Ibovespa sobe 5% em setembro: o que explica o rali
Ibovespa fechou setembro com valorização de 5% puxada por bancos, cenário eleitoral e entrada de capital externo. Entenda o que sustentou o rali.
O Ibovespa encerrou setembro com valorização acumulada de 5,03%, aos 186.340 pontos. No trimestre, o ganho chegou a 8,32%. O último pregão do mês consolidou o movimento com alta de 1,37%, enquanto o dólar recuou 0,81%, fechando a R$ 5,175. A combinação de três fatores distintos empurrou o índice para cima: cenário eleitoral, entrada de fluxo estrangeiro e alívio na curva de juros futuros.
Mas a pergunta que importa é outra. Esse rali tem fundamento para continuar em outubro, ou o mercado está precificando um cenário político que pode não se confirmar?
Eleições no centro do tabuleiro
O cenário eleitoral dominou a narrativa do mês. Pesquisas recentes, como a da consultoria Meio/Ideia, apontaram empate técnico entre os principais candidatos nos cenários espontâneo, de primeiro e segundo turno. Mesmo sem definição clara, o mercado parece ter escolhido um lado.
“O mercado parece estar apostando em uma vitória de Flávio”, afirma João Vitor Saccardo, head de renda variável da Convexa Investimentos, referindo-se ao senador Flávio Bolsonaro (PL). A leitura é que uma eventual troca de governo traria políticas mais alinhadas com a agenda de austeridade fiscal e menor intervenção estatal, o que historicamente agrada o investidor local e estrangeiro.
Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil, pondera que “a proximidade entre os candidatos mantém elevada a possibilidade de volatilidade nos ativos brasileiros conforme novas pesquisas e acontecimentos da campanha forem divulgados”. Ou seja, a mesma força que sustentou o rali pode provocar correções bruscas caso o cenário mude.
Quem acompanha a cobertura de mercado financeiro sabe que eleições costumam gerar ciclos curtos de euforia e pânico. O padrão se repetiu em 2018 e em 2022. A diferença agora é que o movimento coincide com ventos favoráveis vindos do exterior.
Bancos e blue chips carregaram o índice
Não foi o Ibovespa inteiro que subiu. O rali teve donos claros. O Índice Financeiro (IFNC) avançou 3,03% apenas no último pregão, puxado pela alta de 5,15% do Itaú (ITUB4), que também foi a ação mais negociada da B3 no dia. Considerando que Vale, Petrobras e os grandes bancos representam cerca de 50% da carteira teórica do Ibovespa, fica evidente que o movimento foi concentrado.
Vale (VALE3) subiu 0,43%, beneficiada pelo ingresso de capital externo. Petrobras teve desempenho misto: PETR3 recuou 0,35% enquanto PETR4 ficou praticamente estável com alta de 0,04%. O petróleo em alta no mercado internacional deu suporte, mas não o suficiente para um movimento expressivo nas ações da estatal.
Na outra ponta, Magazine Luiza (MGLU3) foi o destaque absoluto do mês, com salto de 50% em setembro e 12,52% apenas no último pregão. O impulso veio de uma combinação de fatores: alívio nos juros futuros, expectativa de ganhos de market share com a recuperação judicial de concorrentes e uma parceria recente com o Mercado Livre. O JPMorgan reforçou a visão otimista sobre a varejista, o que atraiu mais compradores.
Já entre as quedas, Natura (NATU3) derreteu 20% no mês, e Totvs (TOTS3) liderou as perdas do último pregão com recuo de 3,49%. A dispersão entre vencedores e perdedores reforça que o otimismo foi seletivo, não generalizado.
O contraste com Wall Street é revelador
Enquanto o Ibovespa subia 5% em setembro, os índices americanos caminharam na direção oposta. O Dow Jones recuou quase 5% no mês. O S&P 500 caiu 0,8%. Apenas o Nasdaq conseguiu fechar no positivo, com alta de 1,7%, sustentado pelas big techs.
Na Europa, o cenário também foi negativo. O Stoxx 600 recuou 2,5% em setembro e 1% no trimestre. Na Ásia, o tom foi mais construtivo: o Nikkei japonês subiu 1,94% e o Hang Seng de Hong Kong avançou 0,37%.
Esse descolamento entre Brasil e mercados desenvolvidos é importante. Parte da explicação está nos dados de inflação mais comportados nos Estados Unidos, que no início da sessão do último pregão chegaram a gerar otimismo, mas não foram suficientes para sustentar Wall Street no azul diante da pressão dos Treasuries.
Para o investidor brasileiro, o recado é duplo. A entrada de fluxo estrangeiro na B3 pode estar refletindo um rebalanceamento de portfólio global, com capital migrando de mercados desenvolvidos caros para emergentes com valuations mais atrativos. Mas também pode ser dinheiro especulativo apostando no resultado eleitoral, o que torna o fluxo volátil por natureza.
O que observar em outubro
Outubro tende a ser o mês mais volátil do calendário eleitoral. As pesquisas vão se intensificar, os debates ganham peso e qualquer mudança nas intenções de voto pode provocar oscilações de 2% a 3% em um único pregão. O Ibovespa já precificou parte do otimismo, o que reduz a margem de segurança para novas altas.
Do lado macro, o investidor precisa monitorar três variáveis. Primeiro, a trajetória dos juros futuros no Brasil, que foi determinante para o desempenho de varejistas e empresas de crescimento em setembro. Segundo, o comportamento dos Treasuries americanos, que seguem pressionando ativos de risco globalmente. Terceiro, o fluxo estrangeiro, como detalhamos em análises anteriores sobre o mercado brasileiro, que pode reverter rapidamente caso o cenário político se torne menos favorável.
O dólar praticamente estável no mês, com queda de apenas 0,10%, sugere que o câmbio ainda não comprou totalmente a tese otimista. Quando há convicção real, o real se fortalece de forma mais contundente. A estabilidade do dólar é, na prática, um sinal de cautela do mercado de moedas em relação ao que o mercado de ações já começou a precificar.
O rali de setembro foi real, mas construído sobre premissas que ainda não se confirmaram. Para o investidor, a lição é clara: aproveitar o momento sem confundir momentum com fundamento. Outubro vai testar se o Ibovespa tem sustentação ou se setembro foi apenas o prólogo de uma correção.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
