Finanças

Grandes bancos dos EUA criam rede de moeda digital própria

JPMorgan, Bank of America e Citi lideram consórcio para criar moeda digital bancária. Objetivo é frear a migração de depósitos para stablecoins e fintechs cripto.

Os maiores bancos dos Estados Unidos decidiram que, se não podem vencer as stablecoins, é melhor construir sua própria versão. Um consórcio liderado por JPMorgan Chase, Bank of America, Citigroup e Wells Fargo está desenvolvendo uma rede conjunta de moeda digital bancária. O objetivo declarado é direto: conter a sangria de depósitos que migram para ativos digitais fora do sistema bancário tradicional.

A iniciativa ganha urgência em um momento específico. O mercado de stablecoins ultrapassou US$ 230 bilhões em capitalização, e a pressão sobre o sistema financeiro tradicional se tornou impossível de ignorar. A Meta, por exemplo, já paga criadores de conteúdo em stablecoins. Empresas de remessas internacionais adotam USDT e USDC como trilhos de pagamento. Cada dólar que entra nesse ecossistema é um dólar que sai do balanço de algum banco.

Por que os bancos estão perdendo depósitos para stablecoins

O problema não é novo, mas a escala mudou. Segundo dados do Federal Reserve, os depósitos totais nos bancos comerciais americanos caíram cerca de US$ 1,1 trilhão desde o pico de 2022. Parte dessa queda se explica pelo ciclo de juros altos, que levou dinheiro para money markets e Treasuries. Mas uma fatia crescente migra para stablecoins, que oferecem rendimentos em protocolos DeFi que bancos tradicionais não conseguem replicar dentro do arcabouço regulatório atual.

O raciocínio do depositante é simples. Uma conta corrente no Bank of America rende próximo de zero. Um depósito em USDC alocado em protocolos de lending pode gerar entre 4% e 8% ao ano. Para empresas com caixa ocioso, a diferença é material. E o movimento se intensificou após a aprovação de legislação de stablecoins nos EUA, que trouxe mais confiança regulatória ao setor.

Como funcionaria a rede bancária digital

Os detalhes técnicos ainda estão sendo definidos, mas o modelo em discussão se assemelha a uma stablecoin de consórcio. Cada banco participante emitiria tokens lastreados em depósitos, que circulariam em uma rede compartilhada. A liquidação seria instantânea, 24 horas por dia, sete dias por semana. A diferença crucial em relação ao modelo atual do sistema bancário: as transferências entre instituições diferentes aconteceriam em tempo real, sem depender do horário comercial ou das câmaras de compensação tradicionais.

Não é a primeira tentativa. O JPMorgan já opera o JPM Coin (rebatizado como Kinexys) desde 2019, processando cerca de US$ 1 bilhão por dia em transações interbancárias. O que muda agora é a escala do consórcio e a interoperabilidade entre múltiplas instituições. A lógica é que um token aceito apenas dentro do JPMorgan tem utilidade limitada. Um token aceito em sete dos dez maiores bancos americanos muda o jogo competitivo.

O movimento também reflete uma lição aprendida com o Pix brasileiro. O sistema de pagamentos instantâneos do Brasil demonstrou que, quando a infraestrutura é compartilhada e aberta, a adoção explode. Os bancos americanos preferem construir algo proprietário, mas o princípio de interoperabilidade instantânea é o mesmo.

O que muda para stablecoins e para o investidor

A reação do mercado cripto tende a ser dupla. Por um lado, a validação: se os maiores bancos do mundo estão construindo tokens de depósito, a tese de que dinheiro programável é o futuro fica mais forte. Por outro, a competição direta. Uma stablecoin emitida pelo JPMorgan, com garantia de depósito do FDIC, compete em confiança com USDT e USDC de forma que nenhum regulador conseguiu fazer até agora.

Para quem investe em cripto, o impacto prático depende de como a rede se posiciona. Se os tokens bancários forem restritos a pagamentos entre instituições, o efeito sobre stablecoins de varejo é limitado. Se forem abertos ao público, com wallets acessíveis e integração com comércio eletrônico, a competição se torna real. O histórico sugere que bancos tendem a começar restrito e expandir depois.

Há ainda uma dimensão regulatória importante. O Congresso americano avança com o GENIUS Act, que cria um arcabouço federal para stablecoins. A regulação de ativos digitais nos EUA pode acabar favorecendo tokens bancários, que já nascem dentro do perímetro regulado, em detrimento de emissores independentes como a Tether, que opera fora da jurisdição americana.

O cenário competitivo que se desenha

O que se desenha é um mercado de dinheiro digital com três camadas. Na base, as moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), que avançam lentamente. No meio, os tokens de depósito bancário, como o que o consórcio americano propõe. No topo, as stablecoins privadas, que dominam hoje mas enfrentam pressão crescente.

A história do sistema financeiro mostra que bancos incumbentes raramente perdem a guerra de longo prazo. Podem perder batalhas de inovação, mas a vantagem regulatória, a base de clientes e o acesso ao sistema de garantia de depósitos são armas poderosas. A diferença desta vez é que a tecnologia é aberta e a competição vem de fora do sistema tradicional. O resultado não é óbvio.

O que é claro é que a era do dinheiro programável deixou de ser futurismo. Quando JPMorgan, Citi e Bank of America investem bilhões em infraestrutura de tokens, a discussão não é mais “se”, mas “quem controla os trilhos”.

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Marina Alves

Sobre o autor

Marina Alves

Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.

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