Finanças

Fim da escala 6×1 pode custar R$ 2 bi ao varejo

Proposta de redução da jornada de trabalho ameaça comprimir margens do varejo em até 1,5 ponto percentual. Entenda quem perde e quem se adapta.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 saiu do terreno político e entrou na planilha dos CFOs. Estimativas do setor varejista apontam que a mudança pode representar um custo adicional de R$ 2 bilhões para o segmento, com impacto direto nas margens operacionais de empresas que já operam sob pressão constante de custos.

O debate não é novo, mas ganhou tração legislativa nas últimas semanas. A proposta prevê que trabalhadores tenham direito a dois dias de folga semanais, eliminando a jornada 6×1 ainda comum em setores intensivos em mão de obra como varejo, alimentação e serviços.

Por que o varejo é o setor mais exposto à mudança

O varejo brasileiro emprega cerca de 7 milhões de pessoas com carteira assinada, segundo dados do IBGE. A escala 6×1 é a espinha dorsal operacional de supermercados, lojas de shopping e redes de fast fashion. Diferente de setores que conseguem automatizar turnos ou redistribuir tarefas, o varejo físico depende de presença humana nos horários de pico.

A conta é relativamente simples: se cada funcionário passa a trabalhar cinco dias em vez de seis, a empresa precisa de aproximadamente 16% mais horas-homem para manter o mesmo nível de operação. Isso significa contratar mais gente ou pagar horas extras, como explicamos em nossa cobertura do setor financeiro.

Redes como Magazine Luiza, Renner e Carrefour Brasil já operam com margens EBITDA entre 7% e 12%. Um aumento de custo trabalhista da ordem de 1 a 1,5 ponto percentual na margem pode ser a diferença entre lucro e prejuízo em trimestres mais fracos.

O precedente da redução de jornada em outros países

A experiência internacional oferece pistas, mas não respostas definitivas. Portugal implementou projetos-piloto de semana de quatro dias em 2023 e 2024, com resultados mistos. Empresas de tecnologia e serviços reportaram ganhos de produtividade. No varejo e hospitalidade, os resultados foram menos favoráveis, com aumento de custos operacionais entre 8% e 14%.

No Reino Unido, o maior teste global de semana de quatro dias envolveu 61 empresas e mostrou que 92% decidiram manter o modelo. Mas a amostra era enviesada: predominavam empresas de serviços digitais, consultorias e startups. Como analisamos em nossa editoria de tecnologia, setores com alto grau de digitalização absorvem mudanças de jornada com mais facilidade.

O Brasil tem uma particularidade que torna a comparação ainda mais complexa. O custo total de um funcionário CLT já equivale a cerca de 70% a 100% acima do salário nominal, considerando encargos, férias, 13º e FGTS. Adicionar mais uma camada de custo trabalhista pressiona um sistema que já é caro.

Quem se adapta e quem sofre mais

O impacto não será uniforme. Grandes redes com operações mais digitalizadas e capacidade de investimento em automação tendem a absorver o choque com mais facilidade. O Mercado Livre, por exemplo, já opera a maior parte de sua logística com turnos flexíveis e alto grau de automação em centros de distribuição.

O pequeno varejo é quem sente mais. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), empresas com até 19 funcionários representam 85% dos estabelecimentos comerciais no Brasil. Para essas empresas, contratar um funcionário adicional para cobrir a folga extra pode representar um aumento de 10% a 20% na folha de pagamento.

Há também o efeito indireto sobre preços ao consumidor. Se o varejo não conseguir absorver o custo, a tendência é repassar ao menos parte dele para o preço final dos produtos. Em um cenário onde a política monetária brasileira ainda convive com juros elevados e consumo pressionado, isso pode retroalimentar a inflação de serviços.

O que o investidor deve observar

Para quem acompanha ações do setor varejista na B3, três indicadores merecem atenção nos próximos trimestres. O primeiro é a evolução da linha de despesas com pessoal nos balanços. Empresas que já começarem a provisionar custos adicionais nas demonstrações financeiras sinalizam que estão levando a proposta a sério.

O segundo é o capex em automação. Redes que acelerarem investimentos em self-checkout, logística automatizada e atendimento digital estão se preparando para um cenário de mão de obra mais cara. O terceiro indicador é a margem bruta: se começar a comprimir sem aumento correspondente de receita, o mercado vai precificar o risco.

A proposta ainda precisa passar por comissões e votação em plenário. O calendário legislativo de 2025 está disputado, e a proximidade do ciclo eleitoral de 2026 pode tanto acelerar a tramitação, como bandeira popular, quanto travá-la, por pressão do setor produtivo. De qualquer forma, o mercado já começou a fazer as contas.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…