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O que a Folha de São Paulo errou sobre o Bitcoin e a Tesla


Por Marcelo Campos
Fevereiro 11, 2021

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A Folha de São Paulo resolveu criticar Elon Musk por ter investido em uma criptomoeda com extensa pegada de carbono. No entanto, esqueceu de te contar quanta energia suja é gasta para manter o dólar em pleno funcionamento.

Em matéria espelhada do site da Reuters, a Folha resolveu publicar esta semana sobre a pegada de carbono que a blockchain, tecnologia por trás do Bitcoin, produz anualmente. De acordo com o jornal paulista, o recente investimento da Tesla no criptoativo é antitético.

A ideia é simples: Elon Musk investe em eficiência energética e advoga por matrizes limpas, no entanto, aloca capital em um ativo que, segundo estimativa da Folha, produz uma pegada de carbono tão grande quanto a da Holanda.

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Apesar da bela manchete e dos consequentes clicks, o jornal paulista replica a velha falácia de Straw Man. Consistindo na impressão de contestar um argumento, ao passo que a ideia inicial em discussão não foi abordada ou devidamente refutada, a Folha publica:

“O apoio da montadora de carros elétricos ao bitcoin nesta semana pode turbinar o uso global de uma moeda que se estima causar mais poluição anualmente do que um pequeno país.”

Apesar do protocolo do Bitcoin funcionar através do Proof of Work, uma arquitetura de rede que utiliza a dificuldade computacional como ferramenta para reger um sistema de incentivos confiável, comparar o dispêndio energético do Bitcoin com o de países é como comparar bananas e maçãs.

Para termos a real magnitude do consumo de energia de um sistema de pagamentos independente e pleno, precisamos compará-lo com outro sistema de pagamentos independente e pleno. Para o exercício, vamos entender o custo ambiental da principal moeda fiduciária do mundo, o dólar.

O custo energético do dólar

Para a moeda norte-americana funcionar como o maior sistema de pagamentos da história da humanidade, é preciso, acima de tudo, papel. A crescente demanda por celulose é uma das principais causas de desmatamento no mundo.

Mas, claro, um sistema de pagamentos não precisa apenas de papel circulante. Para o dólar ser a principal moeda do mundo, é necessário um sistema bancário irrigado e desenvolvido. Apenas nos Estados Unidos existem aproximadamente 76.837 agências bancárias, isso desconsiderando o consumo energético das sedes dos 5.177 bancos comerciais no país.

Então entramos no consumo energético de prédios públicos nos EUA. Lógico, o dólar só é adotado no mundo inteiro pois é a moeda vigente no maior país do mundo. A existência de instituições centenárias é a base da confiança do público na moeda norte-americana.

Nesta conta entram o dispêndio do Federal Reserve (FED), SEC e todas as demais reguladoras estaduais do sistema financeiro americano. Além disso, não podemos esquecer do custo energético de um robusto sistema legal, afinal, sem legislações analógicas, uma moeda fiduciária não encontra segurança jurídica para prosperar.

Parece injusto comparar um código de computador ao dólar, mas não é. O Bitcoin é tão eficiente em termos energéticos que consegue concentrar todas as instituições norte-americanas, que garantem a confiança do dólar, em um simples sistema de incentivos.

Sim, diferentemente do Bitcoin, o dólar não é lastreado em nada além da pura confiança de que o papel tem valor. Enquanto o lastro do criptoativo é em força computacional e escassez digital, o lastro do dólar é frequentemente associado ao espaço fiscal e a saúde monetária da maior potência do mundo.

Se estamos comparando sistemas de pagamentos, temos que comparar como ambos imputam confiança. Parece loucura fazer esse tipo de comparação?  Em 1973, apenas dois anos após o fim do sistema de Bretton Woods no mercado financeiro internacional, os Estados Unidos sofreram o Segundo Choque do Petróleo.

