Finanças

Hong Kong supera Suíça como capital global das grandes fortunas

Hong Kong desbancou a Suíça como maior polo de riqueza privada do planeta. A mudança reflete a ascensão asiática e redesenha o mapa global do dinheiro.

Hong Kong supera Suíça como capital global das grandes fortunas
Foto: King Ho / Unsplash

Durante décadas, a Suíça foi sinônimo de dinheiro discreto e fortunas bem guardadas. Os bancos de Zurique e Genebra administravam a riqueza da elite global com uma mistura de sigilo, estabilidade e tradição secular. Esse reinado terminou. Hong Kong acaba de ultrapassar o país europeu como a principal praça de gestão de grandes fortunas do planeta, segundo dados compilados pelo Henley & Partners e pela consultoria New World Wealth.

O movimento não aconteceu da noite para o dia. É o resultado de uma reconfiguração tectônica nos fluxos de capital global que vem se acelerando nos últimos cinco anos, impulsionada pela ascensão econômica da Ásia e pela crescente pressão regulatória sobre paraísos fiscais tradicionais na Europa.

O que os números mostram sobre a migração de riqueza

De acordo com o relatório mais recente da New World Wealth, Hong Kong agora concentra cerca de US$ 2,7 trilhões em ativos sob gestão de clientes privados, superando os US$ 2,5 trilhões administrados na Suíça. A diferença pode parecer marginal, mas a tendência é inequívoca: enquanto o centro asiático cresceu 34% em ativos nos últimos três anos, a praça suíça avançou apenas 8% no mesmo período.

O número de indivíduos com patrimônio superior a US$ 30 milhões residindo em Hong Kong subiu 19% desde 2022. Singapura, que aparece como terceira colocada no ranking, também registra crescimento acelerado, com alta de 28% no mesmo intervalo. A Europa, por sua vez, vê suas posições relativas encolherem.

Como analisamos em materias anteriores sobre o cenário financeiro global, a redistribuição geográfica da riqueza está entre as tendências mais relevantes para investidores nos próximos anos.

Por que a Ásia está atraindo os ultra-ricos

A explicação passa por três fatores principais. O primeiro é tributário. Hong Kong não cobra imposto sobre ganhos de capital, heranças ou dividendos. A alíquota máxima de imposto de renda pessoal é de 15%, uma fração do que se paga na maioria das economias desenvolvidas. A Suíça, embora competitiva, viu sua vantagem encolher depois que aderiu ao Common Reporting Standard (CRS) da OCDE, acabando com o sigilo bancário automático.

O segundo fator é geopolítico. O fluxo de milionários chineses do continente para Hong Kong aumentou significativamente após as tensões comerciais com os Estados Unidos. Para famílias ricas da China continental, Hong Kong funciona como uma espécie de câmara de descompressão: é território chinês, mas com sistema jurídico próprio e acesso direto ao sistema financeiro internacional.

O terceiro fator é institucional. Hong Kong investiu pesado em infraestrutura de family offices nos últimos dois anos. O governo local criou incentivos fiscais específicos para escritórios familiares, incluindo isenção de impostos sobre lucros para fundos de investimento familiar qualificados. Mais de 400 family offices foram abertos na cidade só em 2024 e no primeiro semestre de 2025.

O impacto para o mercado financeiro brasileiro

A migração de riqueza para a Ásia não é um fenômeno isolado. Ela afeta diretamente o fluxo de investimentos para mercados emergentes como o Brasil. Gestoras asiáticas de patrimônio tendem a alocar parcelas menores em ativos latino-americanos em comparação com seus pares europeus, que historicamente mantinham exposição relevante a títulos e ações brasileiras.

Segundo dados do Banco Central, os investimentos de portfólio originados da Suíça no Brasil somavam R$ 47 bilhões no fim de 2024. Com a perda de relevância relativa de Zurique como centro de alocação, é possível que parte desse fluxo se redirecione, impactando a demanda por ativos brasileiros no médio prazo.

Esse cenário se conecta diretamente com as discussões sobre investimentos internacionais e diversificação que têm ganhado espaço entre investidores brasileiros. Entender para onde o dinheiro grande do mundo está indo é fundamental para quem aloca capital além das fronteiras nacionais.

Suíça ainda é relevante, mas o jogo mudou

Seria prematuro decretar a morte de Zurique como centro financeiro. A Suíça ainda detém vantagens estruturais: estabilidade política invejável, tradição centenária em private banking e uma moeda forte. Bancos como UBS e Julius Baer continuam entre os maiores gestores de fortunas do mundo.

O que mudou é o vetor de crescimento. O dinheiro novo está sendo gerado na Ásia, e naturalmente gravita para centros financeiros da própria região. A Suíça continua relevante para fortunas europeias e de herança. Hong Kong e Singapura estão capturando a riqueza do futuro, criada por tecnologia, manufatura avançada e commodities.

Para investidores brasileiros que acompanham a conjuntura econômica global, o recado é claro: o eixo financeiro do mundo está se deslocando para o leste. Quem aloca recursos pensando em diversificação internacional precisa recalibrar suas referências geográficas.

O que fica para o investidor

A ascensão de Hong Kong ao topo do ranking de riqueza privada não é apenas uma curiosidade estatística. Ela sinaliza uma mudança estrutural nos fluxos de capital que vai influenciar preços de ativos, disponibilidade de crédito e até a política monetária de bancos centrais nas próximas décadas. A Ásia já era o centro da produção global. Agora se consolida também como centro do capital global.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…