Open USD: Visa, Mastercard e Coinbase criam stablecoin rival da Tether
Cinco gigantes de pagamentos e tecnologia se unem em joint venture para criar stablecoin de dólar. Cade aprovou a operação sem restrições. Entenda o que muda no mercado.
Stripe, Visa, Mastercard, Coinbase e Shopify formalizaram uma joint venture chamada Open Standard para lançar a Open USD, uma stablecoin lastreada em dólar americano com ambição de competir diretamente com Tether (USDT) e Circle (USDC). O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem qualquer restrição, classificando-a sob rito sumário por não identificar riscos à concorrência.
O movimento é significativo. Pela primeira vez, cinco das maiores empresas de pagamentos e infraestrutura digital do mundo se alinham para criar uma stablecoin conjunta. Não se trata de mais uma moeda estável entre centenas: é um ataque coordenado ao duopólio que controla mais de 90% do volume global de stablecoins.
O que é a Open USD e por que ela importa
A Open USD nasce com uma proposta clara: funcionar como camada de liquidação para comércio eletrônico e pagamentos internacionais. A stablecoin terá suporte em múltiplas redes blockchain, incluindo Solana, Ethereum e Base, a rede de segunda camada da própria Coinbase. A plataforma já conta com mais de 140 parceiros comerciais ativos projetados para o lançamento.
O diferencial estratégico está na composição do consórcio. Visa e Mastercard processam, juntas, mais de 700 milhões de transações por dia globalmente. Stripe é a principal infraestrutura de pagamentos para e-commerce, processando centenas de bilhões de dólares ao ano. Shopify sustenta milhões de lojas online. E a Coinbase é a maior corretora de criptomoedas dos Estados Unidos por volume.
Essa combinação dá à Open USD algo que nenhuma stablecoin conseguiu até hoje: distribuição imediata em escala massiva tanto no mundo cripto quanto no sistema financeiro tradicional. Como analisamos em nossa cobertura sobre o mercado de criptomoedas, a convergência entre finanças tradicionais e ativos digitais tem se acelerado de forma consistente.
O duopólio das stablecoins está ameaçado?
Hoje, o mercado de stablecoins é dominado por dois nomes. A Tether (USDT) lidera com capitalização superior a US$ 140 bilhões, seguida pela USDC da Circle, com cerca de US$ 35 bilhões. Juntas, as duas representam mais de 90% de todo o volume financeiro em stablecoins.
A entrada da Open USD não muda esse cenário da noite para o dia. O consórcio inicia com participação zero de mercado, como o próprio Cade reconheceu em sua análise. Mas a vantagem competitiva aqui não é de capital: é de infraestrutura e alcance.
A Tether, apesar de dominante, opera sob constante escrutínio regulatório e nunca conseguiu uma auditoria completa de suas reservas. A USDC, embora mais transparente, depende basicamente da Coinbase e de integrações com protocolos DeFi para distribuição. A Open USD nasceria já integrada aos trilhos de pagamento que movem a economia digital global.
Um detalhe relevante: a joint venture não exige exclusividade. Coinbase e Visa continuarão operando normalmente com USDC e outros ativos. Isso reduz o risco de canibalização e posiciona a Open USD como uma adição ao portfólio, não uma substituição. O modelo lembra o que discutimos sobre a tokenização de ativos reais, onde múltiplas soluções coexistem em vez de se eliminarem.
Por que o Cade precisou aprovar e o que isso sinaliza
A aprovação pelo Cade, embora esperada, não é trivial. O fato de o órgão antitruste brasileiro ter analisado a operação indica que a joint venture tem potencial de atuação no mercado nacional, mesmo que a Open USD não tenha previsão de disponibilidade imediata para usuários brasileiros.
O rito sumário utilizado pelo Cade é reservado para operações que não apresentam risco concorrencial significativo. A equipe técnica concluiu que a união não provoca concentração de mercado nem cria barreiras de entrada para concorrentes. A lógica é simples: como o consórcio parte do zero em um mercado dominado por outros players, não há como argumentar prejuízo à concorrência.
Mas a análise do Cade também reflete algo mais amplo. O Brasil tem se tornado cada vez mais relevante no ecossistema cripto global. Somos o sétimo maior mercado em volume de transações com criptomoedas, e o Banco Central avança com a regulamentação de ativos digitais. A passagem pelo Cade é um sinal de que essas empresas enxergam o Brasil como mercado estratégico de médio prazo, como detalhamos em nossa análise sobre regulação cripto no Brasil.
O que isso muda para quem investe em cripto
Para o investidor brasileiro, o impacto imediato é limitado. A Open USD será lançada primeiro nos Estados Unidos, seguindo a regulamentação local. Mas os efeitos de segunda ordem merecem atenção.
Primeiro, mais competição entre stablecoins tende a beneficiar o usuário final. Taxas de resgate, spreads de conversão e custos de transação podem cair à medida que emissores competem por volume. Segundo, a entrada de Visa e Mastercard nesse mercado valida institucionalmente a tese de que stablecoins não são nicho. São infraestrutura financeira.
Terceiro, e talvez mais relevante: a disputa por stablecoins é, na prática, uma disputa pela hegemonia do dólar digital. Enquanto o governo americano avança lentamente com a discussão sobre moeda digital de banco central (CBDC), o setor privado está criando sua própria versão. A Open USD, com o respaldo de cinco empresas que juntas alcançam bilhões de consumidores, pode se tornar o dólar digital de facto antes que qualquer governo consiga lançar o seu.
O mercado de stablecoins movimentou mais de US$ 30 trilhões em volume de transações nos últimos 12 meses. É um bolo grande demais para que cinco das maiores empresas de pagamentos do mundo simplesmente assistam de fora. A questão não é se a Open USD vai competir com Tether e USDC. É o quanto ela vai redesenhar a dinâmica de poder nesse mercado nos próximos anos.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


