Criptomoedas

Open USD: a stablecoin que uniu Stripe, Visa e Coinbase contra a Circle

Consórcio com mais de 140 empresas lança stablecoin sem taxas de emissão e com repasse de rendimentos, derrubando ações da Circle em 13%.

Open USD: a stablecoin que uniu Stripe, Visa e Coinbase contra a Circle
Foto: beyzahzah / Unsplash

O mercado de stablecoins acabou de ganhar o concorrente mais poderoso de sua história. A Open Standard, empresa independente fundada por Zach Abrams (cofundador da Bridge, adquirida pela Stripe em 2024), lançou a Open USD com o respaldo de um consórcio que inclui Stripe, Coinbase, Mastercard, Visa, BlackRock e mais de 140 empresas de pagamentos, bancos, fintechs e cripto.

A reação do mercado foi imediata. Ações da Circle, emissora da USDC, despencaram mais de 13% na terça-feira, atingindo o menor patamar desde fevereiro. O papel chegou a ser negociado na faixa dos US$ 66, sinalizando que investidores enxergam uma ameaça real ao modelo de negócios da companhia.

O que torna a Open USD diferente não é apenas o peso dos nomes por trás dela. É a forma como o projeto ataca diretamente a principal fonte de receita das stablecoins tradicionais.

O modelo que muda a economia das stablecoins

Emissoras como a Circle ganham dinheiro investindo as reservas que lastreiam seus tokens em títulos do Tesouro americano de curto prazo. O rendimento gerado fica, em grande parte, com a própria emissora. No caso da Circle, essa receita de juros foi responsável por bilhões de dólares nos últimos anos, como já abordamos na nossa cobertura de criptomoedas.

A Open USD inverte essa lógica. Empresas participantes podem emitir e resgatar tokens sem taxas, enquanto a receita gerada pelas reservas é redistribuída entre os parceiros da rede, descontada uma taxa de gestão. A governança também é compartilhada entre membros, sem controle centralizado por um único emissor.

Na prática, o modelo transforma a stablecoin de um produto proprietário em uma infraestrutura aberta. A proposta é clara: se você distribui a stablecoin, você participa dos ganhos.

Quem está por trás e por que isso importa

A lista de parceiros fundadores vai muito além do universo cripto. Além de Stripe, Coinbase, Visa e Mastercard, a Open USD conta com BNY Mellon, Standard Chartered, DBS, U.S. Bank, Shopify, Google, IBM, Mercado Pago, Fireblocks, Anchorage Digital, MetaMask, Aave, Solana, Polygon e Ripple.

Essa amplitude é inédita. Pela primeira vez, gigantes de pagamentos tradicionais, bancos globais e protocolos DeFi nativos estão na mesma mesa. A presença da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, reforça que o interesse institucional em stablecoins migrou de curiosidade para estratégia de negócio, algo que já analisamos ao falar sobre a tokenização de ativos pela BlackRock.

Zach Abrams, que lidera a iniciativa, resume a tese: “Stablecoins existentes têm grandes qualidades, mas para usá-las em escala, empresas precisam de algo aberto, barato, com alta capacidade de processamento e alinhado aos seus interesses.”

O campo de batalha mudou: de token para infraestrutura

O lançamento da Open USD confirma uma tendência que vem se desenhando ao longo dos últimos meses. A disputa no mercado de stablecoins deixou de ser sobre quem emite o melhor token e passou a ser sobre quem controla a infraestrutura e a rede de distribuição.

O mercado total de stablecoins já ultrapassa US$ 300 bilhões. Projeções do Citi indicam que pode atingir US$ 4 trilhões até 2030. Não é mais um nicho de traders de cripto. Stablecoins já movimentam pagamentos transfronteiriços, liquidações comerciais e operações de tesouraria corporativa, como detalhamos nesta análise sobre stablecoins e pagamentos.

A Open USD não é o único projeto nessa linha. A Global Dollar Network (USDG), liderada pela Paxos, já compartilha receita de reservas com parceiros como Robinhood, Kraken e Galaxy Digital. Na Europa, um grupo de bancos lançou a Qivalis para desenvolver uma stablecoin denominada em euro.

Mas nenhum desses projetos tem o calibre de parceiros que a Open Standard reuniu. O fato de concorrentes diretos como Visa e Mastercard estarem lado a lado com players cripto-nativos como Aave e Solana mostra que o setor tradicional não quer apenas usar stablecoins. Quer co-proprietar a infraestrutura.

O que isso significa para a USDC e o Tether

A USDC tem capitalização de mercado de aproximadamente US$ 73 bilhões. A USDT do Tether lidera com cerca de US$ 145 bilhões. Ambas construíram suas posições de formas distintas: a Circle apostou em regulação e parcerias institucionais; o Tether, em trading e mercados emergentes.

A Open USD ataca justamente o flanco institucional da Circle. Ao oferecer compartilhamento de receita e governança distribuída, o projeto tenta cooptar a base de parceiros que a USDC levou anos para construir. A ironia é que a própria Coinbase, uma das maiores distribuidoras de USDC e que recebia repasse de receitas da Circle, agora é parceira fundadora do concorrente.

Jeremy Allaire, CEO da Circle, tentou minimizar o impacto. “Stablecoins representam uma das maiores oportunidades de mercado do mundo, à medida que a internet transforma a infraestrutura para guardar e mover dinheiro”, disse em publicação nas redes sociais. “Damos boas-vindas à inovação e à competição.”

O discurso é protocolar, mas a queda de 13% nas ações fala mais alto. O mercado entendeu que a Open USD não é apenas mais um concorrente. É um modelo de negócios diferente, apoiado por empresas que, juntas, processam trilhões de dólares por ano.

O que muda para quem investe

Para o investidor, a mensagem é dupla. De um lado, a competição tende a reduzir custos e ampliar a utilidade das stablecoins, o que é positivo para o ecossistema como um todo. De outro, a fragmentação do mercado entre múltiplas stablecoins pode gerar riscos de liquidez e confusão regulatória no curto prazo.

O ponto central é que stablecoins deixaram de ser apenas um instrumento cripto. Viraram peça estratégica da infraestrutura financeira global. E quando Stripe, Visa, BlackRock e Google entram juntos no mesmo projeto, não é para testar. É para competir de verdade.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…