Ibovespa sobe 1,55% e renova máxima: o que sustenta o rali
Quinta alta consecutiva do Ibovespa foi puxada por bancos e Vale, com queda nos yields americanos e retorno tímido do capital estrangeiro à bolsa.
O Ibovespa encerrou o pregão desta terça-feira (25) em alta de 1,55%, aos 174.576 pontos, acumulando cinco sessões consecutivas no positivo. O volume financeiro alcançou R$ 28,67 bilhões, um patamar robusto que sugere convicção por trás do movimento e não apenas reposicionamento técnico.
Mas o que está por trás dessa sequência? Dois fatores se destacam: a queda nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e sinais, ainda incipientes, de que o capital estrangeiro pode estar voltando à bolsa brasileira.
Yields em queda nos EUA abrem espaço para mercados emergentes
O rendimento do Treasury de 10 anos recuou de 4,70% para 4,62% em um único pregão, pressionado pelo recuo de 3,89% no petróleo (o Brent fechou a US$ 88,58) e pela decisão do Tesouro americano de ampliar seu programa de recompra de títulos. Quando os yields longos caem, o custo de oportunidade de investir em ativos de risco diminui, e mercados emergentes como o Brasil tendem a se beneficiar diretamente.
Nos Estados Unidos, o S&P 500 subiu 0,32%, em sessão que já antecipa dois eventos importantes na semana: a divulgação do PCE de julho (índice de inflação preferido do Federal Reserve) na quarta-feira e o discurso do chair do Fed, Kevin Warsh, na conferência de Jackson Hole na sexta-feira. O mercado busca pistas sobre a trajetória dos juros americanos, e qualquer sinal dovish tende a ampliar o apetite por risco global.
Para quem acompanha o mercado financeiro, a dinâmica é conhecida: juros americanos mais baixos comprimem o dólar, reduzem o prêmio de risco exigido para ativos brasileiros e tornam a bolsa local relativamente mais atrativa frente à renda fixa americana.
Fluxo estrangeiro ensaia retorno, mas saldo mensal ainda é negativo
No dia 21 de agosto, investidores estrangeiros registraram entrada líquida de R$ 1,76 bilhão na B3. O dado animou parte dos agentes, mas é preciso contexto: o saldo do mês permanece negativo em R$ 21,44 bilhões. Ou seja, o capital gringo ainda está majoritariamente na ponta vendedora em agosto.
Segundo Thiago Pedroso, da Criteria, se as entradas se sustentarem nos próximos pregões, a recuperação do Ibovespa começa a ganhar um fundamento mais consistente e deixa de parecer apenas um repique técnico. O ponto é relevante: ralis sustentados por fluxo doméstico costumam ter fôlego limitado. A participação estrangeira é o que diferencia uma recuperação cíclica de um ajuste pontual.
Quem acompanhou a relação entre cenário macro e alocação de portfólio sabe que o Brasil compete com outros emergentes por esse capital. A combinação de juros reais elevados, valuation descontado e commodities em patamares razoáveis pode ser o gatilho, desde que o cenário fiscal doméstico não deteriore.
Bancos puxaram o índice, com Banco do Brasil em destaque
O setor financeiro liderou os ganhos. Banco do Brasil ON avançou 5,22%, em sessão de recuperação robusta após semanas de pressão por preocupações com o cenário de crédito. Bradesco PN subiu 3,13%, BTG Pactual Unit ganhou 3,04% e Itaú Unibanco PN fechou com alta de 1,83%.
O alívio nos juros futuros ajudou. Os contratos de DI recuaram ao longo de toda a curva, o que beneficia diretamente os bancos (que carregam grandes carteiras de títulos marcados a mercado) e papéis sensíveis a juros de forma geral.
Vale ON subiu 2,04%, descolando da queda do minério de ferro na China. A declaração do CEO Gustavo Pimenta sobre o potencial de expandir a produção em até 50 milhões de toneladas por ano, com a exploração do bloco C em Carajás, adicionou um componente de expectativa de crescimento ao papel.
Petróleo em queda derrubou Petrobras, e Braskem segue em colapso
Na ponta negativa, Petrobras PN caiu 1,8%, refletindo a queda de quase 4% no Brent. A estatal também permanece no radar por conta dos potenciais desdobramentos do pedido de recuperação extrajudicial da Braskem, da qual é acionista controladora ao lado da IG4 Capital.
A Braskem PNA desabou 13,11% nesta terça, ampliando o tombo da véspera, quando a empresa protocolou o pedido para reestruturar US$ 10,9 bilhões em dívidas. A B3 anunciou que as ações serão excluídas dos índices da bolsa, o que tende a gerar pressão vendedora adicional nos próximos dias, à medida que fundos passivos ajustem suas carteiras.
Outro caso que chamou atenção foi o da Hapvida. O papel subiu 0,94%, mas acumula queda de cerca de 43% no mês. A gestora Squadra classificou publicamente a Hapvida como “o maior erro de investimentos” de sua história, uma declaração incomum que ajuda a dimensionar o nível de frustração do mercado com a tese.
Varejo e setores cíclicos surfaram o alívio nos juros futuros
Magazine Luiza ON saltou 9,13%, liderando os ganhos entre papéis sensíveis a juros. Assaí ON avançou 7,82%, Cury ON subiu 7,49% e Localiza ON ganhou 5,79%. Esses movimentos ilustram como a dinâmica de juros futuros impacta diretamente a precificação de empresas cujo valor depende fortemente de fluxos de caixa distantes.
A leitura prática para o investidor: a sustentabilidade desses ganhos depende menos do que acontece internamente e mais da combinação entre dados de inflação nos EUA, tom do Fed em Jackson Hole e continuidade (ou não) do fluxo estrangeiro nos próximos pregões. Se o PCE vier abaixo do esperado e Warsh sinalizar abertura a cortes, o rali pode ter mais fôlego. Caso contrário, os 174 mil pontos podem se mostrar um teto de curto prazo.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
