Finanças

Ibovespa perde 7% em maio: o que explica a fuga dos gringos

Ibovespa acumula a maior queda mensal desde fevereiro de 2023, puxada pela saída recorde de capital estrangeiro. Entenda o que mudou e o que esperar.

O Ibovespa fechou maio com uma queda acumulada de aproximadamente 7%, marcando o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023. A sequência de quatro pregões consecutivos de baixa na reta final do mês consolidou um cenário que já vinha se desenhando desde meados de abril: o investidor estrangeiro está saindo da bolsa brasileira de forma acelerada.

Mais do que um número isolado, a retração reflete uma mudança de postura global em relação a mercados emergentes. E entender o que está por trás disso é mais útil do que lamentar o saldo do mês.

O que provocou a debandada de capital estrangeiro

Três forças atuaram em conjunto contra a bolsa brasileira em maio. A primeira, e mais relevante, é o reposicionamento do dólar global. Com o Federal Reserve sinalizando cautela para cortar juros nos Estados Unidos, os treasuries de 10 anos voltaram a pagar acima de 4,5% ao ano, um patamar que torna ativos de risco em mercados emergentes menos atrativos por comparação.

A segunda força é interna. O cenário fiscal brasileiro continua gerando desconforto entre gestores internacionais. A tramitação da jornada de trabalho 6×1 na Câmara, com potencial impacto sobre custos trabalhistas, se somou a dúvidas sobre o cumprimento da meta de resultado primário. Investidores estrangeiros leem esses sinais como aumento de risco soberano, ainda que o mercado local trate o tema com mais naturalidade.

O terceiro fator é setorial. Petrobras e Vale, que juntas representam cerca de 25% do índice, sofreram com a queda nos preços do petróleo e do minério de ferro. A desaceleração da economia chinesa, principal destino das exportações de commodities brasileiras, pesou diretamente sobre essas ações.

Como maio de 2026 se compara com outros sell-offs

Para colocar a queda em perspectiva, vale olhar para os episódios anteriores. Em fevereiro de 2023, quando o Ibovespa teve desempenho semelhante, o gatilho foi a reestruturação do arcabouço fiscal pelo governo Lula, que gerou incerteza sobre a trajetória da dívida pública. Na época, o índice levou cerca de três meses para recuperar o patamar anterior.

Em outubro de 2024, outro mês de forte saída estrangeira, a bolsa recuou 5,2% em meio a temores eleitorais nos Estados Unidos. A recuperação veio mais rápido, em cerca de seis semanas, impulsionada por resultados corporativos acima do esperado.

O padrão histórico sugere que sell-offs motivados por fatores externos tendem a se reverter mais rápido do que aqueles provocados por problemas domésticos. O caso atual mistura os dois, o que torna a leitura mais complexa. Como analisamos em matérias anteriores sobre o fluxo gringo na B3, a saída de capital estrangeiro costuma abrir oportunidades para quem investe com horizonte mais longo.

Os setores mais atingidos e os que resistiram

Bancos e commodities lideraram as perdas. Itaú, Bradesco e Banco do Brasil recuaram entre 6% e 9% no mês, pressionados pela curva de juros futuros, que precifica uma Selic mais alta por mais tempo. Vale caiu 8,3%, acompanhando a queda de 12% no preço do minério de ferro no mercado spot de Singapura.

Na outra ponta, empresas do setor elétrico e de saneamento mostraram resiliência. Equatorial Energia subiu 2,1% no mês, beneficiada pelo perfil defensivo e previsibilidade de receita. Sabesp também fechou no azul, com alta de 1,7%, refletindo a expectativa de expansão de investimentos pós-privatização.

O setor de tecnologia listado na B3, ainda pequeno, teve comportamento misto. TOTVS recuou 3,4%, enquanto Locaweb subiu 1,8% após reportar crescimento de receita recorrente acima de 20% no primeiro trimestre.

O que esperar para junho e o segundo semestre

O próximo catalisador relevante é a decisão do Copom em meados de junho. O mercado precifica manutenção da Selic em 14,75%, mas o comunicado pode dar pistas sobre o início do ciclo de cortes. Qualquer sinal de alívio monetário tende a beneficiar ações de crescimento e setores sensíveis a juros, como varejo e construção civil.

Do lado externo, o payroll americano de junho será determinante. Um dado mais fraco de emprego nos EUA reforçaria a tese de corte do Fed no segundo semestre, o que historicamente favorece fluxo para emergentes. Como discutimos na análise sobre o impacto do payroll nos investimentos, esse é um dos indicadores que mais movimenta o apetite por risco global.

Para quem investe em ações brasileiras, o mês de maio serviu como lembrete de que a bolsa local continua muito dependente do humor externo. A concentração do índice em poucos setores amplifica movimentos de saída, e a liquidez relativamente baixa em comparação com mercados desenvolvidos torna as oscilações mais bruscas.

A queda de 7% dói no curto prazo. Mas, historicamente, os melhores pontos de entrada na bolsa brasileira aconteceram exatamente quando o consenso era de pessimismo. O investidor que olha para dados e fundamentos, e não para manchetes, tende a se beneficiar desses momentos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…