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Prêmio eleitoral já pesa no real: o que muda para quem investe

Investidores desfazem posições em real diante do cenário eleitoral e dólar rompe média de 200 dias. Entenda o que está por trás do movimento.

Prêmio eleitoral já pesa no real: o que muda para quem investe
Foto: Daniel Dan / Unsplash

Durante boa parte do ano, o consenso era claro: o real era a aposta preferida entre moedas emergentes. Juros elevados, fluxo comercial robusto e uma narrativa de ajuste fiscal davam suporte à moeda brasileira. Esse consenso começou a rachar.

A combinação de um rebaixamento de recomendação por parte de um grande banco global, a exclusão de papéis relevantes de índices internacionais e, sobretudo, o início do ciclo eleitoral fez com que o mercado passasse a embutir um prêmio de risco político no câmbio. O resultado: o real acumulou queda na casa de 2% em uma única semana, com desempenho inferior ao de pares emergentes.

Por que o real ficou vulnerável agora

A explicação técnica é tão importante quanto a narrativa política. Dados da International Money Market mostravam que as posições compradas em real estavam no percentil 99 dos últimos dez anos. Em outra pesquisa de referência, a moeda brasileira aparecia no percentil 81 e era a segunda mais comprada entre emergentes.

Quando todo mundo está do mesmo lado do barco, qualquer vento contrário desequilibra. O gatilho veio na forma de um rebaixamento de recomendação para ativos brasileiros por um banco de investimento global, seguido pela exclusão de papéis da Stone de um índice de referência para o país. Esses movimentos, isoladamente, seriam absorvíveis. Mas coincidiram com o início da campanha eleitoral e com sinais de estresse no mercado de títulos públicos.

Como já analisamos em nossa cobertura de mercado financeiro, a dinâmica de preços nos títulos públicos costuma antecipar movimentos no câmbio. É exatamente o que está acontecendo agora.

O estresse nos títulos públicos sinaliza o que vem pela frente

O Tesouro Nacional passou a encontrar mais dificuldade para negociar papéis atrelados à inflação (NTN-B) e prefixados (NTN-F). A demanda migrou para títulos indexados à Selic (LFTs), que funcionam como uma espécie de porto seguro doméstico.

A lógica por trás é direta. Se o mercado avalia que a trajetória fiscal será pior no futuro, a expectativa é de que o governo precisará emitir mais títulos para se financiar. Mais oferta de papéis significa preços menores e, consequentemente, taxas mais altas. Os investidores antecipam esse cenário e fogem dos papéis mais longos.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, negou qualquer dificuldade de financiamento da dívida pública, afirmando que o Tesouro se prepara com antecedência para períodos eleitorais, formando colchão de liquidez. Ele atribuiu a maior demanda por LFTs à incerteza natural de uma eleição.

A leitura do mercado, porém, é menos otimista. A avaliação predominante entre gestores e analistas é de que o investidor está se desinteressando por comprar o futuro fiscal do país, como discutimos em análises anteriores sobre política monetária e fiscal.

O fator eleição e o cenário para a Selic

Com a Selic em 14% ao ano e um ciclo de afrouxamento monetário extremamente gradual, o Brasil já oferece um dos maiores diferenciais de juros do mundo. Isso deveria, em tese, proteger o real. Mas a incerteza política está se sobrepondo à aritmética dos juros.

A ata mais recente do Copom foi considerada dura pela maior parte dos agentes financeiros, deixando as portas abertas tanto para continuidade quanto para pausa no ciclo de cortes. O documento reforça a mensagem de que o Banco Central agirá se a inflação voltar a ser problema, o que explica parte da preferência dos investidores por LFTs: a aposta é de que os juros permanecerão altos por mais tempo.

Para investidores no exterior, a equação ficou menos favorável. Relatórios de grandes bancos, domésticos e estrangeiros, passaram a recomendar redução de exposição ao real, sugerindo a troca por moedas de países emergentes que não enfrentam incerteza política no momento. A diversificação cambial, que já era uma recomendação recorrente entre gestores, ganhou urgência.

O dólar rompeu um nível técnico importante

Do ponto de vista gráfico, o dólar superou a média móvel de 200 dias, que estava na faixa de R$ 5,20. Esse rompimento aciona ordens automáticas de compra por parte de algoritmos e fundos sistemáticos, criando um efeito cascata que amplifica o movimento.

Fundos de hedge e gestores de recursos reais estão na ponta compradora de dólar. Na outra direção, empresas exportadoras continuam vendendo, mas os fluxos de saída do Brasil têm superado essa oferta corporativa. O saldo líquido pressiona o real.

O chamado “prêmio eleitoral” que o mercado vinha discutindo como algo teórico agora aparece nos preços. A questão, daqui em diante, é quanto desse prêmio ainda falta ser incorporado.

O que realmente preocupa: a política fiscal pós-eleição

Mais do que o resultado eleitoral em si, o mercado debate o que vem depois. A pergunta central é se um eventual governo reeleito conseguirá promover o ajuste fiscal necessário em 2027 ou se será preciso que a pressão do mercado sobre ativos force essa correção.

Historicamente, o Brasil já passou por ciclos semelhantes. Em 2014 e 2022, a proximidade eleitoral gerou volatilidade significativa no câmbio e nos juros futuros. A diferença agora é que o ponto de partida fiscal é mais delicado, com uma dívida pública em trajetória ascendente e despesas obrigatórias crescentes.

Para o investidor pessoa física, o momento exige atenção redobrada à composição da carteira. A concentração excessiva em ativos denominados em real, sem proteção cambial, ficou mais arriscada. Não se trata de apostar contra o país, mas de reconhecer que a volatilidade eleitoral é um fato de mercado, não uma opinião, e posicionar a carteira de acordo.

Os próximos meses serão definidos pela interação entre pesquisas eleitorais, dados fiscais e a postura do Banco Central. Quanto mais as pesquisas consolidarem uma tendência, maior será a necessidade de clareza sobre o programa econômico do candidato favorito. Sem essa sinalização, o prêmio de risco tende a crescer.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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