Ibovespa acumula 11 quedas seguidas: o que explica a sequência
Ibovespa emendou 11 sessões no vermelho com tensão geopolítica, fuga do real e piora do crédito no varejo. Entenda o que pressiona a bolsa.
O Ibovespa fechou nesta terça-feira aos 136.334 pontos, em queda de 0,27%, e completou a 11ª sessão consecutiva no vermelho. Agosto ainda não registrou um único pregão positivo. O índice ensaiou uma reação durante o dia, chegou a subir até a faixa dos 138 mil pontos, mas devolveu os ganhos nos minutos finais do pregão. Em dólar, a bolsa brasileira acumula queda de quase 9% no mês e só supera a bolsa argentina entre 21 mercados globais acompanhados.
O dólar comercial subiu 0,40%, fechando a R$ 5,222 na máxima do dia. Os juros futuros encerraram mistos, sem direção clara, enquanto os investidores digerem um cardápio extenso de riscos domésticos e internacionais.
A pergunta que importa para quem investe não é se a sequência vai acabar. É entender o que a sustenta e quais fatores precisam mudar para a dinâmica se inverter.
Oriente Médio e a pressão que vem de fora
O principal gatilho externo desta terça veio de Washington. Donald Trump afirmou que não há negociações em andamento com o Irã e que nada está agendado nesse sentido. A declaração jogou água fria em qualquer expectativa de desescalada no Oriente Médio, região que concentra boa parte do tráfego global de petróleo pelo Estreito de Ormuz.
O petróleo subiu nas duas principais referências internacionais, refletindo o aumento do risco geopolítico. Em Nova York, os três principais índices também fecharam no vermelho. O ambiente externo, portanto, não ofereceu nenhum colchão para a bolsa brasileira.
A tensão geopolítica tem um efeito direto sobre ativos de risco em mercados emergentes. Quando a incerteza global aumenta, o capital migra para ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano, e abandona posições em moedas e bolsas de países como o Brasil. Esse movimento ajuda a entender a pressão simultânea sobre câmbio e bolsa que temos visto nas últimas semanas.
Real perde espaço como moeda de carry trade
Um sinal relevante veio do Citi, que retirou o real brasileiro de sua cesta de carry trade e o substituiu pelo rand sul-africano. Carry trade é a estratégia em que investidores tomam dinheiro emprestado em moedas com juros baixos e aplicam em moedas com juros altos para embolsar o diferencial. O Brasil, com sua Selic elevada, era uma opção natural. Mas não basta ter juros altos: o investidor precisa confiar que a moeda não vai se desvalorizar a ponto de corroer o ganho com juros.
Goldman Sachs, Itaú BBA e gestores de fundos também emitiram alertas sobre o aumento do prêmio de risco no Brasil às vésperas do ciclo eleitoral de 2026. As incertezas fiscais se somam ao cenário político para criar um ambiente em que o capital estrangeiro exige mais retorno para permanecer no país. Esse diagnóstico é consistente com a deterioração dos indicadores de risco-país observada ao longo do semestre.
Varejo e bancos: a engrenagem que trava por dentro
Se o cenário externo pressiona por fora, a economia doméstica pressiona por dentro. O Bank of America apontou que os balanços recentes de bancos e varejistas revelaram uma combinação preocupante: aumento da inadimplência, elevação das provisões para devedores duvidosos e piora das condições financeiras das famílias brasileiras. Mais da metade dos trabalhadores do país tem dificuldade para fechar as contas no fim do mês, segundo dados de mercado.
Os grandes bancos sentiram o peso. BB caiu 0,84%, Bradesco recuou 0,62%, Itaú cedeu 0,50% e Santander perdeu 1,18%. A B3, operadora da bolsa, caiu 0,76% na mínima do dia, refletindo o pessimismo sobre volumes e atividade do mercado.
No varejo, o caso mais emblemático é o das Casas Bahia, que perdeu mais 6,82% após desabar 33% na véspera com o pedido de recuperação judicial anunciado no domingo. Analistas revisaram suas projeções para baixo. Lojas Renner também sofreu, com queda de 3,45%. Magazine Luiza foi exceção, com alta de 1,18%, mas insuficiente para mudar o tom do setor.
A fragilidade do consumo doméstico é um problema estrutural que limita o potencial de recuperação da bolsa mesmo em cenários de melhora externa. Sem renda disponível, o varejo não gira, os bancos provisionam mais e o ciclo se retroalimenta.
Quem sobrevive à sequência negativa
Nem tudo é ruína. Embraer subiu 0,85% e segue negociando acima dos R$ 100, impulsionada por uma carteira de pedidos robusta e exposição ao dólar forte. Petrobras avançou 0,31%, beneficiada pela alta do petróleo e pela descoberta de reservas na bacia do Amazonas. Vale ganhou 0,21%, sustentada pela alta do minério de ferro.
O padrão é claro: as empresas que conseguem se descolar do ciclo doméstico, seja por receita em dólar, seja por exposição a commodities com preços em alta, são as que mantêm desempenho positivo mesmo em ambiente adverso. Para o investidor, isso reforça a importância da diversificação setorial e geográfica dentro da própria bolsa.
O que muda a partir de agora
A agenda de quarta-feira traz dois eventos relevantes: a divulgação da ata da última reunião do FOMC, o comitê de política monetária do Federal Reserve, e o dado final da inflação de julho na zona do euro. Ambos têm potencial para recalibrar expectativas sobre juros globais e, consequentemente, sobre o apetite por mercados emergentes.
Para a sequência negativa do Ibovespa ser interrompida, é preciso que ao menos uma das frentes de pressão alivie. Uma sinalização mais branda do Fed sobre juros ajudaria. Uma desescalada no Oriente Médio também. No campo doméstico, os catalisadores são mais difíceis de identificar: o risco fiscal é crônico, o ciclo eleitoral ainda está no começo e os indicadores de crédito apontam para baixo.
Onze quedas seguidas não são um evento comum. A última sequência comparável aconteceu em 1984, em contexto completamente diferente. O que o momento atual revela é que o Brasil enfrenta uma convergência rara de vetores negativos, internos e externos, que se reforçam mutuamente. Não se trata de um ou outro fator isolado, mas de uma combinação que exige paciência e seletividade de quem opera no mercado local.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
