Ibovespa sobe na véspera do segundo turno: o que o mercado está precificando
Bolsa acelerou ganhos na reta final do pregão com investidores se posicionando para o resultado eleitoral de domingo. Dólar caiu abaixo de R$ 5.
O último pregão antes do segundo turno das eleições presidenciais mostrou um mercado que já começou a apostar no resultado das urnas. O Ibovespa acelerou os ganhos na reta final da sessão de sexta-feira (23), encerrando aos 205.082 pontos após alta de 0,47%. O dólar à vista, por sua vez, recuou 0,92% e fechou abaixo dos R$ 5, a R$ 4,99.
O movimento de valorização da bolsa e queda do câmbio aconteceu à medida que investidores se posicionaram para o cenário de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Lula (PT). A leitura predominante no mercado é de que uma troca de governo traria maior disciplina fiscal e menor intervenção estatal na economia.
Apesar da alta no dia, o Ibovespa acumulou perda de 0,17% na semana. O dólar, por outro lado, recuou 1,58% no período, sinalizando que a aposta eleitoral ganhou força especialmente nos últimos dias.
Inflação desacelerou, mas eleição roubou o holofote
Um dado que normalmente dominaria o noticiário passou praticamente despercebido. O IPCA-15, prévia oficial da inflação, registrou alta de 0,32% em outubro, desacelerando frente aos 0,70% de setembro. No acumulado de 12 meses, porém, o indicador subiu para 4,62%, ante 4,47% no mês anterior.
Em qualquer outra semana, a leitura mereceria atenção redobrada. O número de 12 meses se aproxima do teto da meta de inflação e adiciona pressão sobre a política monetária do Banco Central. Mas a cena eleitoral, com debates na TV e últimas pesquisas antes da votação, concentrou toda a atenção dos investidores.
Essa dinâmica não é nova. Como já analisamos em outras coberturas de mercado, períodos eleitorais tendem a comprimir a volatilidade nos dias anteriores à votação e liberar movimentos bruscos logo após o resultado. Quem opera bolsa no Brasil há mais de um ciclo reconhece o padrão.
Blue chips carregaram o índice: Petrobras, Vale e bancos em alta
A composição da alta do Ibovespa diz tanto quanto o número em si. As três forças que representam cerca de 50% da carteira do índice tiveram um dia positivo, o que explica boa parte do desempenho.
A Vale (VALE3) subiu 0,67%, cotada a R$ 61,90, acompanhando a recuperação do minério de ferro na China. O Índice Financeiro (IFNC) avançou 1,17%, puxado pelo Bradesco (BBDC4), que subiu 0,74% após divulgar resultados do terceiro trimestre.
Petrobras foi destaque à parte. As ações ordinárias (PETR3) subiram 0,79%, a R$ 65,24, e as preferenciais (PETR4) avançaram 1,47%, a R$ 58,68. Além do cenário doméstico favorável, o petróleo Brent disparou para US$ 116 o barril, maior nível desde abril, impulsionado por tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Na ponta negativa, Vibra Energia (VBBR3) liderou as perdas com queda de 3,19%. Na ponta positiva, CSN (CSNA3) saltou 12,41%, a R$ 6,07, em um movimento que reflete tanto o preço comprimido do papel quanto a melhora de expectativa para siderúrgicas com o cenário global de commodities.
O cenário externo adiciona camadas de risco
Enquanto o mercado brasileiro operou com viés otimista, Wall Street fechou em queda. O motivo: temores de reescalada nas tensões entre Estados Unidos e Irã após declarações do presidente Donald Trump sobre possíveis novas operações militares contra Teerã.
O impacto mais imediato foi no petróleo. A alta de mais de 3% no Brent reacende preocupações sobre pressão inflacionária global, justamente na semana em que o Federal Reserve se reúne para decidir sobre juros. A reunião acontece na quarta-feira (28) e a expectativa majoritária é de manutenção da taxa na faixa de 3,75% a 4,00% ao ano.
Para o investidor brasileiro, o cenário externo importa por dois canais. Primeiro, o preço do petróleo afeta diretamente a inflação doméstica via combustíveis. Segundo, a política de juros do Fed influencia o fluxo de capital estrangeiro para mercados emergentes como o Brasil.
O que o mercado realmente está precificando
A leitura mais honesta do pregão de sexta-feira é que o mercado fez uma aposta direcional. A aceleração de compras na reta final da sessão, com dólar caindo e bolsa subindo, indica que parcela relevante dos investidores institucionais se posicionou para um resultado favorável nas urnas.
Isso não significa que o mercado “sabe” quem vai ganhar. Significa que as posições foram montadas para um cenário específico. Se o resultado confirmar a aposta, o movimento tende a se estender na segunda-feira. Se frustrar, a reversão pode ser igualmente intensa.
Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, “as compras ganharam ritmo no decorrer da tarde, com os investidores se posicionando antes do resultado de domingo”. A cautela, porém, permanece, já que o mercado aguarda o último debate e as pesquisas finais.
Para quem investe, o ponto central não é tentar adivinhar o resultado. Como já discutimos em análises sobre volatilidade eleitoral, o risco de eventos binários como eleições exige posicionamento defensivo ou, no mínimo, consciência de que a oscilação da segunda-feira pode ser significativa em qualquer direção.
O dado mais revelador do dia talvez seja o mais simples: o dólar abaixo de R$ 5. É um patamar simbólico que o mercado havia perdido e que agora recupera na véspera de uma decisão política. O câmbio, mais do que a bolsa, costuma ser o termômetro mais sensível da percepção de risco no Brasil. E ele sinalizou alívio.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


