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Ethereum Foundation corta 40% do orçamento: o que muda

Vitalik Buterin anunciou corte de 40% nos gastos da Ethereum Foundation em 2025, com meta de gastar apenas 5% do caixa ao ano até 2030. Entenda o impacto.

Ethereum Foundation corta 40% do orçamento: o que muda
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

A Ethereum Foundation (EF) vai reduzir seus gastos em aproximadamente 40% neste ano. O anúncio foi feito por Vitalik Buterin, cofundador do Ethereum, em um post publicado nesta terça-feira. A decisão faz parte de uma transição para um modelo operacional inspirado em endowments universitários, aqueles fundos patrimoniais que gastam apenas uma fração do capital a cada ano para garantir perenidade.

A redução acontece no mesmo dia em que a fundação confirmou um corte de 20% no quadro de funcionários. Também coincide com a saída de Hsiao-Wei Wang, que ocupava o cargo de co-diretora executiva. Com sua saída, já são nove líderes seniores que deixaram a organização desde janeiro. É a maior reestruturação da história da entidade que coordena o desenvolvimento do segundo maior protocolo blockchain do mundo.

De 15% para 5%: a lógica por trás do modelo de endowment

O número central da mudança é simples. Antes de 2025, a Ethereum Foundation gastava cerca de 15% de seu caixa remanescente por ano. A meta agora é chegar a 5% ao ano até 2030. Essa diferença pode parecer modesta em termos percentuais, mas na prática significa uma filosofia operacional completamente diferente.

Fundos de endowment funcionam com uma premissa: o capital principal é preservado indefinidamente, e apenas os rendimentos ou uma parcela muito pequena do patrimônio financia as operações. Universidades como Harvard e Yale operam assim há décadas. Para a EF, adotar esse modelo significa aceitar que o Ethereum não terá uma organização central gastando agressivamente para sempre. A ideia é que o protocolo caminhe para uma maturidade onde a fundação se torne cada vez menos necessária.

É um contraste marcante com o ritmo de gastos dos últimos anos. A fundação historicamente financiou equipes de pesquisa, eventos grandiosos como a Devcon e iniciativas amplas de privacidade e escalabilidade. Agora, várias dessas frentes serão reduzidas ou encerradas.

O que está sendo cortado na prática

Buterin detalhou as áreas afetadas. A unidade de Privacy and Scaling Explorations (PSE), que liderava pesquisas em provas de conhecimento zero e soluções de privacidade, será descontinuada. As conferências Devcon, conhecidas por serem eventos de grande porte, passarão a ter um formato menor e mais econômico. A estratégia institucional da fundação também ficará mais enxuta.

No lado técnico, a mudança é igualmente significativa. As equipes de desenvolvimento de clientes do protocolo serão menores e mais especializadas. A fundação aposta em verificação formal assistida por inteligência artificial como forma de manter a qualidade do código com menos engenheiros. É uma decisão que reflete uma tendência mais ampla no setor de tecnologia: usar IA para substituir volume de trabalho humano em tarefas de alta complexidade técnica.

“Eu respeito meus colegas da EF demais para fingir que não há muito a ser perdido”, escreveu Buterin, reconhecendo que os cortes envolvem decisões difíceis e a saída de engenheiros experientes que trabalharam no Ethereum por anos. A transparência é incomum no mercado cripto, onde reestruturações costumam ser anunciadas com eufemismos corporativos.

O que Buterin quer dizer com “lean-and-done”

Talvez o ponto mais revelador do comunicado seja a visão de longo prazo. Buterin reiterou sua preferência por um Ethereum que, ao concluir o roadmap atual, entre em modo de manutenção. O conceito de “lean-and-done” sugere que o desenvolvimento do protocolo base se concentraria em correções de segurança e upgrades pontuais de alto impacto, sem a expansão contínua de funcionalidades.

Para quem acompanha o ecossistema cripto, isso é uma mudança de mentalidade significativa. O Ethereum passou por transformações enormes nos últimos anos. O Merge, que migrou a rede de proof-of-work para proof-of-stake, foi concluído em setembro de 2022. Desde então, a rede implementou a EIP-4844 (Proto-Danksharding) e avançou em diversas frentes de escalabilidade.

Buterin descreveu o momento atual como a “terceira iteração” do Ethereum, pós-Merge. A ideia é que, uma vez concluídas as peças que faltam no roadmap, o protocolo alcance uma estabilidade semelhante à de protocolos de infraestrutura da internet, como TCP/IP, que raramente mudam.

Pressão competitiva e turbulência interna

A reestruturação não acontece no vácuo. O Ethereum enfrenta competição crescente de redes como Solana, que ganhou participação de mercado significativa em métricas como volume de transações e atividade de desenvolvedores. A pressão para que a fundação demonstre eficiência é real e vem tanto de dentro quanto de fora da comunidade.

A saída de nove líderes seniores em menos de seis meses é um dado que não pode ser ignorado. Reestruturações são normais em qualquer organização, mas a velocidade e a escala das mudanças na EF sugerem algo mais profundo. A fundação está redefinindo seu papel no ecossistema, algo que vinha sendo cobrado por desenvolvedores e investidores nos últimos anos, como discutimos em análises anteriores sobre o futuro do Ethereum.

O mercado de criptomoedas como um todo também passa por um momento de ajuste. Em maio, o volume combinado de exchanges caiu 3,45%, para US$ 4,41 trilhões, o menor nível desde setembro de 2024. A queda geral nos volumes reforça a necessidade de organizações do setor operarem com mais disciplina financeira.

O que isso significa para quem investe em Ethereum

Para investidores e participantes do ecossistema, a mensagem é dupla. Por um lado, a fundação está sendo responsável ao preservar seu caixa em vez de queimar capital indefinidamente. É o tipo de gestão financeira prudente que se espera de qualquer organização séria.

Por outro lado, a redução de investimentos em pesquisa e desenvolvimento levanta questões. Quem vai preencher o vazio deixado pelo PSE em pesquisas de privacidade? As equipes de clientes menores conseguirão manter o ritmo de inovação necessário? A aposta em IA para compensar a perda de engenheiros é promissora, mas não testada nessa escala.

O Ethereum está fazendo uma aposta clara: que sua infraestrutura base está próxima da maturidade e que o ecossistema pode prosperar com uma fundação menor e mais focada. Se a aposta funcionar, a rede pode se tornar mais descentralizada e resiliente. Se não funcionar, a janela para rivais se torna ainda maior.

De qualquer forma, a era da Ethereum Foundation como uma organização de gastos expansivos acabou. O que vem a seguir depende menos da fundação e mais de como a comunidade e o mercado respondem a essa nova realidade.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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