Live gratuita da VEJA Negócios em 13/10, às 19h: como investir fora do Brasil, com Tony Volpon e Rodolfo Bastos. Inscreva-se grátis.Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Tecnologia

Musk acusa oligarcas de barrar Starlink na Índia

Musk chamou o bloqueio de "crime contra o povo indiano". Governo rebateu dizendo que regras são justas. Entenda o que está em jogo no maior mercado de internet do mundo.

Musk acusa oligarcas de barrar Starlink na Índia
Foto: Margo Evardson / Unsplash

Elon Musk escalou o tom contra o governo da Índia e contra o que chamou de “oligarcas” que estariam impedindo a entrada comercial da Starlink no país. Sem nomear ninguém num primeiro momento, o CEO da SpaceX afirmou em publicação no X que interesses monopolistas mantêm um “controle sufocante” sobre o mercado indiano de telecomunicações. Horas depois, ele foi direto: “Ambani é o verdadeiro chefe da Índia?”, escreveu, referindo-se a Mukesh Ambani, presidente da Reliance Industries e homem mais rico da Ásia.

A provocação não é trivial. A Índia tem mais de 1 bilhão de assinantes de internet e é, ao lado da África, a última grande fronteira para serviços de conectividade via satélite. A Starlink tenta operar no país há mais de cinco anos, acumulando aprovações regulatórias, parcerias com operadoras locais e investimentos em infraestrutura terrestre, mas sem conseguir iniciar a operação comercial.

O que a Índia respondeu às acusações de Musk

O Ministério das Comunicações da Índia rebateu Musk no mesmo dia. Em nota oficial, afirmou que o marco regulatório para comunicações via satélite é “justo e não discriminatório”. Segundo o governo, a Starlink e outros dois operadores de satélite licenciados estão “essencialmente no mesmo estágio regulatório”, todos passando por avaliações de segurança obrigatórias antes de obter acesso ao espectro de radiofrequência.

O argumento do governo indiano tem alguma base factual. A alocação de espectro para satélites foi decidida por via administrativa, e não por leilão, exatamente como a Starlink havia defendido. A Reliance Jio, de Ambani, havia pressionado pelo modelo de leilão, que encareceria a entrada de concorrentes estrangeiros. A Índia optou pelo caminho que favorecia a Starlink.

Ainda assim, a empresa segue sem licença comercial. A questão que Musk levanta, de forma pouco sutil, é se as barreiras restantes são técnicas ou políticas. Como temos acompanhado na cobertura de tecnologia, disputas regulatórias em mercados emergentes frequentemente misturam interesses de Estado com interesses privados de grandes conglomerados locais.

Cinco anos de tentativas frustradas

A saga da Starlink na Índia começou em 2021, quando a SpaceX iniciou as pré-vendas de seus equipamentos no país. Em 2022, o governo indiano chamou a empresa de forma pública por estar “reservando e prestando serviços de internet via satélite” antes de obter as licenças necessárias. A SpaceX teve que devolver os valores pagos pelos clientes.

De lá para cá, a empresa reforçou sua presença local. Contratou Prabhakar Jayakumar, ex-executivo da Payoneer, para liderar as operações indianas. Instalou mais de 20 estações gateway e centenas de antenas. Firmou parcerias de distribuição com a própria Reliance Jio e com a Bharti Airtel, as duas maiores operadoras de telecomunicações do país.

Live gratuita da VEJA Negócios em 13/10, às 19h: como investir fora do Brasil, com Tony Volpon e Rodolfo Bastos. Inscreva-se grátis.Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

O paradoxo é evidente: a Starlink tem parcerias com as mesmas empresas que, segundo Musk, estariam bloqueando seu avanço. Jio e Airtel concordaram em distribuir o serviço da Starlink, mas ambas também desenvolvem suas próprias soluções de internet via satélite. A Jio trabalha com a operadora SES, enquanto a Airtel é uma das principais apoiadoras da Eutelsat OneWeb, outro operador licenciado na Índia.

Por que a Índia importa tanto para a Starlink

O mercado indiano representa uma oportunidade singular. Apesar do bilhão de assinantes de internet, grande parte da conectividade é de baixa qualidade, especialmente em áreas rurais. A promessa da Starlink de levar banda larga de alta velocidade a regiões sem infraestrutura terrestre se encaixa, inclusive, nas metas de conectividade universal do primeiro-ministro Narendra Modi.

Lauren Dreyer, vice-presidente de operações comerciais da Starlink, reafirmou esse posicionamento durante o India Mobile Congress, conferência de telecomunicações em Nova Délhi. “Estamos prontos para servir a Índia”, disse, posicionando a Starlink como complemento, e não substituto, das redes terrestres existentes.

A estratégia de não confronto da Starlink no evento contrasta com o tom incendiário de Musk nas redes sociais. Enquanto a equipe local tenta construir pontes com o governo e com as operadoras, o fundador questiona publicamente a soberania do processo decisório indiano. Como analisamos sobre os desafios de expansão das big techs em mercados regulados, esse tipo de desalinhamento entre diplomacia corporativa e postura do CEO pode custar caro.

O que está realmente em jogo

O caso da Starlink na Índia ilustra uma tensão mais ampla na economia global de tecnologia. Mercados emergentes com centenas de milhões de potenciais clientes atraem grandes empresas estrangeiras, mas os governos locais e os conglomerados nacionais não estão dispostos a entregar fatias de mercado sem contrapartidas.

A ironia é que, enquanto a Starlink trava essa batalha regulatória na Índia, a empresa anunciou o lançamento do Starlink Mobile, serviço que conecta celulares comuns a satélites, em Bangladesh, país vizinho. A mensagem implícita é clara: se a Índia não abrir as portas, os vizinhos colhem os frutos.

Para o ecossistema global de telecomunicações, a resolução desse impasse pode definir um precedente. Se a Starlink conseguir operar na Índia de forma competitiva, isso valida o modelo de internet via satélite como alternativa real em mercados de escala continental. Se não conseguir, reforça a tese de que barreiras regulatórias continuam sendo a principal limitação para a disrupção das telecomunicações por satélite, mesmo quando a tecnologia já está pronta.

Musk pode ter razão sobre os obstáculos. Mas chamar o homem mais rico da Ásia de “chefe da Índia” dificilmente acelera a obtenção de uma licença.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Live gratuita da VEJA Negócios em 13/10, às 19h: como investir fora do Brasil, com Tony Volpon e Rodolfo Bastos. Inscreva-se grátis.Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
Continue scrollando para a próxima matéria…