Finanças

IPCA-15 surpreende e abre caminho para corte de juros em agosto

Prévia da inflação avançou apenas 0,06%, contra 0,22% esperado pelo mercado. Dado fortalece aposta em novo corte de 0,25 p.p. na Selic pelo Copom.

IPCA-15 surpreende e abre caminho para corte de juros em agosto
Foto: Daniel Dan / Unsplash

A prévia da inflação de julho trouxe um número que poucos esperavam. O IPCA-15 avançou 0,06%, menos de um terço da projeção de 0,22% que o mercado carregava. No acumulado de 12 meses, o indicador está em 4,52%, encostado no teto da meta de 4,5%, mas com uma trajetória que, pela primeira vez em meses, aponta desaceleração convincente.

O dado muda o cálculo político e técnico do Banco Central. Com a próxima reunião do Copom marcada para agosto, a maioria dos analistas agora projeta um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic. A questão deixou de ser se haverá corte e passou a ser o que vem depois dele.

O que os números do IPCA-15 realmente mostram

O destaque do mês foi o índice de difusão, que mede o quanto a alta de preços está espalhada pelos setores da economia. Segundo o IBGE, esse indicador caiu para 48%, contra 60% no mês anterior. Isso significa que a desinflação não é obra de um único item ou setor, mas de uma descompressão ampla e disseminada.

A média dos núcleos de inflação, que filtra choques pontuais para captar a tendência subjacente, subiu 0,23%, abaixo da estimativa de 0,26%. Quando tanto o índice cheio quanto os núcleos surpreendem para baixo, o sinal é difícil de ignorar.

O principal vetor de alívio foi o grupo Alimentação e Bebidas, que registrou deflação de 0,66%. A Alimentação no Domicílio caiu 1,14%, puxada por itens como tomate e batata. Na ponta oposta, Habitação subiu 0,97%, e Transportes avançou 0,11%, pressionado por passagens aéreas com variação de 11,70%.

O efeito do petróleo ainda não chegou

Um detalhe técnico relevante que o mercado precisa considerar: a janela de coleta do IPCA-15 vai até o dia 15 de julho. Isso significa que tanto o pico recente do petróleo, provocado pela escalada de tensões no Oriente Médio, quanto a queda subsequente com a trégua nos conflitos ficaram fora do cálculo.

Os combustíveis recuaram 0,90% no mês, mas por um motivo doméstico. A safra de etanol no Centro-Sul barateou o etanol anidro, que compõe 30% da gasolina vendida no Brasil. O efeito indireto foi puxar o preço da gasolina para baixo. Esse fator sazonal tende a perder força nos próximos meses.

Para agosto, a equação fica mais complexa. O aumento da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% entra em vigor e pressiona na direção contrária. O impacto do petróleo no IPCA-15 de agosto será, portanto, uma variável em aberto que o mercado financeiro acompanha de perto.

O que muda para a Selic e para quem investe

A leitura benigna do dado consolida a expectativa de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em agosto. As projeções do relatório Focus, divulgadas nesta semana, apontam que a taxa básica deve encerrar 2026 em 14%. Hoje ela está em patamar mais elevado, o que significa que o mercado precifica mais de um corte até dezembro.

Algumas casas já revisam para baixo suas estimativas de inflação para o ano. A projeção de IPCA de 5,2% para 2026, mantida por grandes bancos, agora carrega viés de baixa. Outros players do mercado, com projeção de 5,4%, também reconhecem que o dado de julho adiciona risco de revisão.

Para o investidor, o cenário muda de forma concreta. Cortes de juros tendem a valorizar ativos de risco, desde ações na B3 até criptomoedas. Títulos prefixados e indexados à inflação com vencimentos mais longos ganham atratividade relativa. Os juros futuros já reagiram ao dado, recuando em toda a extensão da curva logo após a divulgação.

Cautela ainda é necessária

Nem todos estão convencidos de que um único dado resolve a equação. Há analistas que ponderam que, apesar da surpresa, o resultado isoladamente não seria suficiente para justificar flexibilização monetária. Para esse grupo, a manutenção da Selic ainda é cenário plausível.

Os riscos externos também não desapareceram. As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos continuam no radar, com potenciais reflexos sobre o câmbio e as cadeias de suprimentos globais. Um choque externo de preços poderia reverter rapidamente a trajetória benigna da inflação doméstica. Como já discutimos em nossa análise sobre o impacto das tarifas no mercado brasileiro, a proteção contra essas pressões depende da credibilidade da política monetária e das expectativas ancoradas.

O dado do IPCA-15 é uma fotografia favorável, mas o filme de 2026 ainda tem capítulos incertos. A desinflação disseminada dá ao Copom conforto técnico para cortar. A decisão política, no entanto, depende de quanto peso o comitê dará aos riscos que ainda não se materializaram. Para o investidor atento, o momento é de ajustar posições para um cenário de juros em queda gradual, sem perder de vista que a volatilidade externa pode mudar o roteiro rapidamente.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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