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Flipkart Minutes ameaça líderes do quick commerce na Índia

Serviço de entregas rápidas do Walmart triplicou volume de pedidos em sete meses e já se aproxima do Instamart, do Swiggy, na disputa pelo mercado indiano.

Flipkart Minutes ameaça líderes do quick commerce na Índia
Foto: Soumalya Halder / Unsplash

Startups indianas passaram anos condicionando consumidores a receber compras de supermercado em minutos. Agora, um gigante do varejo global está colhendo os frutos desse hábito recém-criado. O Flipkart Minutes, braço de entregas ultrarrápidas do Flipkart, controlado pelo Walmart, triplicou seu volume diário de pedidos em cerca de sete meses e já pressiona diretamente o terceiro maior player do setor.

O serviço, lançado em agosto de 2024, processa hoje entre 1,1 milhão e 1,2 milhão de pedidos por dia. Em novembro do ano passado, esse número girava em torno de 390 mil a 400 mil. A escala atual coloca o Minutes próximo do Instamart, serviço de quick commerce do Swiggy, que opera cerca de 1,4 milhão de entregas diárias.

A velocidade dessa escalada chama atenção porque o Flipkart chegou atrasado a um mercado já consolidado por três competidores. E mesmo assim está reduzindo a distância a olho nu.

Quem domina o quick commerce indiano hoje

O mercado de entregas em minutos na Índia é liderado pelo Blinkit, que registra entre 3,4 milhões e 3,6 milhões de pedidos diários, segundo estimativas da Datum Intelligence. O Zepto vem em segundo, com 2,4 milhões a 2,6 milhões. O Instamart, do Swiggy, ocupa a terceira posição, com seus 1,4 milhão.

O Blinkit tem raízes na Grofers, plataforma de supermercado online fundada em 2013. Swiggy lançou o Instamart em 2020, e o Zepto surgiu em 2021, ambos impulsionados pela pandemia. Esses três players tiveram anos de vantagem para construir infraestrutura logística e fidelizar consumidores.

Ainda assim, o Instamart mantém escala relevante. O Swiggy informou recentemente que o serviço tem mais de 14 milhões de usuários mensais ativos e opera mais de 1.200 dark stores em mais de 130 cidades. A empresa também tem conseguido reduzir prejuízos operacionais: mais de 45% de sua rede de dark stores já é positiva em margem de contribuição.

Essa dinâmica reflete um padrão que já acompanhamos em outros mercados de tecnologia: plataformas incumbentes com base de usuários massiva conseguem comprimir ciclos de crescimento que levaram anos para startups pioneiras.

A estratégia do Flipkart para crescer tão rápido

O crescimento do Minutes está ancorado em expansão agressiva de infraestrutura. O serviço opera hoje entre 1.020 e 1.050 microcentros de distribuição, contra 600 em janeiro e cerca de 340 um ano atrás. A empresa adiciona aproximadamente 100 novas instalações por mês e mira 1.500 até o final de 2025.

Mas o diferencial não está apenas em abrir galpões. O Flipkart carrega consigo uma base enorme de clientes de e-commerce construída ao longo de anos, com bilhões de dólares investidos em aquisição de usuários. Isso dá ao Minutes um público pronto para experimentar entregas mais rápidas, sem o custo de aquisição que startups enfrentam do zero.

“O Flipkart já é um player sério”, afirmou Satish Meena, consultor da Datum Intelligence. “Quando você abre mil dark stores e faz um milhão de pedidos por dia, a escala é real.”

Os números de retenção reforçam a tese. Entre 65% e 70% dos clientes que compram pelo Minutes em um mês são compradores recorrentes. Transações por cliente cresceram entre 50% e 60% em relação ao ano anterior. O ticket médio gira em torno de 400 a 500 rúpias, equivalente a cerca de 4,20 a 5,20 dólares por pedido.

Frutas, vegetais, laticínios, carnes e produtos básicos estão entre as categorias de maior crescimento. O Flipkart também vem ampliando a oferta de itens gourmet, orgânicos e artesanais para capturar mais gastos dos clientes dentro da plataforma.

Amazon também entra na corrida de entregas rápidas

O Flipkart não é o único gigante global pressionando as startups indianas. A Amazon vem expandindo o Amazon Now, seu serviço de entregas rápidas no país. Durante visita à Índia em junho, o CEO Andy Jassy declarou que o Now se tornou o negócio de crescimento mais acelerado da Amazon na Índia, com pedidos dobrando a cada trimestre desde o lançamento.

A empresa planeja levar o serviço a mais de 300 cidades e montar uma rede de mais de mil microcentros de distribuição, além de instalações maiores para ampliar o sortimento de produtos entregáveis em minutos.

Essa movimentação simultânea de Walmart e Amazon no quick commerce indiano sinaliza algo mais amplo. Como analisamos na cobertura de varejo e finanças, o modelo de entrega ultrarrápida não é mais diferencial competitivo. É pré-requisito para não perder receita.

Por que o consumidor indiano não volta atrás

O aspecto mais relevante dessa disputa é comportamental. Uma vez que o consumidor se acostuma a receber compras de supermercado em 11 minutos (o tempo médio atual do Minutes, contra 13 minutos um ano atrás), a entrega agendada para o dia seguinte deixa de ser aceitável.

“Dá para voltar à entrega agendada no supermercado? Não. Você não volta mais”, resumiu Meena.

Essa irreversibilidade torna a expansão do quick commerce tanto ofensiva quanto defensiva para Flipkart e Amazon. Se não oferecerem velocidade comparável, perdem transações para plataformas especialistas. A lógica é similar ao que aconteceu com serviços de streaming e fintechs: quando o consumidor experimenta conveniência superior, o padrão anterior se torna inaceitável.

O mercado indiano de quick commerce segue crescendo mesmo em um cenário de consumo mais fraco no país. Segundo analistas do Bernstein, enquanto o crescimento geral do consumo na Índia desacelerou em julho, plataformas de entrega rápida continuaram registrando alta saudável em usuários ativos mensais.

Para o ecossistema global de tecnologia, a Índia funciona como laboratório. O país tem escala populacional, adoção digital acelerada e competição feroz entre players locais e globais. O resultado dessa disputa entre Blinkit, Zepto, Swiggy, Flipkart e Amazon pode definir o modelo operacional de quick commerce que será exportado para outros mercados emergentes nos próximos anos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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