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PayPal à venda: o que a fusão com Stripe significaria

Negociações entre Stripe, Advent e PayPal avançam para um acordo que pode superar US$ 53 bilhões. Entenda o que está em jogo para o setor de fintechs.

PayPal à venda: o que a fusão com Stripe significaria
Foto: Markus Winkler / Unsplash

A possibilidade de que o PayPal seja adquirido pela Stripe em parceria com o fundo de private equity Advent International deixou de ser especulação e entrou em território concreto. Segundo fontes próximas às negociações, as conversas avançaram significativamente nas últimas semanas e um acordo pode se materializar em breve. O valor discutido gira em torno de US$ 60,50 por ação, o que avaliaria o PayPal em cerca de US$ 53 bilhões.

Se confirmada, seria uma das maiores transações da história do setor de tecnologia financeira. E não se trata apenas de uma troca de donos. A união entre duas das maiores plataformas de pagamentos do mundo redesenharia a competição no mercado global de fintechs, com implicações diretas para consumidores, comerciantes e investidores.

Por que o PayPal está na mesa de negociação

O PayPal vive um momento de reinvenção forçada. A empresa, que cresceu de forma acelerada durante o boom do comércio eletrônico na pandemia, viu seu ímpeto desacelerar à medida que o mercado se normalizou. A ação, que chegou a valer mais de US$ 300 em 2021, passou por uma correção severa nos anos seguintes.

Para tentar reverter a trajetória, o novo CEO Enrique Lores, que assumiu o cargo em março após anos à frente da HP, iniciou um plano de reestruturação agressivo. Em abril, Lores reorganizou a empresa em três unidades operacionais distintas: soluções de checkout e PayPal, serviços financeiros ao consumidor (incluindo o Venmo) e serviços de pagamento e cripto.

A mensagem ao mercado foi direta: o PayPal precisa voltar a ser uma empresa de tecnologia. Como parte desse esforço, a companhia anunciou um plano de corte de custos que prevê redução de 20% da força de trabalho nos próximos dois a três anos. É um sinal claro de que a estrutura atual é pesada demais para a receita que gera.

Esse contexto explica por que a empresa não descartou imediatamente a proposta de aquisição feita em julho. Embora tenha resistido ao valor inicial, as negociações nunca foram interrompidas. Para o PayPal, uma venda pode ser o caminho mais rápido para destravar valor que o mercado público não está reconhecendo.

O que a Stripe ganha com essa aquisição

A Stripe, fundada pelos irmãos irlandeses Patrick e John Collison, construiu seu império como a infraestrutura invisível dos pagamentos online. Diferente do PayPal, que é uma marca voltada ao consumidor final, a Stripe opera nos bastidores, processando pagamentos para empresas como Amazon, Google e Shopify. A empresa foi avaliada em US$ 65 bilhões em sua última rodada de captação.

Adquirir o PayPal daria à Stripe algo que ela nunca teve: uma relação direta com centenas de milhões de consumidores. O PayPal encerrou o último período reportado com mais de 400 milhões de contas ativas globalmente. O Venmo, por sua vez, é um dos aplicativos de pagamento peer-to-peer mais populares dos Estados Unidos, especialmente entre o público mais jovem.

Além disso, a operação de cripto do PayPal, que inclui a stablecoin PYUSD, adicionaria à Stripe uma vertical em rápida expansão. A Stripe já demonstrou interesse crescente em criptomoedas ao integrar pagamentos com stablecoins em sua plataforma. Com o PayPal, esse movimento ganharia escala imediata.

A entrada do Advent International como parceiro financeiro também é estratégica. O fundo de private equity, com mais de US$ 90 bilhões em ativos sob gestão, traz capacidade de alavancagem e experiência em reestruturações operacionais, algo que seria essencial para integrar duas empresas dessa magnitude.

Impacto no mercado de pagamentos e fintechs

Uma fusão Stripe-PayPal criaria uma potência com presença em praticamente todas as camadas do ecossistema de pagamentos: do processamento B2B ao aplicativo de transferência entre amigos, passando por checkout online, crédito ao consumidor e ativos digitais.

Para concorrentes como Adyen, Block (antiga Square) e até mesmo grandes bancos que investem em carteiras digitais, o cenário ficaria consideravelmente mais desafiador. A combinação de base de usuários do PayPal com a infraestrutura técnica da Stripe seria difícil de replicar.

O mercado de pagamentos digitais deve movimentar mais de US$ 15 trilhões globalmente neste ano, segundo projeções da Statista. A concentração de dois players desse porte levantaria, inevitavelmente, questões regulatórias. Autoridades antitruste nos Estados Unidos e na União Europeia provavelmente examinariam o acordo com lupa, considerando o impacto sobre a concorrência no setor financeiro.

O legado da “máfia do PayPal” e o que está em jogo

Fundado em 1998 por nomes que se tornaram lendas do Vale do Silício, incluindo Peter Thiel, Elon Musk e Max Levchin, o PayPal foi uma das empresas que definiram a era da internet comercial. Sua venda para o eBay em 2002 por US$ 1,5 bilhão parecia monumental na época. Hoje, discute-se um valor 35 vezes maior.

A chamada “máfia do PayPal” dispersou-se para criar empresas como Tesla, Palantir, LinkedIn e YouTube. Mas o próprio PayPal, apesar de ter se tornado independente novamente em 2015, nunca conseguiu recuperar a aura de inovação que seus fundadores levaram consigo.

Se a venda se concretizar, será o reconhecimento de que o PayPal, como empresa independente de capital aberto, esgotou suas opções de crescimento orgânico. Para investidores, o prêmio oferecido sobre o preço atual da ação pode representar uma saída atraente. Para o mercado como um todo, será mais um capítulo na consolidação acelerada do setor de fintechs, onde escala e integração vertical se tornaram requisitos de sobrevivência.

O desfecho dessas negociações deve ficar claro nas próximas semanas. Independentemente do resultado, o fato de que uma empresa com a história e o alcance do PayPal está na mesa de negociação diz muito sobre a velocidade com que o setor financeiro digital se transforma.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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