Finanças

Ibovespa tem primeira perda semanal desde agosto: o que pressiona a bolsa

Bolsa brasileira recuou 1,06% na semana com investidores recalibrando preços diante de eleição apertada, dúvidas fiscais e juros globais menos favoráveis.

Ibovespa tem primeira perda semanal desde agosto: o que pressiona a bolsa
Foto: Leeloo The First / Unsplash

O Ibovespa fechou a sexta-feira (18) em queda de 0,41%, aos 185.229 pontos, e acumulou um recuo de 1,06% na semana. É a primeira perda semanal desde meados de agosto, interrompendo uma sequência que havia levado o índice a flertar com patamares mais elevados ao longo de setembro.

O volume financeiro foi robusto: R$ 38,37 bilhões, inflado pelo vencimento de opções sobre ações na B3. Mas o número alto não mascarou o tom defensivo que dominou o pregão. Investidores entraram no fim de semana recalibrando posições diante de um trio de pressões que ganhou corpo nos últimos dias: incerteza eleitoral crescente, ruído fiscal renovado e um ambiente de juros globais menos amigável.

Eleição apertada eleva o prêmio de risco

A corrida presidencial de outubro segue como o principal catalisador doméstico para os ativos brasileiros. Uma pesquisa Datafolha divulgada na noite de quinta-feira mostrou o presidente Lula (PT) com 46% das intenções de voto em eventual segundo turno, contra 44% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Os números repetem a fotografia da semana anterior e mantêm os candidatos em empate técnico, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Na prática, a paridade nos números dificulta que o mercado precifique com convicção qual será a condução da política econômica a partir de 2027. Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, resumiu o dilema: a dificuldade de antecipar o rumo fiscal eleva o prêmio de risco dos ativos brasileiros. Estrategistas de diversas casas têm reforçado que a volatilidade deve permanecer elevada enquanto a disputa seguir indefinida.

Dados da B3 já capturam certa cautela do capital externo. No dia 16, houve saída líquida de estrangeiros, reduzindo o saldo positivo acumulado em setembro para R$ 6,28 bilhões, ante R$ 7,25 bilhões registrados até o dia anterior. Não é uma fuga, mas indica que o fluxo gringo perdeu fôlego justamente quando o cenário político ficou mais turvo.

Ruído fiscal: Bolsa Família e a trajetória das despesas

O anúncio do reajuste do Bolsa Família, feito na véspera, trouxe desconforto adicional. Isoladamente, o aumento não seria suficiente para alterar a dinâmica do mercado. Mas ele se insere num contexto em que investidores tentam mapear a trajetória das despesas públicas, as fontes de financiamento disponíveis e o grau de comprometimento do governo com a sustentabilidade fiscal.

Esse tipo de sinalização ganha peso redobrado em ano eleitoral. Como já analisamos sobre a política monetária brasileira, decisões de gasto em período pré-eleitoral tendem a ser lidas pelo mercado como indicadores de disciplina fiscal futura, independentemente do partido no poder. O corte recente na taxa Selic pelo Banco Central, o primeiro em meses, adiciona outra camada de complexidade: o BC sinaliza confiança no processo de desinflação, mas o mercado questiona se a trajetória fiscal permite consolidar essa queda de juros no médio prazo.

Juros americanos voltam a pressionar

Do lado externo, o cenário também não ajudou. Os rendimentos dos títulos de dez anos do Tesouro dos Estados Unidos subiram na sexta-feira, refletindo a digestão do primeiro aumento de juros pelo Federal Reserve desde 2023, anunciado dias antes. O S&P 500 até conseguiu fechar no positivo, com alta tímida de 0,17%, mas o movimento nos Treasuries pesou mais sobre mercados emergentes.

Juros longos mais altos nos EUA competem diretamente com ativos de risco em economias emergentes. O mecanismo é direto: investidores globais recalculam o retorno exigido para manter posições em mercados como o Brasil, o que pressiona bolsa e câmbio simultaneamente. Essa dinâmica, como já explicamos nesta análise sobre o impacto dos juros americanos, tende a se intensificar em momentos de incerteza doméstica.

O que caiu e o que subiu no pregão

Os pesos pesados do índice contribuíram para o tom negativo. Vale ON recuou 1,53%, acompanhando a fraqueza global do setor de mineração. CSN ON teve queda expressiva de 6,4%, ainda cercada de incerteza sobre o processo de venda de ativos. Petrobras PN caiu 0,23% e Petrobras ON perdeu 1,09%, pressionadas pela baixa de 0,91% no barril do Brent, que fechou a US$ 103,87. A expectativa de que a Arábia Saudita restabeleça em dias parte da capacidade de um oleoduto danificado por ataque esta semana contribuiu para a queda do petróleo.

Entre os bancos, Santander Brasil registrou o pior desempenho, com recuo de 3,47%. Itaú cedeu 0,59% e Bradesco perdeu 0,88%. Na contramão, Banco do Brasil avançou 1,84% e BTG Pactual subiu 0,43%.

Do lado positivo, destaque para Cyrela ON, que subiu 3,86% em um dia de recuperação do setor imobiliário. O índice imobiliário da B3 avançou 2,12%. Minerva ON também reagiu com alta de 4,46%, após quatro sessões consecutivas de queda que haviam acumulado perda de 7,75%.

O que observar nas próximas semanas

O cenário para a bolsa brasileira no curto prazo depende de três variáveis que se retroalimentam. Primeiro, as pesquisas eleitorais: qualquer movimento fora da margem de erro pode gerar reprecificação rápida de ativos. Segundo, a condução fiscal do governo nos meses que antecedem o pleito, com cada anúncio de gasto sendo lido como sinal sobre o futuro. Terceiro, o comportamento dos juros longos americanos, que definem o apetite global por risco em emergentes.

Para quem investe, o recado da semana é claro: a bolsa brasileira não perdeu fundamento, mas o prêmio de risco subiu. Em momentos assim, a volatilidade não é um bug. É o mercado precificando, em tempo real, a diferença entre dois cenários econômicos possíveis para o país.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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