Itaú entrega ROE de 23,6% e mostra resiliência rara no ciclo
Lucro de R$ 12,6 bi e carteira de crédito de R$ 1,5 tri mostram que o maior banco privado do país opera em outro patamar frente a Bradesco, BB e Santander.
Enquanto o cenário macroeconômico pressiona a rentabilidade de praticamente todo o setor bancário brasileiro, o Itaú Unibanco segue operando em outro patamar. O resultado do terceiro trimestre, divulgado nesta semana, mostrou um lucro líquido de R$ 12,6 bilhões, avanço de 6,7% na comparação anual. O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) ficou em 23,6%, um nível que nenhum concorrente de porte semelhante consegue replicar.
A distância para os pares não é sutil. As ações de Bradesco e Banco do Brasil acumulam quedas de 25% no ano. Santander recua 27%. O papel do Itaú cede apenas 1,7%, numa demonstração de como o mercado precifica a diferença entre um banco que navega o ciclo e os que são arrastados por ele.
Carteira de crédito cresce sem comprometer a qualidade
A carteira de crédito consolidada atingiu R$ 1,5 trilhão, crescimento de 1,4% no trimestre e 10,2% em doze meses. No Brasil, a expansão foi ainda mais expressiva: 2,4% no trimestre e 10,9% no ano. São números que mostram apetite calculado, não crescimento irresponsável.
O índice de inadimplência acima de 90 dias fechou o trimestre em 2% no consolidado, ante 1,9% no trimestre anterior. No Brasil, o indicador ficou em 2,1%, estável na comparação trimestral e apenas 0,1 ponto percentual acima do mesmo período do ano anterior. Para um ambiente de juros elevados e atividade econômica desacelerando, a estabilidade da inadimplência é um dado que chama atenção.
As provisões para devedores duvidosos aumentaram 2,3% no trimestre e 9,6% no ano, um movimento preventivo que reforça a solidez do balanço. O índice de capital principal subiu 40 pontos-base, para 12,7%, dando ao banco um colchão confortável para absorver choques ou, como analistas do setor apontam, aproveitar oportunidades e ganhar participação de mercado caso a economia deteriore ainda mais.
Onde o Itaú mostra vulnerabilidade
Nem tudo no balanço é celebração. As receitas de prestação de serviços e seguros recuaram 0,2% no trimestre e avançaram irrisórios 0,2% no ano. É um sinal claro de que a concorrência, especialmente de fintechs e bancos digitais, está corroendo uma linha de receita historicamente robusta para os grandes bancos.
Para manter e atrair clientes pessoa física, o Itaú vem reduzindo ou eliminando tarifas de conta corrente. O efeito apareceu no número: queda de 2,2% nessas receitas no trimestre e tombo de 16,9% em doze meses. É um preço que o banco parece disposto a pagar para defender sua base de clientes num ambiente em que a gratuidade virou regra.
O banco de investimentos também teve um trimestre mais fraco, reflexo de um mercado de capitais menos ativo. As receitas de assessoria financeira e corretagem caíram 26,3% no trimestre e 26,6% no ano. Com o cenário de juros altos inibindo novas emissões de ações e operações de fusões e aquisições, essa linha deve continuar pressionada nos próximos trimestres, como já discutimos em análises anteriores sobre o impacto dos juros no mercado de capitais.
O guidance revisado e o que esperar daqui
No trimestre anterior, o Itaú já havia revisado o guidance para receitas totais, projetando expansão entre 2% e 5% no ano. A leitura do mercado é que o banco deve entregar o piso dessa projeção. A margem com clientes avançou 2,2% no trimestre e 6,6% no ano, compensando parcialmente a fraqueza em serviços, mas não o suficiente para animar quem esperava aceleração.
A operação Brasil, isoladamente, gerou um ROE de 24,5%. O número consolidado, de 23,6%, sofreu impacto da venda da operação de varejo na Colômbia, concluída em julho. Excluindo efeitos fiscais dessa transação, o lucro teria crescido 2,5% na comparação trimestral, não 1,7%.
O banco vale R$ 449 bilhões na bolsa. É o maior valor de mercado entre os bancos brasileiros e um dos maiores da América Latina. A questão que investidores se fazem agora não é se o Itaú é o melhor banco do país. Isso parece resolvido. A pergunta é se o prêmio que o mercado paga pela qualidade do balanço está justificado ou se, a esses múltiplos, o upside ficou limitado.
O que o resultado do Itaú diz sobre o setor bancário
O resultado do Itaú funciona como um espelho invertido do restante do setor. Quando o melhor aluno da classe desacelera levemente e os demais despencam, o problema não é do aluno. É da classe. A combinação de juros em patamares elevados, política monetária restritiva do Banco Central e desaceleração do consumo cria um ambiente em que só bancos com gestão de risco superior e balanços capitalizados conseguem crescer sem destruir valor.
A queda de 25% a 27% nas ações dos concorrentes no ano mostra que o mercado está diferenciando com nitidez quem tem capacidade de travessia e quem vai sofrer. O ROE do Itaú, de 23,6%, não é apenas um número de eficiência operacional. É uma declaração de posicionamento competitivo num setor que está sendo testado pelo ciclo econômico mais desafiador em anos.
Para quem investe em bancos brasileiros, o balanço do Itaú levanta uma reflexão prática: a qualidade tem preço, mas a mediocridade também. E no ciclo atual, a conta da segunda opção está ficando cada vez mais cara.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
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