Artigo

Quem é Naji Nahas, o Lobo de Wall Street brasileiro


Por Felippe Hermes
Setembro 14, 2021

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Como tantos outros, Naji Nahas é um personagem controverso, mas injustiçado, ao menos no que diz respeito a sétima arte. O homem que quebrou a bolsa de valores do Rio, e quase fez o mesmo em NY, faz O Lobo de Wall Street parecer um moleque vendedor de canetas.

Naji Robert Nahas nasceu no Líbano, em 1947. Herdeiro de uma família tradicional local, Nahas se mudou para o Brasil aos 22 anos, em 1969. Durante o voo que o traria ao Brasil, terra da sua esposa, o avião foi sequestrado, sendo direcionado para Cuba.

Foi aqui, em meio ao chamado “milagre econômico brasileiro”, que Nahas construiu um império.

Dono de indústrias, fazendas de gado (ou mesmo de coelhos), Nahas transformou estimados $50 milhões de sua família, em uma quantia bilionária.

No auge, chegou a ser dono de 7% da Petrobras e 12% da Vale (algo equivalente a R$85 bilhões na cotação de hoje, o mesmo que a fortuna de Jorge Paulo Lemann).

Logo que chegou ao Brasil, Nahas já se envolveu em um dos planos mais mirabolantes do último século: manipular o mercado global da Prata.

A atuação de Nahas foi crucial para que os irmãos Hunt, uma família de texanos bilionários do petróleo (cuja fortuna era estimada em $16 bilhões), pudessem colocar em prática o seu plano.

A ideia era a seguinte: os Hunt começaram a comprar Prata no mercado, detendo quantidade significativa da oferta. Em suas primeiras investidas, compraram uma onça de prata em $1,53. Ao final, quando detinham 50% do mercado, a Prata já era negociada a $54.

Dali em diante os Hunt despejaram tudo o que haviam acumulado, levando o preço da Prata a desabar, sem nunca se recuperar.

A despeito do charme de “metal precioso”, a Prata há séculos não é mais um mercado relevante em capitalização total. Toda a Prata existente no mundo hoje equivale a $1,3 trilhão, pouco menos do que a Microsoft ou a Amazon.

A manipulação promovida pelos Hunt, com ajuda de Nahas, levou a uma mudança regulatória significativa, e foi o último “corner” conhecido em escala global.

Por corner, leia-se: encurralar o mercado. Criar uma demanda artificial que faça os vendedores correrem para comprar o ativo e revender ao misterioso comprador, que deliberadamente está aumentando o preço do ativo.

Isso é possível por conta de “contratos futuros”. Em suma, o comprador não leva o ativo na hora, mas se compromete a comprar daqui um determinado preço, dando um pequeno valor em garantia. Isso permite uma alavancagem relevante.

Para efetuar este golpe, porém, os Hunt não conseguiriam arcar com os custos sozinhos. Buscaram a ajuda dos árabes para entrar com recursos. Eis aí o papel do libanês Naji Nahas: intermediar as conversas.

A bomba criada por ambos foi desarmada. Por pouco, Nahas não quebrou a Comex, segunda maior bolsa de commodities dos EUA.

A mesma sorte não teve a Boverj, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, o alvo mais conhecido de Nahas.

A segunda bolsa mais antiga do Brasil, fundada em 1820, cerca de 3 anos depois da Bovesba (a bolsa da Bahia), a Boverj disputava com a Bovespa o título de maior do Brasil nos anos 80.

A atuação de Nahas foi decisiva para mudar a balança em favor da bolsa paulista, algo que por sua vez colaborou para a debandada de empresas do mercado financeiro da “península” do Leblon.

E se você chegou até aqui achando que Nahas foi uma pessoa inescrupulosa que fez o mercado financeiro de vítima, sinto decepcioná-lo.

Nahas operava o mercado por meio de empréstimos que lhe garantiam poder para comprar e vender ações no mercado futuro. Utilizava-se de margens como garantias para forçar a escassez de ações, e assim garantir uma alta.

Os recursos movimentados por ele eram bastante relevantes, ou melhor, extremamente relevantes.

Conta-se que em um dia ele foi responsável por 97% do valor negociado em ações da Vale. Tudo, claro, na base do crédito.

Nahas negociava duro com os bancos, que ficavam felizes em lhe cobrar juros, e com as corretoras, que também lucravam com as taxas de corretagem.

A operação funcionava em 4 passos:

  1. Nahas adquiria um lote de ações na bolsa com prazo de 5 dias para pagar, o famoso “D+5”
  2. Este lote de ações era vendido imediatamente a um banco, seguradora ou outro comprador, que cobrava juros
  3. Nahas usava o dinheiro da venda para comprar mais ações, aumentando o preço
  4. 5 dias após a primeira compra, ele emitia um cheque para pagar pelo primeiro lote

O problema, claro, é quando os financiadores decidiram cessar o crédito. Isso ocorreu em 8 de junho de 1989.

Sem crédito na praça, Nahas então passou a ser responsável por inúmeros cheques sem fundo.

Além disso, Nahas também realizava operações chamadas de “Zé com Zé“, em que uma pessoa já acertada compraria o lote de ações que ele estava vendendo, gerando assim uma escassez no mercado.

Com uma inflação de 1100% ao ano em 1989, a operação de Nahas era bem sucedida em “operar o tempo”. Cada dia de crédito para pagar depois, representava um ganho.

Neste mesmo ano, a Vale (estatal na época), chegou a subir 2500%

Para bancar os cheques sem fundo, a Bovespa procedeu com o confisco da carteira do investidor, de $500 milhões na época.

Nahas ficou um ano em prisão domiciliar, sendo inocentado após este período.

Cabe ressaltar que as operações são controversas. George Soros é reconhecido como um dos maiores oradores do mercado após ter “quebrado” o Banco da Inglaterra apostando contra a Libra.

As atuações são perigosas e via de regra se aproveitam de pouca necessidade de margem ou regras, que mal ou bem, existem.

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