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ETFs de Bitcoin têm o pior mês da história: o que explica a fuga de US$ 4 bi

Junho deve ser o pior mês da história dos ETFs de Bitcoin, com US$ 4 bi em resgates. Só o fundo da BlackRock perdeu US$ 3 bi. Entenda o que está por trás.

ETFs de Bitcoin têm o pior mês da história: o que explica a fuga de US$ 4 bi
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

Junho caminha para se tornar o pior mês da história dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos. Com dois pregões restantes, os fundos acumulam mais de US$ 4 bilhões em saídas líquidas no período, superando com folga o recorde anterior de US$ 3,56 bilhões registrado em fevereiro.

O dado não é apenas um número de manchete. Ele marca o primeiro grande teste de estresse para uma classe de produto que existe há pouco mais de um ano e meio. Os investidores que entraram com entusiasmo no início de 2024 estão, pela primeira vez, enfrentando um ciclo de baixa prolongado dentro dessa estrutura regulada.

BlackRock lidera as saídas com US$ 3 bilhões no mês

O IBIT, fundo da BlackRock e maior ETF de Bitcoin do mercado, respondeu sozinho por mais de US$ 3 bilhões em resgates durante junho. É o pior mês do produto desde seu lançamento em janeiro de 2024.

Na sequência, o GBTC da Grayscale registrou saídas de US$ 523,8 milhões, seguido pelo FBTC da Fidelity com US$ 451,5 milhões. Outros fundos menores também fecharam o mês no negativo. A única exceção relevante foi o MSBT do Morgan Stanley, que, por ser mais recente, ainda captou US$ 94,1 milhões. O valor, no entanto, é insuficiente para alterar o quadro geral.

A concentração das perdas no IBIT é particularmente significativa. Como acompanhamos na cobertura de criptomoedas, o fundo da BlackRock foi o principal motor de demanda institucional pelo Bitcoin ao longo de 2024. Quando o maior comprador se torna vendedor líquido, o sinal para o restante do mercado é inequívoco.

O que está provocando a sangria nos ETFs de Bitcoin

A explicação mais direta é a própria performance do ativo. O Bitcoin opera em queda de mais de 52% em relação ao topo histórico atingido em outubro, e chegou a testar os menores patamares desde setembro de 2024, encontrando suporte na faixa dos US$ 60 mil.

Mas reduzir a análise ao preço é insuficiente. O fluxo de maio já havia sido negativo em US$ 2,43 bilhões, sinalizando que a pressão vendedora nos ETFs começou antes da aceleração de baixa de junho. Isso sugere que parte dos investidores não está reagindo ao preço: está antecipando novas quedas.

O analista PlanB, conhecido pelo modelo stock-to-flow, aponta que o Bitcoin pode buscar os US$ 53 mil, nível onde se encontra o chamado Preço Realizado, que representa o custo médio de aquisição de todas as moedas em circulação. Historicamente, esse patamar funciona como um piso de mercado em ciclos de baixa, mas também marca zonas de capitulação intensa.

Para quem acompanha os indicadores on-chain do Bitcoin, o Preço Realizado é um dos termômetros mais confiáveis de sentimento. Quando o preço de mercado se aproxima desse nível, significa que o holder médio está no prejuízo, o que tende a gerar vendas por pânico.

O primeiro bear market dos ETFs: o que muda agora

Os ETFs de Bitcoin à vista foram aprovados em janeiro de 2024 e viveram seus primeiros meses em um ambiente de alta. Muitos investidores institucionais e de varejo entraram atraídos pela narrativa de adoção mainstream e pela expectativa do halving. Agora, esses mesmos investidores experimentam o lado oposto do ciclo.

A diferença fundamental entre esse bear market e os anteriores é a infraestrutura. Em ciclos passados, as saídas de capital se manifestavam em transferências para exchanges, vendas em mercados descentralizados e movimentações on-chain difíceis de rastrear em tempo real. Agora, com os ETFs, o fluxo é transparente, diário e publicado para todo o mercado.

Isso cria um efeito reflexivo: saídas geram manchetes, que geram mais pessimismo, que geram mais saídas. É o mesmo mecanismo que funcionou na alta, quando os influxos bilionários criavam um ciclo virtuoso de demanda e valorização.

A Grayscale, gestora do GBTC, publicou uma análise recente apontando três fatores que poderiam reverter a tendência: avanços legislativos no Clarity Act, que traria maior segurança jurídica para ativos digitais nos EUA; um possível ajuste no balanço da Strategy, a empresa de Michael Saylor; e uma sinalização de estabilização na taxa de juros pelo Federal Reserve.

Como discutimos na análise sobre o impacto dos juros americanos no mercado cripto, a política monetária continua sendo o fator macro mais determinante para o apetite por ativos de risco. Enquanto o Fed mantiver uma postura restritiva, ativos como Bitcoin tendem a sofrer com realocação de capital para renda fixa.

O que isso significa para quem investe em cripto

O cenário atual coloca o investidor diante de uma encruzilhada clássica. O nível de pessimismo medido pelas saídas dos ETFs é o maior já registrado, e historicamente, picos de pessimismo coincidem com zonas de fundo. Mas o “historicamente” carrega uma ressalva importante: os ETFs existem há menos de dois anos. A base de dados é pequena demais para padrões estatísticos confiáveis.

O que os dados mostram com clareza é que o perfil do investidor de ETF é diferente do holder nativo de cripto. Ele tem menor tolerância a drawdowns, reage mais rápido a manchetes negativas e tende a seguir fluxos de momentum. Isso significa que, em uma eventual retomada, o capital pode voltar tão rápido quanto saiu.

Para o investidor de longo prazo, o ponto de atenção não é o fluxo mensal em si, mas o que ele revela sobre a maturidade do mercado. O Bitcoin agora se comporta, para todos os efeitos práticos, como um ativo financeiro tradicional sujeito às mesmas dinâmicas de fluxo que ações e commodities. Isso é, ao mesmo tempo, um sinal de amadurecimento e um lembrete de que a volatilidade segue sendo a regra, não a exceção.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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