Após os EUA apoiarem Israel em meio a Guerra do Yom-Kippur, países árabes se organizaram na Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEC) e realizaram um severo choque de oferta da commodity. 

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O resultado foi uma desvalorização do dólar, frente à commodity, de mais de 400% em poucos meses. O US Dollar Index (DXY), índice conhecido por demonstrar a força da moeda norte-americana relativa a uma cesta de importantes moedas, retraiu em 22% ao longo da década de setenta. A razão para a abrupta desvalorização foi a destruição sequencial de importantes links entre a moeda fiduciária americana e o mundo real.

A estabilidade da política monetária norte-americana advém da confiança de que o governo em exercício sempre conseguirá honrar com suas dívidas perante a comunidade internacional. Para honrar com suas dívidas, os Estados Unidos confiam na estabilidade do mercado de petróleo.

A verdade é que, desde o fim do Padrão Ouro, o principal link de confiança que a moeda norte-americana tem com o mundo real é o combustível fóssil. Por ser uma commodity com utilidade prática e de valor inestimável para a economia mundial, o petróleo tornou- se parte essencial da saúde financeira dos Estados Unidos. Não à toa, o dólar moderno é frequentemente chamado de PetroDollar por especialistas.

Por fim, vale ressaltar a instituição mais importante para garantir a confiança da moeda norte-americana: o exército dos EUA. Com mais de 800 bases em 70 países, o poderío militar americano é muitas vezes creditado como o principal garantidor da segurança do dólar.

Com ao menos 25 conflitos armados após a 2ª Guerra Mundial, o exército da maior potência do mundo age como policial da comunidade internacional. Confiscando produções de petróleo e gás, inviabilizando economias inteiras e promovendo ditadores extrativistas ao redor do globo, a força militar americana protege, em última instância, o complexo sistema de confiança que sustenta o dólar.

E o bitcoin?

Enquanto o dólar precisa de um mega poderío militar, a hiper-produção da principal commodity causadora do aquecimento global, incentivo do desmatamento para manter o correto funcionamento do papel-moeda e, claro, a energia elétrica gasta na manutenção de cada terceira parte da economia norte-americana, o bitcoin só precisa de uma rede de incentivos.

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Necessitando de força computacional para sustentar as transações da rede, o bitcoin é a primeira moeda verdadeiramente descentralizada da história da humanidade. Dada essa característica, detém níveis de eficiência energética sem precedentes nos tempos modernos.

Além disso, vale ressaltar que a maior parte da mineração de Bitcoin vem de regiões com baixo custo de energia. Especialmente na China, as províncias preferidas pelos mineradores são as que têm como principal matriz energética a produção hidrelétrica. Isso ocorre tanto pela natureza da geração elétrica pela força motriz da água quanto por causa de um subsídio local para produção de energias limpas. 

A maioria das estimativas que culpam uma transação de Bitcoin por 307 Kg de CO2, não só desconhecem como funciona uma transação de Bitcoin, tendo em vista que ela em si não carrega uma pegada de carbono nativa, como também desconhecem a distribuição geográfica de mineradores na China.

Isto tudo porque estamos comparando o Bitcoin ao Dólar, uma moeda fiduciária. Se compararmos o Bitcoin a outras commodities, como o Ouro, a afirmação da Folha perde ainda mais sentido. A cada onça minerada, estima-se que 1 tonelada de CO2 pode ser gerada. No acumulado anual, a mineração do metal precioso é responsável por 126 milhões de toneladas de CO2.

Se a comparação parece estúpida para você, pense por dois segundos se não está comparando bananas com maçãs. Gerar um novo sistema monetário do zero gasta energia. E ainda bem que gasta, apenas assim temos a plena certeza de que o ativo é uma reserva de valor segura e confiável.

Importante mesmo é não se distrair com argumentos espantalhos e narrativas falaciosas no meio do caminho. A verdade é que, no fundo mesmo, quem fala que o bitcoin gasta muita energia ainda não entendeu como realmente funciona o dinheiro.


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