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IPCA-15, PCE e Nvidia: o que esperar da quarta-feira

Deflação no IPCA-15, inflação americana e resultado bilionário da Nvidia se cruzam em um único pregão. Veja o que cada dado significa para seus investimentos.

IPCA-15, PCE e Nvidia: o que esperar da quarta-feira
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

A quarta-feira (26) concentra três eventos com potencial de movimentar mercados de forma simultânea: a divulgação do IPCA-15 de agosto no Brasil, o índice PCE de julho nos Estados Unidos e o balanço trimestral da Nvidia após o fechamento das bolsas americanas. Cada um desses dados conta uma história diferente sobre o estado da economia global, mas juntos compõem um retrato que investidores precisam entender.

O Ibovespa chega ao pregão embalado por cinco sessões consecutivas de alta, tendo fechado a terça-feira a 174.576 pontos, com avanço de 1,55%. O movimento foi sustentado por bancos e pela Vale, beneficiados pela queda nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, que trouxe fluxo estrangeiro de volta para a bolsa brasileira.

IPCA-15 de agosto deve registrar deflação rara

A prévia da inflação oficial deve apontar deflação de 0,35% em agosto, segundo estimativas do mercado. O número negativo reflete um fator pontual: o bônus de Itaipu, que derrubou os preços de energia elétrica no período. A alimentação no domicílio também contribui para o recuo, oferecendo um alívio duplo nos dois itens que mais pesam no bolso das famílias.

Nem tudo é celebração, porém. Os bens industriais devem voltar ao campo positivo, sinalizando que a pressão de custos em manufaturados não desapareceu. Mais relevante para o Banco Central: os núcleos de inflação, que excluem itens voláteis, devem arrefecer na margem. Esse dado é o que realmente importa para a condução da política monetária.

Deflação mensal no IPCA-15 é evento raro e, quando ocorre, costuma ser impulsionada por fatores sazonais ou pontuais. A leitura isolada não muda a trajetória dos juros, mas reforça a narrativa de que a inflação corrente está mais comportada do que o temido. Para quem acompanha a curva de juros futuros, o dado pode dar fôlego adicional aos ativos de risco domésticos.

PCE americano: o termômetro que o Fed prefere

Nos Estados Unidos, o deflator do PCE de julho será divulgado às 9h30 (horário de Brasília). Diferente do CPI, que mede preços ao consumidor de forma fixa, o PCE captura mudanças nos padrões de consumo e é a métrica preferida do Federal Reserve para decisões de juros. A expectativa do mercado aponta alta de 0,2% na base mensal.

Um número em linha com as projeções reforça o cenário de cortes graduais de juros pelo Fed, o que tende a beneficiar mercados emergentes como o Brasil. Um dado acima de 0,3% reacenderia temores de política monetária mais restritiva, com impacto direto no dólar e nos títulos longos. Como analisamos em matérias anteriores sobre o impacto dos dados americanos nos mercados, a sensibilidade dos ativos brasileiros aos movimentos do Fed permanece elevada.

Junto com o PCE, sai também a segunda estimativa do PIB americano do segundo trimestre. A primeira leitura já mostrou economia resiliente, mas revisões relevantes são esperadas, especialmente em consumo e investimentos. Se o PIB for revisado para cima com inflação controlada, o cenário é o melhor dos mundos para ativos de risco: crescimento sem pressão inflacionária.

Nvidia: o teste de realidade da tese de inteligência artificial

O balanço da Nvidia, publicado após o fechamento dos mercados americanos, é o evento que pode definir o tom dos próximos dias para o setor de tecnologia global. As projeções de mercado apontam receita na casa de 92 bilhões de dólares no segundo trimestre, o que representaria alta de aproximadamente 97% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A fabricante de chips chega ao resultado em posição delicada. Suas ações acumularam sete pregões consecutivos de queda antes de uma recuperação na terça-feira, a maior sequência de perdas desde 2022. O movimento reflete a ansiedade do mercado com a sustentabilidade dos investimentos em infraestrutura de IA. Como discutimos em análises sobre o setor de tecnologia e inteligência artificial, a tese de que gastos de capital em chips de IA se traduzem em receita proporcional ainda precisa ser validada trimestre a trimestre.

Para investidores brasileiros, o resultado da Nvidia importa além do óbvio. Ações de empresas de semicondutores influenciam o apetite por risco global. Um resultado forte puxa fluxos para mercados emergentes; uma decepção pode reverter a sequência positiva do Ibovespa, independentemente do que mostrem os dados domésticos.

O cenário político e fiscal no radar

No plano doméstico, o Ministério da Fazenda confirmou o salário mínimo de 1.741 reais para 2027, com manutenção da indexação de benefícios previdenciários ao piso salarial. O número segue a fórmula vigente de reajuste, mas reacende o debate fiscal sobre o impacto dos gastos obrigatórios no orçamento federal.

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 está em fase avançada de elaboração. Ao mesmo tempo, a agenda eleitoral começa a ganhar corpo, com pesquisas e sabatinas de candidatos à Presidência ocupando espaço no noticiário. A relação bilateral com os Estados Unidos também apresentou avanços recentes, com a reabertura de canal direto entre os presidentes Lula e Trump, o que pode ter desdobramentos comerciais relevantes nos próximos meses.

No cenário externo, as negociações entre Irã e Omã sobre o controle do Estreito de Ormuz adicionam um elemento geopolítico à equação. A passagem responde por parcela significativa dos embarques globais de petróleo e gás natural liquefeito, e qualquer instabilidade na região pressiona preços de energia, com efeitos em cadeia sobre a inflação global.

O que muda para quem investe

A convergência de dados nesta quarta-feira oferece uma oportunidade rara de leitura cruzada. Se o IPCA-15 confirmar deflação, o PCE vier em linha e a Nvidia superar projeções, o cenário é de continuidade do rali em ativos de risco. A combinação de inflação comportada no Brasil e nos EUA com lucros robustos no setor de IA é exatamente o que sustentou a sequência de cinco altas do Ibovespa.

O risco está na assimetria: basta um dado fora do esperado para quebrar a narrativa otimista. Investidores devem prestar atenção especial aos núcleos do IPCA-15, ao PCE core (excluindo alimentos e energia) e, no caso da Nvidia, às projeções para o próximo trimestre, não apenas ao número reportado. É no guidance que o mercado encontra, ou perde, convicção.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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