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Paul Tudor Jones aposta em Bitcoin contra inflação

O bilionário Paul Tudor Jones defende o Bitcoin como principal hedge inflacionário e alerta que ações americanas estão sobrevalorizadas.

Paul Tudor Jones aposta em Bitcoin contra inflação
Foto: DΛVΞ GΛRCIΛ / Unsplash

Poucos nomes carregam tanto peso no mundo dos hedge funds quanto Paul Tudor Jones. O bilionário, que construiu sua reputação prevendo o crash de 1987, voltou a defender publicamente o Bitcoin como o melhor instrumento de proteção contra a inflação. Ao mesmo tempo, alertou que o mercado acionário americano está sobrevalorizado e vulnerável a correções.

A declaração não é nova para Jones. Ele foi um dos primeiros gestores institucionais a falar abertamente sobre Bitcoin, lá em 2020, quando comparou o ativo à posição do ouro nos anos 1970. O que muda agora é o contexto: a inflação americana segue resiliente acima da meta de 2%, os juros permanecem elevados e o Federal Reserve resiste a cortar a taxa básica com a velocidade que Wall Street gostaria.

Por que Jones vê o Bitcoin como hedge superior ao ouro

O argumento central de Jones se apoia em três pilares. Primeiro, a escassez programática: só existirão 21 milhões de unidades de Bitcoin, algo que nenhum banco central pode alterar. Segundo, a portabilidade e a liquidez global, que superam amplamente as do ouro físico. Terceiro, a adoção institucional crescente, que reduziu drasticamente o risco de cauda do ativo.

Desde que os ETFs de Bitcoin à vista foram aprovados nos Estados Unidos, em janeiro de 2024, o fluxo institucional para o ativo mudou de patamar. Dados da Bloomberg indicam que os ETFs de Bitcoin acumulam mais de US$ 120 bilhões em ativos sob gestão, cifra que supera a maioria dos ETFs de ouro. Para Jones, esse movimento valida a tese de que o Bitcoin está se consolidando como reserva de valor digital.

A posição de Jones ganha relevância adicional quando se observa o comportamento do ouro. O metal precioso acumula alta expressiva nos últimos 12 meses, impulsionado pela demanda de bancos centrais de economias emergentes. Mas Jones argumenta que o Bitcoin oferece um perfil de retorno assimétrico que o ouro não consegue replicar. Como analisamos na cobertura de criptomoedas do portal, o debate entre Bitcoin e ouro como reserva de valor se intensificou com a entrada de grandes alocadores no mercado.

O alerta sobre ações americanas sobrevalorizadas

A outra metade da tese de Jones é igualmente importante. O gestor avalia que o mercado acionário americano opera com múltiplos insustentáveis, especialmente no setor de tecnologia. O índice S&P 500 negocia a cerca de 22 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses, patamar historicamente elevado fora de ciclos de bolha.

O cenário é agravado pela concentração do mercado. As chamadas “Magnificent Seven”, grupo de big techs que inclui Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla, respondem por uma fatia desproporcional da capitalização do S&P 500. Qualquer decepção nos resultados dessas empresas pode arrastar o índice inteiro. Nesta semana, Wall Street já sentiu pressão com preocupações sobre margens no setor de inteligência artificial e tensões geopolíticas no Oriente Médio.

Jones não está sozinho nessa visão cautelosa. Outros gestores de peso, como Ray Dalio e Howard Marks, também têm alertado sobre a desconexão entre valuations e fundamentos. A diferença é que Jones propõe uma alternativa concreta: realocar parte do portfólio para ativos reais escassos, com destaque para o Bitcoin.

O que isso significa para o investidor brasileiro

Para quem investe a partir do Brasil, a tese de Jones merece contexto adicional. O real brasileiro tem se valorizado frente ao dólar nos últimos meses, o que reduz o custo de entrada em ativos dolarizados como o Bitcoin. Ao mesmo tempo, a Selic ainda em patamar restritivo cria um custo de oportunidade relevante para quem aloca em ativos sem rendimento fixo.

A questão prática é de dimensionamento. Jones já revelou em entrevistas anteriores que mantém uma alocação de baixo dígito percentual em Bitcoin dentro de seu portfólio. Não se trata de concentrar posições, mas de usar o ativo como proteção de cauda, algo como um seguro contra cenários de descontrole fiscal e monetário.

Com os dados do payroll de junho prestes a sair nos Estados Unidos, o mercado terá mais clareza sobre a trajetória dos juros americanos. Se o mercado de trabalho vier mais fraco que o esperado, a probabilidade de cortes de juros pelo Fed aumenta, o que historicamente favorece ativos de risco como o Bitcoin. Por outro lado, um payroll forte reforça o cenário de juros altos por mais tempo, como discutimos nesta análise sobre o impacto do payroll nos juros.

Tese de longo prazo com riscos de curto prazo

É importante separar a tese estrutural de Jones das oscilações de curto prazo. O Bitcoin segue sendo um ativo volátil. Sua correlação com o Nasdaq, embora menor do que no ciclo 2021-2022, ainda é significativa em momentos de estresse. Um sell-off generalizado em ações americanas poderia arrastar o Bitcoin no curto prazo, mesmo que a tese de longo prazo permaneça intacta.

O que diferencia a posição de Jones da maioria dos entusiastas de cripto é a sofisticação do raciocínio. Ele não argumenta que o Bitcoin vai a um preço específico. Ele argumenta que, num portfólio diversificado, uma pequena alocação em Bitcoin melhora o perfil de risco-retorno quando governos ao redor do mundo continuam expandindo a base monetária. É uma tese sobre política monetária, não sobre especulação.

Para o investidor que acompanha macro e cripto, vale monitorar se outros gestores institucionais seguirão o mesmo caminho. Se a tese de Jones se provar correta e a inflação americana se mostrar mais persistente do que o mercado precifica, o fluxo para Bitcoin pode acelerar de forma significativa nos próximos trimestres.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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