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Quem lucra e quem perde com o dólar alto


Por Felippe Hermes
Outubro 4, 2021

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A defesa da desvalorização da moeda sempre foi uma pauta tradicional de economistas mais ligados a esquerda, com ganhos em competitividade. Agora, colocada a prova, ela tem se mostrado fonte de problemas para muitos, e ganhos para alguns setores.

Foi em 30 de junho de 1989 que a FGV, a Fundação Getúlio Vargas, criou o IGPM, uma das tantas siglas de inflação no Brasil.

Em suma, o Índice Geral de Preços de Mercado, reúne outros 3 indicadores menores, que avaliam os preços praticados entre produtores, sejam agrícolas, da construção civil ou Industriais, além de preços ao consumidor.

Em meio a uma Hiperinflação que passaria de 4000% ao ano, o IGPM é, em resumo, um índice atrelado ao dólar.

Ao atrelar os valores a uma moeda mais estável, os produtores brasileiros conseguiam manter seu valor e evitar um derretimento de poder de compra, típico de países em cenário de Hiperinflação.

Ao mesmo tempo, donos de imóveis reajustaram seus aluguéis pautados nesse índice, o que garantia a preservação do seu patrimônio.

Seriam exatos 5 anos até que a inflação brasileira fosse derrubada por meio do Plano Real, que tinha entre seus princípios, dolarizar os preços no Brasil. Ou melhor, atrelar nossa moeda ao dólar.

Os exemplos históricos sobre a relevância do dólar como padrão para o Brasil, ou outras economias emergentes, são abundantes. Não apenas estamos falando da maior economia do mundo, com ¼ do PIB global, mas de uma moeda que compõe 80% das reservas globais de valor.

O papel do dólar no comércio, na fixação de preços e outros ativos, tem crescido ao longo das últimas década, impactando fortemente as economias ao redor do planeta.

Para piorar a situação dos países dependentes, os Estados Unidos exercem aquilo que Charles De Gaulle chamou de “privilégio exorbitante”. Em resumo, eles criam a moeda do mundo a partir de um clique no teclado, e em seguida trocam essa moeda por produtos do resto do mundo.

Privilégio dos privilégios, isso ainda ganha um outro componente, dessa vez explicado pelo “efeito Cantillon”. Segundo descreveu Richard Cantillon, em um cenário onde moeda nova é criada, quem está mais próximo da impressora, ou seja, recebe a moeda primeiro, tende a ganhar mais.

Por conta disso, em meio a instabilidade global, o dinheiro tende a ir para os Estados Unidos. Mesmo quando são eles próprios a estarem em crises.

Isso obriga países periféricos a pagarem um prêmio pelos dólares em questão. Juros maiores em países como o Brasil mitigam os riscos de se estar longe da impressora e atraem o dólar.

Durante a pandemia de coronavírus, porém, o Brasil fez o oposto. Reduziu seus juros a um nível nunca antes visto.

Pagamos menos aos investidores e especuladores globais, o que terminou por afastar os dólares daqui.

Essa foi, em suma, a principal causa para termos a segunda moeda mais desvalorizada do planeta.

As consequências dessa desvalorização variam. Se você for um exportador, seja um produtor agrícola, uma mineradora, petrolífera ou indústria, é possível que você ganhe uma boa grana com o dólar alto. Seus custos estão em reais, mas sua renda vem do exterior. Significa que você paga menos para produzir aqui.

Por conta disso, inúmeros economistas identificados com a esquerda política acreditam que o dólar alto seja uma maneira de estimular nossa produção interna.

É uma tática comum, adotada pela China, por exemplo.

Os Yuans, moeda chinesa, são propositalmente desvalorizados, para com isso tornar a China mais competitiva com o resto do mundo e atrair empregos.

O problema, claro, é que existe um mundo além da porteira da fazenda, ou da fábrica. Sem uma logística confiável, essa vantagem cai.

Outro fator crucial está relacionado a tecnologia. Se você depender de fertilizantes importados, de tecnologia para produzir, seus custos também sobem.

A questão moral também é relevante, afinal, pense por este ângulo aqui: ao tornar o real desvalorizado, você está dizendo que o seu trabalho vale menos, e ao mesmo tempo trocando mais trabalho seu por menos trabalho do exterior.

Em uma economia marxista essa já seria uma ideia terrível. Em uma economia onde o valor é subjetivo, como a nossa, se torna ainda mais absurdo defender um dólar alto, que apenas favorece grandes empresários.

Um outro fator ainda pesa na escolha: famílias brasileiras que vêem seu dinheiro valer menos precisam disputar com o mercado externo para comprar produtos fabricados aqui.

O produtor de carne pode ter a opção de escolher entre vender no exterior ou vender no Brasil. Para fazer isso, ele vai reajustar os preços aqui e tentar obter o mesmo que ganharia lá fora.

Isso eleva fortemente nossa inflação em produtos nos quais competimos com o exterior, como alimentos e energia.

Além do produtor, quem ganha com isso é o próprio governo.

Nossa carga tributária não é equânime entre bens e produtos. Energia é tributada por aqui em 56%, contra 23% da média de imposto sobre serviços. Se gastamos mais dinheiro para comprar energia, ou combustíveis, pagamos mais imposto do que se estivermos gastando com Netflix, uma ida ao cinema ou ao salão de cabeleireiro, por exemplo.

A alta do dólar, que eleva a inflação, tem feito a arrecadação de governos estaduais e do governo federal aumentar substancialmente. Antes previsto para durar até 2026, o déficit público pode ser que acabe já em 2022, tamanha força da alta de preços.

Um outro grupo também costuma ganhar, e muito, quando medimos a riqueza em reais. Os investidores que alocam lá fora tem sido os maiores ganhadores na década.

Seja comprando Bitcoin, ou ações da WEG, uma empresa que faz mais de 60% da sua receita no exterior, quem investe lá fora ganha bastante em reais.

Este dilema sobre desvalorizar a moeda não é nada novo. Curiosamente, sempre foi uma pauta considerada heterodoxa (um campo da economia mais ligado a esquerda), e é curioso que estejamos discutindo isso agora, quando uma política econômica pautada pela direita esteja em curso.

Aqueles que defendem a desvalorização, acreditam que isso eleva a quantidade de empregos na economia. Estão certos nisso. O problema? Uma economia depende de empregos que sejam produtivos e não apenas de empregos.

Fosse o emprego o fim, e não a quantidade de riqueza gerada por ele, poderíamos simplesmente contratar pessoas para cavar e tapar buracos que assim resolvemos todos os nossos problemas.

Infelizmente, não há uma fórmula mágica, e o câmbio não pode resolver nossos problemas.

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