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Finanças

JPMorgan troca BB por Bradesco: o que está por trás da revisão

JPMorgan cortou BB para venda e elevou Bradesco para compra. A razão vai além do rali: custo de capital, agro em crise e recuperação operacional divergente.

JPMorgan troca BB por Bradesco: o que está por trás da revisão
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O setor bancário brasileiro viveu uma sessão de rotação brusca nesta terça-feira (6). As ações do Banco do Brasil (BBAS3) despencaram 6,42%, para R$ 24,64, liderando as perdas do Ibovespa, enquanto o Bradesco (BBDC4) avançou 4,40%, a R$ 22,80. O gatilho foi uma ampla revisão do JPMorgan para o setor financeiro local, que rebaixou o BB de neutro para venda e elevou o Bradesco de neutro para compra.

Mas reduzir o movimento a uma simples troca de recomendação seria superficial. O que o maior banco de investimentos do mundo está dizendo, na prática, é que o ciclo pós-eleitoral redistribuiu os ventos dentro do próprio setor. E que nem todos os bancos vão surfar essa onda da mesma forma.

O custo de capital caiu e mudou toda a conta

O ponto de partida da revisão é macroeconômico. O JPMorgan reduziu em cerca de 1,5 ponto percentual sua premissa de custo de capital próprio para a maioria das empresas que cobre no Brasil, acompanhando a queda da curva de juros de dez anos, que saiu de aproximadamente 14,4% para 13%.

Esse ajuste sozinho explica entre 15% e 20% dos aumentos de preço-alvo realizados pela casa. É uma mudança estrutural na régua de valuation: quando o custo de capital cai, o valor presente dos lucros futuros sobe mecanicamente. Todos os bancos se beneficiam disso, mas a magnitude do benefício depende da trajetória operacional de cada um.

E é aí que a divergência entre BB e Bradesco fica evidente. Enquanto o Bradesco mostra sinais concretos de recuperação operacional, o Banco do Brasil enfrenta um ciclo mais longo de reparação, pressionado pela deterioração da carteira de crédito agrícola. Como discutimos em nossas análises do setor financeiro, a qualidade dos ativos é o que separa uma ação barata de uma armadilha de valor.

Bradesco: o turnaround começa a pagar

O Bradesco vinha sendo tratado como o “patinho feio” entre os grandes bancos privados nos últimos anos. Mas o plano de reestruturação tem mostrado evolução trimestre a trimestre. A redução do custo de risco e a melhora das margens são os sinais que o JPMorgan está capturando.

O novo preço-alvo de R$ 26 representa uma valorização de 19% frente ao último fechamento antes da revisão. As projeções de ROE mostram uma trajetória de 15,9% em 2026 para 16,1% em 2027 e 16,8% em 2028. O lucro líquido ajustado estimado salta de R$ 28,1 bilhões neste ano para R$ 34,8 bilhões em 2028.

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Um dado importante: o Bradesco negociava a 1,2 vez o valor patrimonial, enquanto o múltiplo considerado justo pela casa é de 1,5 vez. Essa diferença, combinada com a melhora operacional, cria o que analistas chamam de “re-rating”: o mercado ainda não precificou a virada.

Banco do Brasil: o agro pesa mais do que parece

O rebaixamento do BB é mais sutil do que uma simples recomendação de venda. O preço-alvo subiu marginalmente, de R$ 22 para R$ 23, mas frente à cotação de R$ 26,30 antes da revisão, isso implica um potencial de queda de 13%. A mensagem é clara: o papel andou demais, rápido demais.

O BB subiu cerca de 16% desde a sexta-feira anterior à revisão e acumulava valorização de 50% desde 15 de agosto. Parte desse rali se justifica pelo cenário macro, mas a realidade operacional do banco não acompanhou na mesma velocidade. A exposição relevante ao agronegócio, que sempre foi um diferencial positivo do BB, virou um ponto de vulnerabilidade.

A forte deterioração da carteira de crédito agrícola deve pressionar lucros, rentabilidade e distribuição de dividendos nos próximos trimestres. O ROE projetado para 2026 é de apenas 8,7%, um número que coloca o BB bem abaixo dos pares privados. A recuperação para 11,8% em 2027 e 13% em 2028 existe no cenário base, mas depende de uma normalização do ciclo agrícola que ainda não está garantida. Para entender o impacto do agronegócio na economia como um todo, vale revisitar nossas coberturas sobre o setor.

O lucro líquido ajustado projetado para 2026, de R$ 16 bilhões, representa uma queda significativa ante os R$ 20,7 bilhões de 2025. É uma contração rara para um banco dessa magnitude.

Itaú segue como favorito e XP como aposta no mercado de capitais

O Itaú Unibanco (ITUB4) manteve a recomendação de compra e teve o preço-alvo elevado de R$ 51 para R$ 60, com potencial de alta de 21%. O JPMorgan considera o Itaú o banco mais bem posicionado entre os incumbentes para crescer no cenário atual. O ROE elevado e a capacidade de capturar a retomada do mercado de capitais são os pilares da tese.

O valuation está mais exigente, próximo de 10 vezes os lucros de 2027, mas a casa argumenta que o papel já negociou entre 11 e 12 vezes recentemente. Itaúsa (ITSA4) aparece como alternativa de exposição indireta, dado o desconto sobre o valor de seus ativos.

Nas empresas ligadas ao mercado de capitais, a XP continua sendo a preferida, com preço-alvo elevado de US$ 26 para US$ 38, um potencial de alta de 35%. O volume médio diário negociado no mercado à vista, de R$ 103 bilhões, está entre três e quatro vezes os níveis pré-eleição. Esse dado sustenta revisões de lucro entre 8% e 12% para XP e B3 em 2027. Como acompanhamos no portal, o rali pós-eleitoral transformou o mercado de capitais brasileiro em uma classe de ativo à parte.

O que isso significa para quem investe

A mensagem central da revisão não é que o Banco do Brasil seja um mau banco. É que, depois de um rali de 50% em menos de dois meses, a relação risco-retorno ficou desfavorável frente a alternativas no mesmo setor. O Bradesco, com múltiplos mais baixos e uma trajetória de recuperação em curso, oferece uma assimetria melhor.

Para o investidor, o ponto prático é: em momentos de euforia generalizada, a diferenciação entre teses dentro de um mesmo setor importa mais do que a direção do setor como um todo. O custo de capital caiu para todos, mas a qualidade dos ativos, a velocidade de recuperação operacional e a exposição setorial criam vencedores e perdedores relativos.

A queda de 6,42% do BB em um único pregão mostra que o mercado leva essas distinções a sério. A pergunta que resta é se o desconto que se abriu no papel já incorpora o cenário negativo ou se a deterioração do agro ainda tem mais capítulos pela frente.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
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