Criptomoedas

EUA confiscam US$ 580 milhões em criptomoedas de golpistas chineses no Sudeste Asiático

DoJ apreende US$ 580 milhões em cripto ligados a organizações criminosas chinesas no Sudeste Asiático; ofensiva combina investigação on-chain e devolução de valores a vítimas, com alerta para golpes de romance e engenharia social.

EUA confiscam US$ 580 milhões em criptomoedas de golpistas chineses no Sudeste Asiático

Força-tarefa do DoJ atribui valores a organizações criminosas chinesas; recursos serão destinados às vítimas

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou a apreensão de US$ 580 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) em criptomoedas como parte de uma ofensiva contra centros de golpes operados a partir do Sudeste Asiático. Segundo as autoridades, os valores eram controlados por organizações criminosas chinesas e compõem um cenário de perdas anuais próximas a US$ 10 bilhões para cidadãos americanos. A ação amplia o escopo de operações anteriores, que já haviam bloqueado US$ 225,3 milhões de um único grupo no ano passado.

O movimento reforça a leitura de que golpes estruturados a partir de hubs regionais vêm ganhando escala e sofisticação, com uso de múltiplos idiomas e alvos fora do eixo tradicional. Ainda que a repressão policial seja transnacional, a capilaridade dessas redes sustenta um fluxo financeiro relevante, que, segundo o DoJ, chega a representar fatias expressivas da atividade econômica em países onde esses complexos se instalam. O efeito colateral é um aumento no custo de conformidade para plataformas e intermediários que tocam a borda fiat do ecossistema cripto.

Uma ofensiva mais coordenada

De acordo com a procuradora americana Jeanine Ferris Pirro, a criação de uma força-tarefa dedicada em novembro acelerou o congelamento, a apreensão e o confisco de criptoativos ligados a esses esquemas. Em suas palavras, os criminosos visam “roubar americanos honestos para encher os bolsos do crime organizado chinês”, numa mensagem que combina dissuasão e cooperação com vítimas. Diferentemente de bitcoins mantidos como reserva estratégica em outros contextos, os valores recuperados serão direcionados a pessoas lesadas, mediante contato com o Internet Crime Complaint Center (ic3.gov).

Nesse sentido, a iniciativa sugere maior integração entre investigação on-chain e medidas de bloqueio quando os fundos tangenciam provedores sob supervisão. A rastreabilidade pública das redes não elimina o risco, porém abre janelas para ligar carteiras, rotas de dispersão e pontos de conversão, sobretudo quando há erro operacional ou reciclagem em ambientes regulados. Ainda assim, a efetividade depende de colaboração internacional e de respostas rápidas para evitar a atomização dos saldos em mixers e cadeias paralelas.

Como os golpes capturam vítimas

Entre as táticas mais comuns estão os golpes de romance, em que o fraudador estabelece vínculo afetivo e, após semanas, conduz a vítima a “investir” em plataformas falsas de criptomoedas. O ciclo se retroalimenta com promessas de retorno, telas forjadas e pedidos de novos aportes para “desbloquear” saques, enquanto a vítima acredita estar evoluindo numa suposta jornada de investimento. Em 2024, um caso ganhou repercussão após um aposentado americano perder R$ 1 milhão ao acreditar interagir com uma mulher chamada Angela.

Outro aspecto frequentemente ignorado é que parte dos operadores nesses centros também é cooptada por tráfico humano, mantida sob vigilância e coagida a seguir roteiros que miram vítimas específicas. A combinação de engenharia social, atendimento em vários idiomas (incluindo português) e falsos ambientes de negociação cria uma sensação de legitimidade difícil de quebrar quando o dinheiro já saiu da custódia do usuário. O resultado é uma linha tênue entre perda financeira e subnotificação, o que favorece a escala dos golpes.

Implicações para o mercado e o usuário

Para o investidor, o recado é menos sobre a tecnologia e mais sobre o vetor humano: golpes exploram confiança, urgência e assimetria de informação, não a criptografia das redes. Boas práticas envolvem desconfiar de retornos garantidos, verificar domínios e licenças, evitar transferências para “corretoras” desconhecidas e nunca compartilhar chaves privadas ou seeds. Vale lembrar: custódia própria reduz risco de intermediários, mas não protege valores enviados voluntariamente ao fraudador.

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