Finanças

Ibovespa encadeia 9 altas seguidas: o que sustenta o rali

Com Petrobras subindo 3% e pesquisas eleitorais no radar, o Ibovespa descolou de Wall Street e fechou a 177 mil pontos. Entenda o que sustenta a sequência.

Ibovespa encadeia 9 altas seguidas: o que sustenta o rali
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

A bolsa brasileira vive um momento peculiar. Enquanto Wall Street recuou pressionada pela disparada do petróleo acima de US$ 90 o barril, o Ibovespa fechou a nona sessão consecutiva de alta, com ganho de 1% e cotação a 177.418 pontos. O descolamento não é acidental. Ele revela uma dinâmica muito específica da composição do índice brasileiro e do humor dos investidores locais com o cenário político.

Petrobras, bancos e o peso das commodities na carteira teórica do Ibovespa explicam boa parte do movimento. Mas há uma camada a mais: as pesquisas eleitorais para 2026 já começaram a precificar cenários, e o mercado parece gostar do que vê, pelo menos por enquanto.

Petrobras e bancos carregam o índice nas costas

Os números não deixam dúvida sobre quem liderou a sessão. As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) subiram 3,38%, fechando a R$ 45,02, enquanto as ordinárias (PETR3) saltaram 4,23%, a R$ 40,29. O gatilho foi a alta de mais de 4% do petróleo Brent no mercado internacional, que ultrapassou os US$ 90 o barril.

O setor financeiro também contribuiu de forma relevante. O Índice Financeiro (IFNC) avançou 1,24%, com destaque para o Banco do Brasil (BBAS3), que subiu 2,83% e atingiu R$ 20,74. O papel do Banco do Brasil vem de uma sequência impressionante, acumulando valorização de 16% em poucos dias, algo que tem chamado atenção de analistas como um dos movimentos mais fortes do setor bancário recente.

Vale lembrar que Petrobras, Vale e o bloco de bancos representam cerca de 50% da carteira teórica do Ibovespa. Quando dois desses três pilares sobem com força, o índice acompanha quase que mecanicamente. A Vale, por sua vez, recuou 0,42%, a R$ 78,58, mas o peso combinado dos demais compensou com folga.

O fator eleitoral já chegou ao mercado

Ainda faltam meses para as eleições de 2026, mas o mercado financeiro não costuma esperar convites para precificar cenários políticos. As pesquisas mais recentes mostram uma disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno.

Na pesquisa AtlasIntel, Lula aparece com 47,1% contra 42,6% de Flávio Bolsonaro, uma vantagem de 4,5 pontos percentuais que, descontada a margem de erro de 1 ponto, ainda configura liderança isolada. Já no levantamento do BTG Pactual em parceria com a Nexus, os dois candidatos aparecem tecnicamente empatados, com 46% e 45%, respectivamente.

O dado que mais chama atenção, no entanto, é a fatia de brancos, nulos e indecisos, que saltou de 7,9% para 10,3% na AtlasIntel. Isso sugere que o eleitorado ainda está longe de consolidado, o que significa que qualquer evento pode alterar o equilíbrio rapidamente. Para o mercado, a leitura dominante é de que a competitividade de um candidato percebido como mais pró-mercado adiciona um prêmio à bolsa brasileira.

O descolamento de Wall Street não é novidade

Quem acompanha o comportamento do Ibovespa em ciclos de alta das commodities já viu esse filme antes. Quando o petróleo sobe com força, Wall Street sofre com o fantasma inflacionário, pois custos de energia mais altos ameaçam comprimir margens das empresas americanas e forçam o Federal Reserve a manter juros elevados por mais tempo.

No Brasil, a equação é inversa. Petróleo caro beneficia diretamente a Petrobras, que sozinha responde por uma fatia enorme do índice. Esse mecanismo já foi observado em ciclos anteriores, como em 2022, quando o Ibovespa chegou a subir enquanto o S&P 500 amargava perdas de dois dígitos. A dinâmica entre commodities e a bolsa brasileira é um dos fatores mais relevantes para quem investe no mercado local.

Os índices americanos fecharam em queda. Na Europa, o Stoxx 600 recuou 0,62%. Na Ásia, o Nikkei caiu 0,14% enquanto o Hang Seng avançou tímidos 0,07%. O contraste com o desempenho brasileiro é evidente.

Dólar cai, mas o mês conta outra história

O dólar à vista fechou a sessão em queda de 0,32%, a R$ 5,1801. A leitura isolada do dia sugere otimismo, mas o retrato mensal é bem diferente: no acumulado do mês, o dólar subiu 2,16% contra o real, mesmo enquanto o índice DXY, que mede a força da moeda americana contra uma cesta de divisas, perdeu 0,39%.

Essa divergência mostra que o real teve desempenho pior do que seus pares globais. Os riscos fiscais brasileiros continuam pesando sobre o câmbio. As discussões sobre o papel do BNDES na economia, com propostas de expandir a atuação do banco para 2% do PIB, adicionam incerteza sobre a trajetória das contas públicas. Para entender como o cenário fiscal impacta os investimentos no Brasil, é preciso olhar além do dia a dia da bolsa.

O Ibovespa, aliás, acumulou queda de 0,32% no mês, apesar da sequência de nove altas. Isso significa que o índice passou boa parte do período em território negativo antes de recuperar no fim. A volatilidade do fluxo estrangeiro, sensível tanto ao risco fiscal quanto ao cenário eleitoral, é o principal fator por trás dessa oscilação.

Destaques da sessão: MRV e Embraer em pontas opostas

Na ponta positiva, a MRV (MRVE3) disparou 6,17%, a R$ 5,51, beneficiada pelo alívio nos juros futuros de médio e longo prazo. Construtoras são especialmente sensíveis à curva de juros porque dependem de crédito imobiliário de longo prazo. Quando os DIs caem, o mercado reprecifica essas empresas quase que imediatamente.

Na outra ponta, a Embraer (EMBJ3) recuou 1,82%, a R$ 93,49. O motivo é simples: exportadoras sofrem quando o real se valoriza, porque suas receitas são majoritariamente em dólar. Com o câmbio caindo no dia, as margens projetadas da companhia foram revisadas para baixo pelos operadores.

A sequência de nove altas é expressiva e coloca o Ibovespa num território estatisticamente raro. Historicamente, sequências dessa magnitude tendem a ser seguidas por correções pontuais, mas não necessariamente por reversões de tendência. O que vai definir os próximos passos é a combinação entre o preço do petróleo, os desdobramentos do cenário eleitoral e a capacidade do governo de sinalizar disciplina fiscal. Por enquanto, o mercado escolheu a versão otimista da história.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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