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Por que Nasdaq e a dona da NYSE querem levar os US$ 126 trilhões em ações para a blockchain

A aposta de grandes operadores como Nasdaq e a controladora da NYSE em blockchain mira reduzir risco, custo e fricção na liquidação, habilitar tokenização e automatizar eventos corporativos — avanços que dependem de padronização, redes permissionadas e integração com o legado.

Por que Nasdaq e a dona da NYSE querem levar os US$ 126 trilhões em ações para a blockchain

Eficiência, liquidez e conformidade programável explicam a guinada das infraestruturas de mercado rumo a redes distribuídas — ainda que permissionadas.

A ideia de transportar o mercado acionário global — estimado em cerca de US$ 126 trilhões — para uma infraestrutura baseada em blockchain deixou de ser devaneio de entusiastas. Operadores de bolsa e provedores de infraestrutura de mercado, como a Nasdaq e a controladora da NYSE, vêm testando e avaliando o uso de registros distribuídos para modernizar a espinha dorsal das negociações. O impulso não nasce do hype, mas de gargalos conhecidos: liquidação lenta, reconciliação redundante e custos de capital elevados. A pergunta, nesse contexto, não é mais se a tecnologia será usada, mas onde e em que ritmo ela será implantada.

Da liquidação T+1 ao DvP atômico

O ciclo de liquidação encurtou nos últimos anos, e a migração para T+1 nos EUA é sintoma de uma busca por eficiência que, em tese, pode avançar até o T+0 com a ajuda da blockchain. Ao registrar ordens, titularidade e garantias em um mesmo livro-razão, a entrega contra pagamento (DvP) pode ocorrer de forma atômica, reduzindo risco de contraparte e a necessidade de colateral estacionado no sistema. Na prática, menos capital imobilizado e menor exposição a falhas operacionais significam uma infraestrutura mais enxuta. Há, porém, uma ressalva técnica que os operadores não ignoram: finalização de liquidação, governança de rede e resiliência precisam ser garantidas, o que tende a favorecer ambientes permissionados.

Tokenização e mercados programáveis

Levar ações para a blockchain não se resume a copiar o modelo atual em um novo trilho; trata-se de habilitar funções nativas do digital. A tokenização permite fracionar ativos, programar regras de compliance no próprio token e automatizar eventos corporativos, como pagamento de dividendos e direito de voto. Em um cenário em que títulos, caixa e garantias coexistem on-chain, processos hoje pulverizados entre diversas instituições passam a ser orquestrados por contratos inteligentes, com trilhas de auditoria nativas. É por isso que a discussão sobre “blockchain para ações” conversa diretamente com a visão de mercados operando 24/7, com liquidez mais elástica e menor fricção no acesso.

Desafios de legado e interoperabilidade

Se a tese técnica é atraente, a execução exige navegar um labirinto regulatório e de integração. Custodiantes, depositárias, câmaras de compensação, formadores de mercado e reguladores precisam falar a mesma língua — o que implica padronização de identificadores (como ISIN on-chain), trilhas de conformidade e modelos de interoperabilidade entre redes. Além disso, há o clássico problema do ovo e da galinha: migrar volumes relevantes sem diluir a liquidez em ilhas tecnológicas. Nesse sentido, a opção por redes privadas ou consórcios com governança clara tende a ser o primeiro passo, enquanto pontes para ambientes públicos podem surgir depois, quando segurança, confidencialidade e privacidade estiverem formalmente endereçadas.

O que muda, e quando

No curto prazo, o investidor médio possivelmente verá pouco mais que ganhos incrementais: liquidações mais rápidas, redução de falhas e custos operacionais ligeiramente menores. À medida que a tokenização amadurece, contudo, surgem efeitos de segunda ordem, como acesso fracionado a carteiras globais, colateral circulando de forma programável entre mercados e processos de empréstimo de ações com liquidação instantânea. Por outro lado, a velocidade dessa transição dependerá do apetite regulatório e da capacidade dos grandes operadores de pavimentar a migração sem comprometer a estabilidade do sistema. A lógica é simples: inovação, sim, mas com a mesma previsibilidade exigida de infraestruturas sistêmicas.

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