Finanças

Ibovespa perde 2,5% e volta ao nível de janeiro: o que está por trás

Sexta queda consecutiva do Ibovespa reflete rebaixamento do JP Morgan, inflação acima do esperado e incerteza eleitoral. Entenda o que mudou na percepção de risco.

Ibovespa perde 2,5% e volta ao nível de janeiro: o que está por trás
Foto: Leeloo The First / Unsplash

O Ibovespa fechou esta terça-feira aos 127.874 pontos, com queda de 2,50% e no menor patamar desde 20 de janeiro. É a sexta sessão consecutiva de perdas. O dólar à vista subiu 0,98%, para R$ 5,16. Não foi um dia isolado de mau humor: foi a cristalização de uma mudança de percepção sobre o Brasil que vinha se formando há semanas.

O que transformou desconforto em venda generalizada foi uma combinação rara de fatores negativos convergindo no mesmo pregão: rebaixamento de recomendação por banco estrangeiro de peso, dado de inflação pior que o consenso, pesquisa eleitoral com resultado que desagrada o mercado e sinais de desaceleração econômica aparecendo nos balanços corporativos.

O rebaixamento do JP Morgan e a saída de capital estrangeiro

O JP Morgan cortou a recomendação para o mercado brasileiro de overweight (exposição acima da média) para market perform (neutra). Além disso, reduziu a projeção para o Ibovespa no fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos, o que implica um potencial de alta de apenas 7,5% em relação aos níveis atuais.

Pode parecer um ajuste modesto, mas o efeito prático é relevante. Quando um banco com a influência do JP Morgan reduz a exposição recomendada ao Brasil, fundos globais que seguem essas orientações ajustam posições. O resultado é saída de fluxo estrangeiro, que pressiona tanto a bolsa quanto o câmbio. A queda de Petrobras (PETR4, recuo de 1,35%) mesmo com o petróleo Brent em forte alta ilustra bem essa dinâmica: o fundamento da commodity estava positivo, mas o fluxo vendedor prevaleceu.

Segundo operadores do mercado, a justificativa do banco para a cautela envolve o ciclo de queda da Selic e a deterioração do crédito. Em outras palavras, a percepção de risco no mercado financeiro brasileiro piorou mesmo num ambiente de juros cadentes, algo que normalmente favoreceria a bolsa.

IPCA, IGP-M e o fantasma da inflação persistente

O IPCA veio acima do esperado. A prévia do IGP-M também mostrou pressão elevada. Para um mercado que já estava calibrando expectativas sobre o ritmo de corte da Selic, dados de inflação acima do consenso funcionam como um balde de água fria.

A ata do Copom divulgada no mesmo dia adicionou mais uma camada de complexidade. A combinação de inflação resistente com sinais de desaceleração econômica coloca o Banco Central numa posição desconfortável: cortar juros mais devagar pode frear a economia além do necessário, mas acelerar o ritmo com inflação pressionada gera desancoragem de expectativas.

As taxas dos DIs fecharam em alta, refletindo exatamente essa reprecificação. O mercado passou a embutir um cenário onde os cortes de juros podem ser menos intensos do que se esperava algumas semanas atrás.

Pesquisa eleitoral e o prêmio de risco político

A pesquisa CNT/MDA para a eleição presidencial de 2026 mostrou o presidente Lula liderando com quase 14 pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno, e cerca de 9 pontos num eventual segundo turno. Para o mercado, a leitura é de continuidade política num cenário em que a percepção fiscal já é negativa.

A incerteza eleitoral, paradoxalmente, não vem da disputa em si, mas do que ela sinaliza sobre a trajetória das contas públicas nos próximos anos. Como discutimos em nossas análises sobre o cenário fiscal brasileiro, o mercado tem precificado um prêmio de risco crescente para ativos brasileiros desde o segundo semestre do ano passado.

Balanços já mostram a desaceleração

A temporada de resultados trouxe um elemento novo à equação. Estrategistas do Santander e do Bradesco BBI avaliaram que a desaceleração da atividade econômica já está aparecendo nos balanços das empresas cíclicas domésticas, e não apenas nos indicadores macroeconômicos.

O caso mais emblemático do dia foi o BTG Pactual (BPAC11), que caiu 5,81% após divulgar o balanço do segundo trimestre. A ação foi a mais negociada da B3, com giro superior a R$ 1,8 bilhão. O Índice Financeiro (IFNC) recuou 3,27%, mostrando que o setor bancário liderou as perdas.

Na ponta negativa, Usiminas (USIM5) despencou 7,54% após rebaixamento de recomendação pelo Itaú BBA. Vale (VALE3), que sozinha representa 11% do índice, recuou 2,02%. Bancos, Petrobras e Vale, que correspondem a cerca de 50% da carteira do Ibovespa, estavam todos no vermelho.

Na ponta positiva, apenas seis ações fecharam em alta. CSN Mineração (CMIN3) liderou com ganho de 2,01%.

O que isso significa para o investidor

A convergência de fatores negativos num único pregão não é comum. Quando acontece, costuma marcar uma mudança de regime: o mercado deixa de ser otimista com ressalvas e passa a ser cauteloso por padrão.

Três pontos merecem atenção daqui para frente. Primeiro, o fluxo estrangeiro. O rebaixamento do JP Morgan pode gerar um efeito cascata em outros bancos e casas de análise globais. Segundo, a trajetória da inflação. Se os próximos dados confirmarem a pressão, o espaço para cortes de juros diminui, e com ele o principal catalisador da bolsa em 2025. Terceiro, a temporada de balanços. Se mais empresas cíclicas mostrarem deterioração, a narrativa de que o Brasil está desacelerando ganha corpo e justifica múltiplos mais baixos.

No exterior, o cenário tampouco ajuda. Wall Street fechou em queda com o petróleo de volta ao nível de US$ 90 por barril e o impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o Estreito de Ormuz. A Ásia fechou sem direção única: Nikkei subiu 2,08%, enquanto Hang Seng caiu 1,10%. A Europa ficou praticamente estável.

O Ibovespa com potencial de alta de 7,5% até o fim de 2026, segundo a nova projeção do JP Morgan, é basicamente o que se esperaria de um investimento em renda fixa sem risco. Para a bolsa voltar a atrair capital com convicção, algo precisa mudar na equação fiscal, inflacionária ou política. Por enquanto, o mercado decidiu que esperar é a estratégia mais racional.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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