Por que sua empresa provavelmente não precisa de uma L2 própria
Com mais de 150 L2 em operação, lançar uma rede própria no Ethereum só faz sentido para quem agrega grande volume e tem diferencial claro. Dados indicam baixo uso na maioria das L2. Para a maior parte das empresas, é melhor conectar-se ao Ethereum ou a L2s abertas.
A febre das redes de segunda camada no Ethereum seduz, mas só compensa para quem tem volume e proposta clara.
O apelo de lançar uma rede de segunda camada (layer 2) sobre o Ethereum nunca foi tão grande. Já existem mais de 150 L2 ativas e, ainda assim, novas iniciativas seguem surgindo — inclusive modelos centralizados vinculados a uma única empresa. Recentemente, a Robinhood anunciou planos para construir sua própria L2.
O fascínio das L2 — e o que as diferencia de uma L1
Comparadas a criar uma blockchain de base (layer 1), as L2 parecem uma alternativa mais realista. Disputar espaço com redes como Ethereum e Solana em L1 é entrar em um mercado abarrotado. Em L2, apesar da concorrência igualmente acirrada, é possível aproveitar a força do ecossistema do Ethereum graças à integração profunda com a rede principal.
Com o Ethereum completando 10 anos em julho, a rede segue como a principal blockchain de contratos inteligentes e o maior repositório de ativos digitais, RWAs, stablecoins e aplicações de finanças descentralizadas. A participação do Ethereum no DeFi está estável em cerca de 50% há três anos; considerando as L2, esse percentual parece subir modestamente.
Controle local, alcance global — e custos que importam
O conceito seduz porque combina o “melhor dos dois mundos”: controlar o próprio ecossistema em uma L2 sem abrir mão da integração com o universo do Ethereum. Em L2s centralizadas, a empresa define a estrutura de preços, acessos e até a visibilidade de dados, como numa blockchain privada — só que plugada a um padrão aberto.
Isso tem preço: as L2 precisam comprar espaço de processamento no Ethereum para finalizar transações (o chamado blob space). Ainda assim, o custo tende a ser menor do que iniciar uma rede do zero e rivalizar com o Ethereum. Segundo a Token Terminal, os custos de operar uma L2 são notavelmente baixos. Em junho de 2025, a Base, rede L2 da Coinbase, gerou US$ 4,9 milhões em receitas de taxas e gastou apenas US$ 50 mil em taxas de liquidação na camada 1.
As taxas de liquidação em L1 estão tão baixas que alimentam um debate dentro do ecossistema: serão baixas demais? Haveria transferência de valor dos participantes da L1 para as L2? Um reequilíbrio é provável, mas mesmo um aumento de 10x dificilmente muda a proposta de valor fundamental do escalonamento via L2.
Validação do modelo — e limites óbvios
O anúncio da Robinhood reforça a tese: L2s não são só um mecanismo de escala; elas habilitam novos modelos de negócios e devem abrigar desde arranjos totalmente descentralizados até estruturas completamente centralizadas.
Mas a pergunta-chave permanece: sua empresa realmente precisa de uma L2 própria? Na maioria dos casos, não. O valor central de um ecossistema blockchain é permitir cooperação entre partes sem controle unilateral. Para um fabricante, por exemplo, o ideal é operar com fornecedores e clientes em campo neutro, onde nenhum concorrente dita regras. A longo prazo, isso custa menos do que tentar se integrar a sistemas distintos controlados por cada parceiro crítico.
O que os números mostram
Embora algumas L2 pareçam muito lucrativas, isso só se sustenta com alto volume transacional. Muitas redes hoje têm pouco ou nenhum movimento e lutam para se diferenciar em um mercado saturado. De acordo com a L2Beat, a maioria tem menos de US$ 1 milhão em TVL trazido do Ethereum e registra, em média, menos de uma operação de usuário por segundo.
Quando faz sentido ter uma L2 própria
A hipótese mais robusta favorece empresas capazes de agregar grande volume de transações à própria rede e cujos clientes não têm meios — ou volume individual — para se conectar diretamente ao Ethereum. No momento, isso descreve principalmente serviços financeiros com milhares ou milhões de clientes de varejo, de Coinbase a Kraken e Robinhood. Outras devem seguir. No futuro, ter uma L2 pode se tornar análogo a possuir um assento na Bolsa de Nova York: corretoras valorizariam, mas uma montadora provavelmente não veria vantagem.
Os três critérios que realmente importam
Antes de lançar uma L2, avalie se sua empresa consegue concentrar volume relevante frente às demais redes, se transacionar on-chain é central ao modelo de negócios (por exemplo, você é um intermediário financeiro hoje preso aos trilhos tradicionais) e se sua abordagem oferece um diferencial real perante tantas alternativas. Se a resposta for sim aos três, vale explorar. Caso contrário, conectar-se diretamente ao Ethereum ou a uma L2 aberta tende a ser mais barato e mais privado do que passar por um agregador — que pode encarecer tarifas e enxergar seus fluxos — e certamente mais econômico do que operar uma rede própria.
A história insiste em se repetir
Ainda assim, é provável que muitas empresas lancem L2s de que não precisam — como aconteceu com as blockchains privadas no passado. A atração por “controlar o destino” e “taxar o ecossistema” é forte. Cadeiras públicas, com abertura, interoperabilidade e permissionless, podem assustar quem prefere mais controle.
Para quem já se interessava por redes privadas, L2s centralizadas parecem um meio-termo tentador. Diferentemente das privadas, nem todas estão condenadas, mas a suspeita é que poucas vão prosperar. A história se repete — em parte porque insistimos em não aprender com ela.
Isenção de responsabilidade: Estas são opiniões pessoais do autor e não representam as opiniões da EY.