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Finanças

IPCA-15 de outubro surpreende e fica abaixo do esperado

Prévia da inflação oficial veio em 0,32%, contra 0,43% esperado pelo mercado. Energia elétrica e passagens aéreas aliviaram, mas alimentos pressionam.

IPCA-15 de outubro surpreende e fica abaixo do esperado
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O IPCA-15 de outubro de 2026 subiu 0,32%, segundo dados divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE. O número ficou significativamente abaixo da expectativa mediana do mercado, que apontava alta de 0,43%. Em 12 meses, o indicador acumula 4,62%, também inferior aos 4,73% projetados por analistas consultados pela Reuters.

O dado é relevante porque funciona como prévia da inflação oficial e costuma calibrar as apostas do mercado para a próxima decisão do Copom sobre a taxa Selic. A surpresa desinflacionária abre espaço para leituras mais benignas sobre o ciclo de política monetária, ainda que a composição do índice traga sinais mistos.

O que puxou a inflação para baixo em outubro

A grande vilã dos meses anteriores, a energia elétrica residencial, inverteu o sinal. O subitem passou de uma alta de 7,42% em setembro para uma queda de 0,89% em outubro, reflexo direto da mudança da bandeira tarifária de amarela para verde. Com a bandeira verde, não há cobrança adicional sobre o consumo, o que alivia diretamente o bolso do consumidor e retira pressão do grupo Habitação.

Habitação, aliás, foi o único dos nove grupos pesquisados a registrar deflação no mês, com recuo de 0,10%. Em setembro, o grupo havia subido 2,07%. A reversão é expressiva e explica boa parte da surpresa positiva do índice cheio.

Outro destaque de alívio veio das passagens aéreas, que recuaram 9,24% no mês e exerceram o principal impacto negativo individual, com contribuição de -0,08 ponto percentual. Quem acompanha a dinâmica de preços no Brasil sabe que passagens aéreas são um dos itens mais voláteis do IPCA e costumam distorcer leituras mensais, mas a magnitude da queda ajudou a compensar pressões em outros setores.

Alimentos seguem pressionando e merecem atenção

Se o dado cheio veio benigno, a abertura por grupos mostra que o alívio não é generalizado. Alimentação e Bebidas liderou as altas com variação de 0,88% e o maior impacto individual no índice: 0,19 ponto percentual.

A alimentação no domicílio acelerou de 0,38% em setembro para 1,01% em outubro. Os vilões são conhecidos de quem frequenta feiras e supermercados: tomate (24,54%), cebola (13,63%), batata-inglesa (10,96%) e arroz (5,80%). São altas de dois dígitos em itens básicos da mesa do brasileiro, o que impacta especialmente as famílias de menor renda.

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Por outro lado, houve recuos relevantes em cenoura (-10,67%), frutas (-1,37%) e café moído (-1,16%). A dinâmica de preços agrícolas responde a fatores sazonais e climáticos, o que torna difícil projetar persistência dessas altas. Ainda assim, como destacamos em análises anteriores sobre o custo de vida, a inflação de alimentos é a que mais corrói a percepção de poder de compra da população.

A alimentação fora do domicílio também acelerou. Refeições subiram de 0,38% para 0,61%, e lanches passaram de 0,44% para 0,66%. São repasses que indicam que o custo dos insumos está chegando ao preço final nos restaurantes.

Combustíveis sobem, mas transportes ficam quase estáveis

O grupo Transportes registrou variação de apenas 0,05% no mês. Mas o número esconde movimentos opostos dentro da categoria. Os combustíveis aceleraram de 0,22% em setembro para 1,20% em outubro, puxados por óleo diesel (3,70%), etanol (2,73%) e gasolina (0,92%).

O que impediu o grupo de pesar mais no índice foi justamente a queda nas passagens aéreas. Sem esse efeito, o núcleo de transportes teria exercido pressão maior. Para quem acompanha o cenário macroeconômico brasileiro, o comportamento dos combustíveis nos próximos meses depende da política de preços da Petrobras e da trajetória do câmbio, dois fatores com alto grau de incerteza.

O que o dado significa para a Selic e para quem investe

O IPCA-15 acumula 4,15% no ano e 4,62% em 12 meses. O número em 12 meses subiu em relação ao período imediatamente anterior (4,47%), o que mostra que a tendência de aceleração ainda não foi revertida. Porém, o fato de o dado mensal ter vindo abaixo do esperado pode moderar o tom do Banco Central na próxima reunião.

Para o investidor, o raciocínio é direto: inflação abaixo do esperado reduz a pressão por juros mais altos e, em tese, favorece ativos de risco. Títulos prefixados e indexados à inflação tendem a reagir positivamente a surpresas desinflacionárias. No mercado de renda variável, a leitura benigna pode dar fôlego ao Ibovespa, ainda que o cenário externo e fiscal doméstico continuem pesando.

Quem investe em renda fixa atrelada ao IPCA deve observar que o juro real oferecido pelos títulos do Tesouro continua em patamares historicamente elevados. Se a inflação de fato convergir, o retorno real desses papéis se torna ainda mais atrativo.

Disparidade regional reforça a complexidade do cenário

As diferenças regionais do IPCA-15 de outubro foram significativas. Belém liderou com alta de 0,76%, pressionada por tomate (17,55%) e energia elétrica (3,71%), que refletiu um reajuste tarifário local de 6,63% aplicado em setembro. Na outra ponta, Curitiba registrou deflação de 0,27%, beneficiada pela queda nas passagens aéreas e por um desconto de 25% na tarifa mínima de água e esgoto.

Essa dispersão mostra que a experiência inflacionária não é uniforme no país. Decisões regulatórias locais, como reajustes de concessionárias e políticas tarifárias municipais, geram realidades de preço muito distintas entre capitais.

O próximo dado relevante será o IPCA fechado de outubro, que confirma ou não a tendência sinalizada pela prévia. Até lá, o mercado deve recalibrar suas projeções para a Selic e para a inflação de 2026. O dado de hoje, isoladamente, é uma boa notícia. Mas a persistência da pressão em alimentos e combustíveis impede comemorações prematuras.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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