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Criptomoedas

Pagamentos com stablecoins saltam 45% mesmo sem nova oferta

Volume de pagamentos com stablecoins atingiu US$ 482 bilhões em nove meses, alta de 45%. Gigantes de pagamento aceleram integração com infraestrutura cripto.

Pagamentos com stablecoins saltam 45% mesmo sem nova oferta
Foto: DΛVΞ GΛRCIΛ / Unsplash

O mercado de stablecoins vive um paradoxo revelador. A oferta total em circulação praticamente não se mexeu em 2026, estacionada em torno de US$ 305 bilhões com alta de apenas 0,4% desde janeiro. Mas o dinheiro que já existe no ecossistema está circulando muito mais rápido, e agora passa pelas mãos de Visa, Mastercard e Stripe.

Segundo dados de um relatório da Allium, firma de análise on-chain, os pagamentos com stablecoins atingiram US$ 482 bilhões nos primeiros nove meses do ano, crescimento de 45% na comparação anual. O número de transações saltou ainda mais: 71%, superando 1 bilhão de operações. É velocidade monetária pura, sem inflação de oferta.

Para quem acompanha a evolução do mercado cripto, o dado mais relevante talvez não seja o volume total, mas o que ele diz sobre o perfil de uso. As stablecoins estão deixando de ser instrumento de especulação e arbitragem em exchanges para se tornarem trilhos de pagamento reais.

Cartões de stablecoins crescem dez vezes em um ano

Os cartões vinculados a stablecoins representam a fatia de crescimento mais agressiva. Os gastos com esse tipo de cartão chegaram a US$ 3,9 bilhões até setembro, dez vezes o valor registrado no mesmo período do ano anterior. Detalhe importante: 84% do aumento nas transações com cartão veio de compras abaixo de US$ 50.

Isso não é movimentação institucional. São pessoas comprando café, pagando transporte, assinando serviços. É o tipo de adoção granular que transforma infraestrutura financeira em hábito de consumo.

Ainda assim, convém dimensionar o fenômeno. O volume dos cartões de stablecoins no segundo trimestre equivaleu a apenas 0,03% dos US$ 4 trilhões processados pela Visa no mesmo período. A fatia é minúscula, mas é exatamente esse gap que atrai os gigantes de pagamento para o jogo.

O que Visa, Mastercard e Stripe estão construindo

Três anúncios na mesma semana deixaram claro que as maiores redes de pagamento do mundo não estão mais experimentando com stablecoins. Estão integrando.

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A Mastercard lançou sua Global Money Platform em parceria com a BVNK, empresa de infraestrutura para stablecoins que adquiriu em agosto. A plataforma unifica contas em moeda tradicional, saldos em stablecoins, conversões, gastos com cartão e transferências bancárias em uma única integração. Bancos e fintechs podem oferecer contas que combinam moeda fiduciária e stablecoins. As primeiras a embarcar foram a Nuvei e a Marqeta.

A Stripe, por sua vez, está desenvolvendo com a Plasma XPL cartões que suportam saldos em dólares, euros, reais brasileiros, pesos mexicanos e colombianos, além de stablecoins elegíveis. A proposta é permitir que o cliente gaste a partir do saldo que melhor corresponda à moeda da compra, eliminando conversões desnecessárias. A infraestrutura já cobre mais de 30 países, com planos de chegar a mais de 100 até o fim do ano.

A Visa trouxe as stablecoins para o lado do financiamento de pagamentos internacionais. A Inyo Global, focada em orquestração de pagamentos para fintechs e bancos, se tornou a primeira a colocar em uso comercial o serviço de pré-financiamento com stablecoins do Visa Direct. Na prática, empresas de pagamento podem usar USDC, a stablecoin da Circle, para financiar transferências internacionais em tempo quase real, sem depender das janelas do sistema bancário tradicional. O destinatário continua recebendo pelos canais convencionais.

Para quem acompanha a expansão da Stripe no universo cripto, o movimento confirma uma tendência que vem ganhando corpo: stablecoins como camada de eficiência dentro da infraestrutura existente, e não como sistema paralelo.

O que os dados realmente mostram (e o que escondem)

Há uma ressalva metodológica importante nos números. Do total bruto de US$ 97,9 trilhões em transferências de stablecoins nos primeiros nove meses de 2026, a Allium classificou apenas US$ 2,4 trilhões, ou 2,5%, como atividade de usuário final. O restante é movimentação entre exchanges, protocolos de finanças descentralizadas e transações automatizadas.

A estimativa de US$ 482 bilhões em pagamentos vem desse universo filtrado de US$ 2,4 trilhões. Ainda é um número expressivo, mas bem diferente do que o volume bruto sugere à primeira vista. Quem analisa o ecossistema cripto precisa ter esse filtro em mente para não confundir atividade de mercado com adoção real.

Mesmo com essa ponderação, a taxa de crescimento é notável. Um salto de 45% no volume e 71% no número de transações, em um ano em que a oferta ficou praticamente estável, indica que o giro do dinheiro digital está se acelerando por conta da demanda genuína, não por emissão de novos tokens.

Por que a convergência importa agora

O ponto central desta movimentação é a dissolução da fronteira entre dinheiro “tradicional” e “digital”. Como resumiu Patrick Mollard, cofundador da Fipto, empresa de pagamentos corporativos baseada em stablecoins: empresas não querem infraestrutura cripto separada funcionando ao lado de suas operações financeiras existentes. Querem transitar entre moeda fiduciária e stablecoins dentro do mesmo ambiente.

Essa é uma mudança de mentalidade que vai além da tecnologia. Durante anos, o mercado cripto tentou construir sistemas financeiros alternativos. O que está acontecendo agora é diferente: as redes incumbentes estão absorvendo a funcionalidade das stablecoins em suas próprias estruturas. Para o usuário final, a experiência tende a ser invisível. Ele paga com cartão, a liquidação acontece em USDC nos bastidores, e o comerciante recebe em moeda local.

Para investidores e profissionais do setor financeiro, a implicação prática é dupla. Primeiro, o valor das stablecoins se consolida como infraestrutura, não como ativo de especulação. Segundo, as empresas que dominam os trilhos de pagamento global estão construindo vantagens competitivas difíceis de replicar, como já discutimos em nossa cobertura sobre tokenização de ativos.

O mercado de stablecoins pode até parecer estagnado quando se olha para a oferta total. Mas por dentro, a velocidade do dinheiro conta uma história completamente diferente.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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