Artigo

Por que o Bitcoin funciona?


Dezembro 21, 2019 | nenhum comentário
Por Gabriel Aleixo

A arquitetura por trás do funcionamento do Bitcoin enquanto tecnologia é fascinante. Uma série de ferramentas conhecidas há anos – até mesmo décadas, no caso de algumas delas – foram combinadas de forma inédita no sistema.

Desde chaves públicas e privadas como meios seguros de se comunicar informações sensíveis (a origem e o destino do dinheiro digital, no caso do protocolo Bitcoin) até o uso de funções criptográficas de hashing com o intuito de checar a integridade e a sincronia entre os dados armazenados de forma descentralizada nos computadores que integram a rede.

Tudo foi muito bem pensado e parece se encaixar perfeitamente. Prova disso é a resiliência do Bitcoin, o qual já opera desde 2009 sem a ocorrência de qualquer grande falha sistêmica na tecnologia que o mantém. Entretanto, com a vantagem de analisar o Bitcoin agora que ele já deu/está dando certo, por assim dizer, um questionamento permanece: seria a tecnologia o único fator de grande relevância para seu sucesso?

Indo além, mesmo se concluíssemos que existe, na verdade, uma combinação de múltiplos fatores nesse sentido, a forma como opera a tecnologia ainda assim poderia ser considerada o mais importante deles?

O pensamento de Satoshi Nakamoto

Embora uma resposta definitiva a essa pergunta provavelmente só possa ser encontrada com o passar de mais alguns anos, é importante salientar que ao criar o sistema Satoshi Nakamoto demonstrou uma invejável compreensão não apenas de criptografia, mas também dos incentivos econômicos que regem a cooperação entre diferentes indivíduos.

Em fevereiro de 2009, Satoshi enviou a seguinte mensagem por meio do fórum BitcoinTalk: “Instead of the supply changing to keep the value the same, the supply is predetermined and the value changes. As the number of users grows, the value per coin increases. It has the potential for a positive feedback loop; as users increase, the value goes up”.

Em tradução livre:

“Ao invés de ter a uma mudança na oferta [de bitcoins] para que o valor permaneça o mesmo, a oferta [de bitcoins] é pré-determinada e é seu valor que oscila. Na medida em que o número de usuários cresce, o valor de um bitcoin aumenta. Isso carrega consigo o potencial para um círculo virtuoso no qual se o número de usuários [da rede Bitcoin] aumenta o valor de 1 bitcoin aumenta”.

Em 2010, também por meio de uma discussão no fórum BitcoinTalk, Satoshi evidencia as vantagens que a descentralização do sistema traz, permitindo o processamento adequado das transações, cuja prioridade é definida através de um sistema auto-regulável de taxas pagas pelos usuários:

“If you’re sad about paying (a transaction) fee, you could always turn the tables and run a node yourself and maybe someday rake in a 0.44 fee yourself.”

Satoshi está dizendo que, na forma como pensou originalmente o sistema, certa liberdade é mantida para que um indivíduo se alterne entre as posições de simples usuário ou minerador da rede. Podendo em alguns momentos pagar taxas e em outras circunstâncias recebê-las, o que asseguraria uma oscilação próxima de um equilíbrio-ótimo no valor a ser pago para que uma transação fosse rapidamente confirmada.

Os incentivos econômicos

A beleza de tudo isso reside no fato de que, além do processo ser significativamente mais descentralizado do que em outros sistemas de pagamentos – com cada minerador podendo definir muitas das preferências de seu nó da rede independente do que foi configurado pelos demais – a única forma de remuneração por esse trabalho é em bitcoins (recebidos por meio de taxas e da emissão controlada e conhecida de novos bitcoins). Esse último fator gera, inclusive, um sentido para que sejam incluídas eventualmente até mesmo transações sem taxa, mesmo que de forma não-prioritária.

Suponhamos que cada bloco acomode até 2000 transações a serem validadas com uma confirmação, em média, nos próximos 10 minutos. Num momento de baixa utilização da rede e em que o bloco que você pretende minerar esteja apenas com as 500 transações dos últimos minutos que pagaram taxas significativas, o que governa a sua decisão de adicionar ou não transações sem taxa no seu bloco? O auto-interesse de que os bitcoins que você recebe pelo processo de minerar aumentem em valor!

Isso porque o valor está intimamente ligado a duas variáveis, sendo razoável assumir que, tudo mais constante, algo tem mais valor quanto maior for sua escassez e sua utilidade. Como se sabe, no Bitcoin a escassez é um dado pré-programado: nunca existirão mais do que 21 milhões de bitcoins. Isso faz com que a principal e mais legítima forma de aumentar o valor dos bitcoins a longo-prazo é fazer do sistema, e consequentemente de uma unidade de bitcoin, algo mais útil à sociedade em geral.

O desafio da escalabilidade

Naturalmente, as questões de escalabilidade perpassam muitas das discussões atuais e carecem de respostas mais aprofundadas, mas é interessante observar que Satoshi embutiu no desenho econômico do sistema até mesmo mais esse incentivo. Mesmo sem taxas para seu processamento, faz sentido, em momentos de baixa utilização da rede, que um minerador adicione mais transações a seu bloco.

Não fazer isso num sistema que é descentralizado abriria a possibilidade de que um usuário visse nesse cenário a possibilidade de integrar o mercado de mineração, operar nele com maior eficiência e obter taxas e novos bitcoins como recompensa; o que tornaria mais difícil e mais custosa a mineração para o primeiro minerador.

Descentralização e Teoria dos Jogos

Certamente, passados alguns anos, algumas dimensões rede não possuem o radical nível de descentralização eventualmente ambicionado por Satoshi durante os anos de 2009 e 2010, quando esteva ativo no desenvolvimento do sistema, este ainda em sua infância. De todo modo, todo o processo descrito até aqui demonstra uma clara preocupação com a dimensão humana e social do protocolo, cujas variáveis necessárias a seu bom funcionamento parecem transcender a dimensão técnica pura e simples.

Satoshi Nakamoto parece tem refletido sempre com muito afinco na “teoria dos jogos” e nos incentivos econômicos por trás de toda nova questão que surgia. Embora o genial construtor desse sistema não necessariamente tenha estado ou vá estar certo em tudo o que fez ou orientou, essa parece ter sido uma valiosa lição que surgiu de seu processo criativo e perdura até os dias de hoje.

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