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Finanças

Ibovespa cai 2% em novembro: o que está por trás do sell-off

Bolsa brasileira recua quase 2% na primeira sessão de novembro com piora do Focus, ruídos sobre política monetária e incerteza sobre equipe econômica do Lula 4.

Ibovespa cai 2% em novembro: o que está por trás do sell-off
Foto: Leeloo The First / Unsplash

O Ibovespa abriu novembro como fechou outubro: em queda. O principal índice da bolsa brasileira recuava 1,89% por volta do meio-dia desta terça-feira (3), aos 164.754 pontos, estendendo o pior momento do mercado acionário local desde a pandemia de 2020.

A combinação é conhecida, mas ganhou novos ingredientes. Piora nas expectativas do boletim Focus, ruídos sobre uma eventual reformulação da política monetária e especulações sobre a composição da equipe econômica de um possível quarto mandato de Lula formam o pano de fundo de um mercado que já havia derretido 9,88% em outubro, a maior queda mensal desde junho de 2022.

O que o Focus revelou sobre a economia brasileira

A pesquisa Focus divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central trouxe deterioração em praticamente todos os indicadores. Analistas consultados passaram a projetar inflação mais alta e crescimento menor tanto para 2026 quanto para 2027. Mas o dado que mais pesou foi a revisão da Selic esperada para o fim deste ano: de 13,25% para 13,50%.

Para o fim de 2027, a expectativa saltou de 11,75% para 12,50%. Isso significa que o mercado está precificando juros elevados por mais tempo, o que comprime diretamente o valuation das empresas listadas na B3 e torna a renda fixa ainda mais competitiva frente à bolsa.

A leitura prática é direta: com a Selic projetada acima de 12% até pelo menos o fim de 2027, o custo de oportunidade de estar na renda variável aumenta. Não por acaso, análises recentes de grandes casas reduziram a recomendação para ações brasileiras, argumentando que o potencial de alta do Ibovespa já não se destaca frente aos retornos oferecidos por títulos públicos e CDBs.

O ruído Lara Resende e a sombra do tabelamento de juros

Um dos gatilhos mais relevantes desta sessão não está nos números, mas nas especulações. Nos últimos dias, circulou a informação de que Lula poderia se reunir com André Lara Resende, economista considerado um dos pais do Plano Real, que vem defendendo publicamente um novo regime monetário para o Brasil.

A proposta de Lara Resende inclui a definição de metas fiscais e monetárias com uma limitação dos juros básicos, prevendo uma redução gradual da Selic para 7,5% em 12 meses e o uso de reservas internacionais para suavizar a depreciação do real. Membros do governo negaram a reunião, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, reafirmou que não há qualquer estudo de “tabelamento” da Selic em curso.

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Ainda assim, o estrago na percepção de risco já foi feito. Como observou Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o simples apoio público de nomes próximos ao presidente à proposta já foi suficiente para pressionar o câmbio e os juros longos. A curva de juros futuros abriu na parte longa, sinalizando que o mercado precifica um cenário de maior risco fiscal e institucional para os próximos anos.

Quarto mandato de Lula: quem será a equipe econômica?

A incerteza sobre a composição da equipe econômica de um eventual Lula 4 é outro fator que drena apetite por risco. Relatos de que nomes mais heterodoxos poderiam ocupar posições-chave alimentam o temor de uma guinada na política econômica.

Durigan afirmou nesta terça-feira que ainda não conversou com Lula sobre novas indicações para o Banco Central, mas garantiu que as nomeações serão feitas com “rigor técnico” e “diferentes perfis”. A frase, vaga por natureza, não acalmou o mercado.

Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, resumiu o sentimento: em momentos de incerteza e volatilidade, investidores ficam mais vendedores do que compradores. A dinâmica é de espera, e espera em um ambiente de juros altos significa fuga da bolsa para ativos de menor risco.

O contexto: outubro foi o pior mês em quatro anos

Para dimensionar o que está acontecendo, vale olhar para trás. Na última semana de outubro, o Ibovespa tombou mais de 18%, no pior desempenho semanal desde março de 2020, quando a pandemia de Covid-19 paralisou mercados globais. No acumulado do mês, a queda de 9,88% foi a mais intensa desde junho de 2022.

Analistas do BB Investimentos, Victor Penna e Wesley Bernabé, alertaram que o cenário para novembro ainda recomenda cautela. Juros longos elevados, maior custo de capital e um ambiente externo menos favorável devem continuar condicionando o desempenho da bolsa. Segundo eles, embora o Ibovespa negocie com desconto relevante frente a outros mercados emergentes, “avaliações mais atrativas não garantem, isoladamente, uma recuperação sustentada”.

O que esperar nos próximos dias

A agenda da semana concentra eventos que podem definir a direção do mercado no curto prazo. Na quarta-feira, o Copom anuncia sua decisão de juros, e a maioria das expectativas aponta para manutenção da Selic nos atuais 13,75% ao ano. O comunicado será dissecado em busca de sinalizações sobre os próximos movimentos.

No exterior, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos ocorrem nesta terça-feira, com potencial de alterar o controle do Congresso americano. O resultado pode ter implicações diretas para setores como inteligência artificial e data centers, gastos com defesa, regulamentação bancária e até o ambiente regulatório para criptomoedas.

A temporada de balanços corporativos também ganha tração. Itaú Unibanco, BB Seguridade, Isa Energia e RD Saúde divulgam resultados após o fechamento desta terça. Mais do que os números em si, o mercado vai prestar atenção nas projeções dos executivos para 2027, em um cenário de juros altos e crescimento econômico mais fraco.

Para o investidor que está posicionado em bolsa, o recado do mercado é claro: não há catalisador positivo no horizonte imediato. A combinação de risco fiscal elevado, juros longos pressionados e incerteza política cria um ambiente onde repiques podem acontecer, mas a tendência de fundo segue exigindo cautela.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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