Finanças

Ouro sobe com dívida dos EUA em US$ 40 trilhões no radar

Dívida pública dos EUA superou US$ 40 trilhões pela primeira vez. O ouro reagiu com alta de 0,57% e analistas veem espaço para mais ganhos.

Ouro sobe com dívida dos EUA em US$ 40 trilhões no radar
Foto: Zlaťáky.cz / Unsplash

A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. O número, divulgado pelo Tesouro americano na quarta-feira (19), funciona como uma espécie de atestado oficial daquilo que o mercado já precificava há semanas: a trajetória fiscal americana está fora de controle, e ninguém em Washington parece ter um plano concreto para reverter isso.

O ouro reagiu de forma imediata. Na Comex, o contrato para dezembro encerrou a quinta-feira (20) em alta de 0,57%, cotado a US$ 4.571,4 por onça-troy. A prata acompanhou com ainda mais força, subindo 3,46% e fechando a US$ 68,105 por onça-troy.

O que chama atenção não é a alta isolada de um dia, mas o padrão que se consolida. O ouro vem sendo tratado pelo mercado global como o termômetro mais confiável da desconfiança fiscal, especialmente em relação à maior economia do planeta.

Recompra de Treasuries: o remédio que não cura a doença

No centro da discussão está a decisão do Tesouro americano de aumentar as recompras de títulos de longo prazo. O secretário Scott Bessent foi a público afirmar que a medida “não tem nada a ver” com a política de juros do Federal Reserve e que não será inflacionária. Segundo ele, os rendimentos dos Treasuries “não estão representando os fundamentos subjacentes do mercado”.

A frase é reveladora. Quando o secretário do Tesouro precisa explicar que os preços dos títulos do próprio governo não refletem a realidade, algo estrutural está errado. Bessent também deixou sobre a mesa a possibilidade de ampliar ainda mais o volume de recompras, sinalizando que o governo está disposto a intervir no mercado de dívida de forma cada vez mais agressiva.

A leitura de grandes instituições financeiras é menos otimista do que o discurso oficial sugere. Analistas de dois dos maiores bancos globais avaliam que a recompra “trata sintomas, mas não resolve o problema”. A metáfora é precisa: recomprar títulos alivia a pressão sobre os yields no curto prazo, mas não reduz o déficit fiscal que alimenta a emissão crescente de dívida. Como acompanhamos na cobertura de mercados financeiros, o déficit americano segue em trajetória de expansão sem sinais concretos de reversão.

Por que o ouro se beneficia desse cenário

O metal precioso cumpre múltiplas funções numa carteira, mas três delas se tornaram especialmente relevantes no ambiente atual: proteção contra inflação, hedge contra risco soberano e refúgio em momentos de aversão a risco geopolítico.

Segundo análise do Swissquote, o ouro tem potencial para ampliar os ganhos caso o sentimento global de risco se deteriore e incentive fluxos de capital para ativos considerados portos seguros. “Manter exposição ao ouro proporciona à carteira uma proteção contra a inflação, a dívida pública em disparada e riscos geopolíticos”, aponta a instituição.

O contexto é particularmente favorável. Os US$ 40 trilhões em dívida pública americana representam cerca de 140% do PIB dos Estados Unidos. Para efeito de comparação, em 2008, no auge da crise financeira, essa relação era de aproximadamente 64%. Em 2020, quando a pandemia forçou pacotes fiscais trilionários, o número já havia saltado para cerca de 100%. A aceleração dos últimos cinco anos não tem precedente em tempos de paz.

Bessent insistiu que “a única fonte de inflação nos EUA é energia, que será temporária”, e que as expectativas inflacionárias estão em queda. O mercado, no entanto, parece discordar. O fato de o ouro operar acima de US$ 4.500 por onça-troy é, por si só, um voto de desconfiança contra a narrativa de estabilidade fiscal. Como abordamos em análises anteriores sobre política monetária, a divergência entre discurso oficial e precificação do mercado costuma antecipar movimentos relevantes.

Nível técnico: o que o ouro precisa sustentar

Do ponto de vista técnico, analistas do Sucden Financial avaliam que, apesar do movimento construtivo, o ouro precisa se manter acima de US$ 4.450 por onça para confirmar que a alta recente vai além de uma simples recuperação impulsionada pelo fechamento de posições vendidas.

Esse é um ponto importante para quem acompanha o ativo. Após a forte alta da sessão anterior, é natural que parte dos ganhos venha de traders cobrindo posições short, e não necessariamente de fluxo comprador genuíno. A sustentação acima de US$ 4.450 indicaria que há demanda real sustentando o patamar, e não apenas um ajuste técnico.

A trajetória do ouro em 2025 impressiona. O metal acumula valorização superior a 25% no ano, impulsionado por compras recordes de bancos centrais, especialmente de economias emergentes que buscam diversificar reservas para longe do dólar. A dinâmica de desdolarização das reservas globais se tornou um dos temas estruturais mais relevantes para o mercado financeiro.

O que isso significa para o investidor brasileiro

Para quem investe a partir do Brasil, a alta do ouro ganha uma camada extra de complexidade. O metal é cotado em dólar, o que significa que a performance para o investidor brasileiro depende também do câmbio. Com o real se fortalecendo em relação ao dólar nas últimas semanas, parte do ganho do ouro em dólar foi compensada pela apreciação cambial.

Ainda assim, o ouro continua sendo um dos poucos ativos com correlação negativa consistente com cenários de estresse fiscal e geopolítico. Em um ambiente onde a maior economia do mundo acumula dívida em velocidade recorde e o Tesouro americano recorre a recompras para administrar a curva de juros, a tese de proteção patrimonial ganha força.

O marco de US$ 40 trilhões em dívida não é apenas um número redondo para manchetes. É a materialização de uma tendência fiscal que, caso não seja enfrentada com ajustes estruturais, pode redefinir o papel do dólar como moeda de reserva global. E quando isso acontece, historicamente, quem ganha é o ouro.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…