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Finanças

Queda nas bolsas dos EUA arrasta Bitcoin e cripto: o que explica

S&P 500 e Nasdaq 100 recuam com força após eleições de meio de mandato nos EUA. Bitcoin perde 5,3% e volta aos US$ 76 mil, devolvendo toda a alta do dia anterior.

Queda nas bolsas dos EUA arrasta Bitcoin e cripto: o que explica
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

O mercado financeiro americano sofreu um dos seus pregões mais pesados do ano nesta quinta-feira. O S&P 500 recuou 3,2% e o Nasdaq 100 perdeu 5%, puxado por uma liquidação generalizada em papéis de tecnologia. O Bitcoin, que havia surpreendido ao voltar acima dos US$ 80 mil na véspera, devolveu todo o ganho e recuou 5,3%, operando na faixa dos US$ 76 mil.

O movimento reforça uma dinâmica que investidores acompanham de perto há meses: a correlação crescente entre ativos de risco tradicionais e o mercado de criptomoedas. Quando Wall Street sangra, o universo cripto costuma sangrar junto.

Tecnologia lidera as perdas em Wall Street

A magnitude das quedas nas ações de tecnologia chamou atenção. Nvidia caiu 6,8%, mas sua rival AMD perdeu 13,8% no pregão. Micron recuou 12%, Qualcomm cedeu 11,3% e a SanDisk desabou 16,6%. São números que remetem a selloffs de ciclos de aperto monetário, não a sessões regulares.

Tesla perdeu 10,3% e Dell caiu 10,9%. Mesmo as big techs mais resilientes não escaparam: Meta recuou 3,6%, Microsoft 2,4%, Google 1,75% e Apple 1,3%. O setor bancário também operou no vermelho, com JPMorgan, Bank of America, Citi e Wells Fargo todos em queda.

O gatilho imediato foram os desdobramentos das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. A vitória expressiva do Partido Democrata mudou o cálculo político do mercado. Um Congresso com maioria democrata tende a adotar uma postura regulatória mais rígida para o setor de tecnologia e, potencialmente, para o mercado de criptomoedas.

Bitcoin devolve ganhos e testa suportes

Na quarta-feira, o Bitcoin havia reagido de forma surpreendente ao resultado eleitoral, voltando a superar os US$ 80 mil. O movimento contrariou a lógica predominante de que uma derrota do partido de Trump nas midterms seria negativa para cripto. Por algumas horas, o mercado pareceu precificar resiliência.

Durou pouco. Na quinta, o BTC recuou para a faixa dos US$ 76 mil, eliminando todo o ganho do dia anterior. O Ethereum voltou a ser negociado abaixo de US$ 2.300, o XRP caiu para menos de US$ 1,30 e a Solana recuou para a faixa dos US$ 90.

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Das 100 maiores criptomoedas por capitalização de mercado, apenas quatro operavam em alta nas últimas 24 horas. Duas delas são tokens lastreados em ouro: o XAUT, da Tether, e o PAXG, da Paxos. É um dado revelador. Quando o único segmento cripto que sobe é o atrelado a ouro, o mercado está em modo de aversão a risco plena.

A correlação entre Bitcoin e ações segue elevada

Para quem acompanha a tese de que o Bitcoin funciona como “ouro digital” ou ativo descorrelacionado, sessões como a desta quinta são um banho de realidade. Desde o ciclo de alta de 2024, o comportamento do BTC tem espelhado o de ativos de risco tradicionais, especialmente ações de tecnologia de alta capitalização.

Isso acontece por uma razão estrutural. O perfil de investidor institucional que compra Bitcoin hoje é, em grande parte, o mesmo que opera Nasdaq. Quando fundos precisam reduzir exposição a risco, vendem tudo: ações de crescimento, cripto, ativos especulativos. A diferenciação entre classes de ativos se dissolve em momentos de estresse.

Peter Schiff, o investidor e crítico vocal do Bitcoin, publicou nas redes sociais que a alta da véspera havia sido “a reação mais irracional” ao resultado das eleições. O argumento dele é direto: um Congresso controlado pelos democratas tende a adotar postura hostil em relação a criptomoedas. E, segundo Schiff, o cenário pode piorar em 2028, caso os democratas também conquistem a Casa Branca e eventualmente vendam os bitcoins da Reserva Estratégica americana.

O que o investidor deve observar daqui para frente

O ponto central não é se o Bitcoin caiu 5% em um dia. Correções dessa magnitude são rotineiras no mercado cripto. A questão relevante é o que o novo cenário político americano significa para a regulação de ativos digitais nos próximos dois anos.

Um Congresso democrata pode acelerar projetos de lei que aumentem a supervisão sobre exchanges, stablecoins e protocolos DeFi. Ao mesmo tempo, pode frear iniciativas que vinham ganhando tração no governo anterior, como a própria Reserva Estratégica de Bitcoin. Esse risco regulatório tende a funcionar como um teto para valuations no curto prazo.

No lado macroeconômico, a queda acentuada das ações de tecnologia levanta outra pergunta: se o selloff é pontual ou se marca o início de uma reprecificação mais ampla. O Nasdaq 100 perder 5% em uma sessão não é trivial. Historicamente, quedas dessa magnitude no índice costumam ser seguidas de volatilidade elevada nas semanas seguintes, como análises anteriores sobre a relação entre Bitcoin e mercado de ações já demonstraram.

Para o investidor que tem exposição simultânea a ações americanas e cripto, o episódio é um lembrete concreto de que diversificação real exige ativos com correlação baixa entre si. E, pelo menos neste ciclo, Bitcoin e Nasdaq não se encaixam nessa definição.

O ouro, que subiu no dia via tokens como XAUT e PAXG, continua sendo o ativo que historicamente cumpre esse papel de descorrelação em momentos de estresse. Não por acaso, os únicos criptoativos que subiram na sessão foram justamente os que representam exposição ao metal.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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