Finanças

IPCA fraco reacende aposta em corte da Selic e Ibovespa bate 177 mil

Inflação de junho surpreendeu para baixo e mercado já precifica Selic a 14% em agosto. Ibovespa fechou na máxima do dia, puxado por bancos.

IPCA fraco reacende aposta em corte da Selic e Ibovespa bate 177 mil
Foto: Pixabay / Unsplash

O mercado brasileiro teve um daqueles pregões que lembram por que dados de inflação ainda são o principal catalisador da bolsa local. O IPCA de junho veio em 0,16% na comparação mensal, uma desaceleração expressiva ante os 0,58% registrados em maio. A reação foi imediata: o Ibovespa saltou dos 172 mil para os 177.866 pontos, alta de 2,97%, encerrando na máxima do dia. O dólar recuou para R$ 5,10.

Mais do que o número em si, o que moveu o mercado foi a leitura sobre o que vem pela frente. Com a inflação perdendo fôlego, o mercado passou a precificar com mais convicção um novo corte de 25 pontos-base na Selic em agosto, o que levaria a taxa básica de 14,25% para 14% ao ano.

O que o IPCA de junho revela sobre o ciclo de juros

No acumulado de 12 meses, o IPCA marca 4,64%. Ainda está acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central, mas dentro da banda de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima. O dado relevante aqui é a trajetória: a desaceleração mensal sugere que os efeitos da política monetária restritiva estão chegando aos preços.

O Copom iniciou o ciclo de cortes em março e, desde então, os dados de atividade econômica e inflação têm dado respaldo para a continuidade. A curva de juros futuros reagiu com quedas expressivas nas taxas dos DIs, refletindo a expectativa de que o Banco Central terá espaço para manter o ritmo de afrouxamento. Como já analisamos em nossa cobertura de finanças, a trajetória da Selic é determinante para a alocação de capital entre renda fixa e renda variável.

Vale lembrar que a Selic a 14,25% já é restritiva por qualquer métrica. O juro real brasileiro segue entre os mais altos do mundo, o que significa que mesmo com cortes graduais de 25 pontos-base, a política monetária continuará apertada por um bom tempo. O que muda é a direção, e é isso que o mercado precifica.

Bancos puxaram o Ibovespa e isso não é coincidência

O Índice Financeiro (IFNC) subiu 4,12% no pregão. Itaú, que sozinho representa cerca de 8% da carteira teórica do Ibovespa, avançou 4,02% e fechou a R$ 44,30. Não é acidental que o setor bancário lidere em dias de expectativa de corte de juros.

Bancos se beneficiam de múltiplas formas quando a curva de juros fecha. A inadimplência tende a cair com crédito mais barato, as carteiras de títulos públicos se valorizam e o apetite por crédito aumenta. Para investidores, o setor funciona como uma espécie de termômetro do humor macro da bolsa brasileira.

Entre os pesos-pesados, Vale fechou em alta de 1,41%, a R$ 74,18, e Petrobras subiu apesar da queda do petróleo Brent, que recuou 0,38% para US$ 76,01 o barril. A estatal foi beneficiada pelo fluxo de apetite a risco doméstico. Juntos, bancos, Vale e Petrobras representam cerca de 50% do peso do Ibovespa, o que explica a magnitude do movimento.

O único papel do índice que fechou no vermelho foi Prio, com queda de 0,29%. A empresa, que exporta 100% de sua produção de petróleo, segue pressionada pela prorrogação do imposto de exportação sobre petróleo bruto, com alíquota de 12%, e de 50% sobre óleo diesel. A medida, adotada em março pelo governo, foi estendida por mais 60 dias.

O cenário externo ajudou, mas não foi protagonista

Wall Street operou instável durante boa parte do pregão, mas encerrou em leve alta, apoiada pelo setor de tecnologia. Na Europa, o Stoxx 600 fechou praticamente estável, com avanço de 0,04%. Na Ásia, Nikkei e Hang Seng subiram 1,20% e 0,60%, respectivamente.

O fator geopolítico ficou no radar. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã pediu para continuar as negociações diplomáticas, mas reiterou que o cessar-fogo “acabou”. A declaração gerou volatilidade no petróleo, mas não contaminou de forma relevante os mercados acionários. Como discutimos em nossa seção de notícias, tensões no Oriente Médio seguem como risco de cauda para os mercados globais.

Para o investidor brasileiro, o dado doméstico se sobrepôs a qualquer ruído externo. O real se fortaleceu, o dólar acumulou queda de 1,17% na semana, e o Ibovespa avançou 2,18% nos cinco pregões.

O que esperar do Copom em agosto

O mercado está posicionado para um corte de 25 pontos-base. Se os próximos dados de inflação e atividade confirmarem a tendência de desaceleração, o cenário base é uma Selic a 14% ao fim de agosto. Alguns analistas já projetam que o ciclo pode levar a taxa para 13% ou abaixo até o fim do ano, dependendo da evolução fiscal e da dinâmica inflacionária.

O ponto de atenção é a inflação de serviços, que tende a ser mais resistente e responde de forma mais lenta à política monetária. O Banco Central tem repetido que olha para os núcleos e para as expectativas de inflação, não apenas para o índice cheio. Se os núcleos continuarem desacelerando, a porta para cortes adicionais permanece aberta.

Para quem investe em bolsa, a leitura é relativamente direta: juros em queda tendem a favorecer ativos de risco, especialmente setores sensíveis a crédito como varejo, construção civil e bancos. As ações de tecnologia listadas no exterior, que já vinham performando bem, também tendem a se beneficiar de um ambiente global de juros mais baixos. Como explicamos em nossa análise sobre o impacto da Selic nos investimentos, o fluxo de migração entre classes de ativos costuma se intensificar quando a direção dos juros fica mais clara.

CSN Mineração liderou as altas do dia com ganho de 8,28%, enquanto CSN avançou 7,92%, impulsionada por notícias sobre avanço nas negociações para venda da CSN Cimentos. São movimentos específicos, mas que reforçam o pano de fundo de otimismo que tomou conta do pregão.

A sessão desta sexta-feira foi um lembrete de que, no Brasil, a política monetária segue sendo o principal driver de mercado. Com o IPCA colaborando, o caminho para cortes adicionais parece pavimentado. A questão que fica é a velocidade, e o quanto o fiscal vai permitir que o Banco Central avance.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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