Finanças

Grupo SBF renova com Nike até 2034: o que muda para SBFG3

Dona da Centauro e Fisia amplia parceria com a Nike e adiciona cláusula de renovação anual. Lucro saltou 62,7% no trimestre com efeito Copa do Mundo.

Grupo SBF renova com Nike até 2034: o que muda para SBFG3
Foto: Deybson Mallony / Unsplash

O Grupo SBF, controlador da Centauro e da Fisia, anunciou a extensão do contrato de distribuição exclusiva da Nike no Brasil até 31 de maio de 2034. Mais do que uma simples renovação, o novo aditamento inclui um mecanismo de renovação contínua que pode manter a parceria ativa por tempo indeterminado. Para quem acompanha SBFG3, o movimento muda a equação de risco do papel de forma relevante.

O contrato original havia sido firmado em dezembro de 2020. Na época, o mercado precificava um risco significativo de não renovação, algo que historicamente pesou sobre as ações do grupo. Agora, com a cláusula de rolling basis, as partes se reunirão anualmente para discutir extensões adicionais de um ano. Na prática, isso eleva a previsibilidade contratual de cinco para cerca de sete anos a qualquer momento.

Por que a renovação contínua importa mais do que o prazo

A grande novidade não é o ano de 2034 em si. É o mecanismo de renovação automática. Em contratos de distribuição exclusiva, o principal risco para o distribuidor é o vencimento sem renovação. Foi exatamente esse temor que derrubou SBFG3 em diferentes momentos desde 2021, quando investidores questionavam se a Nike manteria o modelo de parceria no Brasil.

Com o rolling basis, o Grupo SBF deixa de operar com um “relógio” contando contra. A cada ano, se a relação comercial seguir saudável, o horizonte se estende novamente. É um formato comum em mercados maduros, mas pouco utilizado no varejo brasileiro. A mudança sinaliza que a Nike enxerga a operação local como estratégica, não como um arranjo temporário.

A Fisia opera como distribuidora exclusiva de calçados, vestuário, acessórios e equipamentos Nike no Brasil. Além disso, é a operadora exclusiva do e-commerce da marca e a principal responsável pelas lojas físicas monobrand no país. Perder esse contrato significaria, na prática, perder o principal motor de receita do grupo. Essa ameaça agora ficou substancialmente menor.

Resultados do segundo trimestre mostram momento operacional forte

A renovação chega em um momento de resultados excepcionais. O Grupo SBF reportou lucro líquido ajustado de R$ 141,9 milhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 62,7% na comparação anual. Sem ajustes, o lucro líquido foi de R$ 130,5 milhões, contra R$ 46,5 milhões um ano antes, uma alta de quase três vezes.

A receita líquida consolidada bateu recorde: R$ 2,2 bilhões, avanço de 22,1%. O Ebitda ajustado alcançou R$ 248,9 milhões, com expansão de 48,7%. A margem Ebitda subiu dois pontos percentuais, chegando a 11,2%. A margem líquida ajustada saiu de 4,8% para 6,4%. São números que indicam não apenas crescimento de receita, mas ganho real de eficiência operacional.

Parte relevante desse desempenho veio da Copa do Mundo de 2026. Até o final de julho, o grupo vendeu mais de 1,5 milhão de produtos relacionados ao torneio. Foram 1 milhão de camisas oficiais da Seleção Brasileira, 352 mil produtos licenciados da CBF e 169 mil bolas oficiais. Para contextualizar, o setor de varejo no Brasil como um todo tem enfrentado pressão de margens, o que torna o resultado do Grupo SBF ainda mais expressivo.

O efeito Copa é pontual, mas a estrutura mudou

O investidor experiente sabe que eventos como a Copa do Mundo geram picos de receita que não se repetem todo trimestre. É natural esperar uma acomodação nos próximos resultados. Mas o ponto central aqui é outro: a estrutura de longo prazo do negócio mudou.

Antes da renovação, o mercado aplicava um desconto implícito sobre SBFG3 por conta do risco contratual. Com a previsibilidade ampliada para sete anos e o mecanismo de extensão contínua, esse desconto perde fundamento. A empresa pode agora planejar investimentos em lojas, logística e marketing digital com um horizonte muito mais confortável.

Globalmente, a Nike tem adotado uma estratégia de reduzir intermediários e fortalecer canais diretos ao consumidor. O fato de a marca ter optado por aprofundar a parceria no Brasil, em vez de assumir a operação diretamente, sugere que o modelo da Fisia entrega resultados que a Nike não conseguiria replicar sozinha no mercado local. Isso é um voto de confiança operacional significativo, como já analisamos ao cobrir movimentações estratégicas no varejo brasileiro.

O que o investidor deve observar daqui para frente

Três pontos merecem atenção. Primeiro, a sustentabilidade das margens após o efeito Copa. O segundo trimestre foi excepcional, mas a verdadeira prova de fogo será o terceiro e o quarto trimestres, quando o impulso do torneio se dissipa. Se a margem Ebitda se mantiver acima de 9%, será sinal de que os ganhos de eficiência são estruturais.

Segundo, a evolução do canal digital. A Fisia opera o e-commerce exclusivo da Nike no Brasil, e o crescimento desse canal tem margens tipicamente superiores ao varejo físico. A participação do digital na receita total será um indicador importante de geração de valor.

Terceiro, a gestão de estoque e capital de giro. Empresas de varejo esportivo frequentemente enfrentam problemas com excesso de estoque após grandes eventos. A forma como o Grupo SBF administrar o inventário pós-Copa dirá muito sobre a qualidade da gestão, tema que acompanhamos de perto no setor de varejo.

O contrato até 2034 com possibilidade de extensão contínua remove o maior risco idiossincrático de SBFG3. Combinado com resultados recordes e margens em expansão, o Grupo SBF se posiciona como uma das teses mais interessantes do varejo brasileiro. A questão agora é se o mercado vai reprecificar o papel para refletir essa nova realidade contratual, ou se já antecipou parte do movimento.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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