justifique sua permanência como uma das grandes empresas listadas na B3. A resposta dependerá menos de narrativa e mais de execução trimestre a trimestre.

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Marina Alves

Sobre o autor

Marina Alves

Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.

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