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Petróleo no pré-guerra alivia juros no Brasil e nos EUA

Brent recua de US$ 118 para US$ 73 após trégua no Oriente Médio. Juros futuros cedem no Brasil e nos EUA, mas analistas divergem sobre cortes da Selic.

Petróleo no pré-guerra alivia juros no Brasil e nos EUA
Foto: Zifeng Xiong / Unsplash

Brent devolve todo o rali da guerra e volta aos US$ 73

O barril de Brent chegou a negociar a US$ 118 no fim de abril, no auge da tensão geopolítica provocada pelos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã. Pouco mais de um mês depois, a cotação recuou para a faixa de US$ 73, devolvendo integralmente o prêmio de risco que se acumulou durante o conflito.

O gatilho para a reversão foi a assinatura do memorando de entendimento entre Washington e Teerã. As exportações de petróleo do Golfo Pérsico já retomaram pelo menos 75% do nível anterior à guerra, segundo dados de mercado. Mais de 20 navios-tanque, carregando cerca de 35 milhões de barris de petróleo bruto, cruzaram o Estreito de Ormuz desde a trégua.

Para quem acompanha a dinâmica dos mercados financeiros, esse movimento tem consequências diretas sobre inflação, política monetária e, por extensão, sobre praticamente todas as classes de ativos.

Juros americanos recuam, mas mercado segue atento ao payroll

A distensão geopolítica aliviou a pressão sobre os Treasuries de 10 anos. O yield, que havia atingido 4,66% um mês atrás, recuou para 4,38%. A curva americana ainda embute alguma probabilidade de alta do Fed Funds Rate na reunião de setembro, mas essa aposta perdeu força.

O núcleo do PCE, principal indicador de inflação observado pelo Federal Reserve, registrou alta anual de 3,4%, a maior desde outubro de 2023. No entanto, há um consenso crescente entre analistas de que esse pode ter sido o pico do ciclo inflacionário atual.

Kevin Warsh, o novo presidente do Fed, não chancelou publicamente as altas de juros que a curva precificava. Mohamed El-Erian, ex-chefe da PIMCO, foi além: afirmou que o cenário mais provável é de nenhuma elevação de juros nos EUA neste ano, considerando tanto as perspectivas de inflação quanto a evolução da oferta. El-Erian observou ainda que o Fed está em transição, abandonando uma “dependência excessiva de dados” para uma abordagem mais voltada ao futuro.

Os números do mercado de trabalho americano, que serão divulgados na próxima semana, devem ser o próximo teste para essa tese. Como analisamos em matérias anteriores sobre o impacto do payroll, os dados de emprego são historicamente o fiel da balança para as decisões do Fed.

No Brasil, IPCA-15 surpreende para baixo e juros futuros cedem

O cenário externo mais benigno encontrou reforço local. O IPCA-15 ficou abaixo do consenso de mercado, com uma composição considerada melhor do que a esperada por economistas. Esse dado, combinado com a queda do petróleo e a menor probabilidade de aperto monetário nos EUA, derrubou os juros futuros brasileiros.

O DI para janeiro de 2029 recuou de 15% para 14,30% em uma semana. Para efeito de contexto, essa mesma taxa estava em 12,5% antes do início do conflito no Oriente Médio. O movimento mostra o quanto o prêmio de risco geopolítico havia se incrustado na curva brasileira.

As estimativas divulgadas pelo Banco Central em seu Relatório de Política Monetária também contribuíram para o alívio. Segundo Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, as projeções do BC apontam para inflação mais baixa em 2028, o que ajudou a comprimir os vértices mais longos da curva.

Copom reconhece erro de comunicação e evita guidance

Na apresentação do relatório trimestral, o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, justificou a decisão do Copom de não sinalizar próximos passos. As incertezas decorrentes da crise no Oriente Médio e dos efeitos do El Niño sobre preços de alimentos tornaram qualquer forward guidance arriscado.

“Se a gente dobrasse ou triplicasse a Selic, não ia abrir o Estreito de Ormuz, não ia fazer o El Niño deixar de nos visitar, mas causaria volatilidade”, afirmou Picchetti. A frase sintetiza uma postura que economistas chamam de pragmatismo monetário: não reagir com política de juros a choques que estão fora do alcance do instrumento.

Gabriel Galípolo, presidente do BC, admitiu que o Copom pode ter errado na comunicação ao tentar “explicar demais” as razões do corte de 0,25 ponto na Selic, apesar da piora em suas próprias projeções de inflação. Ele refutou qualquer influência política na decisão, argumentando que, dada a defasagem da política monetária, “não tem cabimento falar que qualquer decisão de hoje terá efeitos na economia com impacto na eleição”.

Essa postura de maior cautela do BC dialoga com o que outros bancos centrais ao redor do mundo estão fazendo. Nenhum deles está oferecendo guidance neste momento, como destacou Galípolo. Para quem acompanha como a política monetária afeta diferentes investimentos, o recado é claro: o período de visibilidade reduzida continua.

Selic estável ou novos cortes? O mercado está dividido

A curva de juros voltou a precificar alguma probabilidade de novo corte da Selic, mas os analistas estão longe de um consenso.

De um lado, Tiago Berriel, estrategista-chefe da asset do BTG, mantém a projeção de Selic estável em 14,25% até o fim do ano. Na visão dele, as condições macroeconômicas não devem permitir a retomada do ciclo de cortes em 2025.

Do outro, a equipe de macro do Bradesco, chefiada por Fernando Honorato, interpreta a mensagem do BC como compatível com uma trajetória de queda alinhada ao Focus, com Selic encerrando 2026 em 13,75% e 2027 em 12%. Nesse cenário, a projeção de inflação para o primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante das próximas reuniões do Copom, ficaria em 3,2%.

Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, resumiu o momento: “O pico de hawkishness dos BCs parece ter ficado para trás.” Mas ele também destacou um efeito colateral pouco discutido: para o Brasil, a queda do petróleo é uma faca de dois gumes. Alivia pressões inflacionárias de custos, porém reduz a receita com exportações da commodity, o que enfraquece o real. No último mês, o dólar subiu 4%, de R$ 5,00 para R$ 5,20. “O real é uma commodity currency”, disse Ihara.

Próximos eventos que definem a direção

O calendário de política monetária está carregado. A reunião do Fed acontece em 29 de julho. O Copom decide em 4 de agosto. Antes disso, os dados de emprego dos EUA na próxima semana e a evolução das exportações iranianas devem calibrar expectativas.

Para o investidor brasileiro, o cenário atual sugere que o pior da pressão sobre juros pode ter passado, mas não que o caminho adiante será linear. A dualidade do petróleo barato, bom para inflação e ruim para o câmbio, lembra que, em mercados emergentes, raramente existe alívio sem contrapartida.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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