Finanças

Embraer supera R$ 100: o que o balanço revela sobre a tese

Lucro ajustado de R$ 1,1 bi e fluxo de caixa dobrado mostram que a Embraer não é mais aposta: é execução. Entenda o que sustenta a tese.

Embraer supera R$ 100: o que o balanço revela sobre a tese
Foto: princess / Unsplash

A Embraer tocou os R$ 101,22 na manhã desta segunda-feira (10), um marco simbólico para uma empresa que há dois anos negociava na faixa dos R$ 30. Os papéis reduziram os ganhos ao longo do pregão e fecharam a R$ 94,66, alta de 2,31%, mas o número que importa não está na cotação do dia. Está no balanço do segundo trimestre de 2026.

O lucro líquido ajustado alcançou R$ 1,113 bilhão, crescimento de 25,1% sobre o mesmo período do ano anterior. A receita líquida bateu US$ 2,2 bilhões, avanço de 23% na comparação anual, com todos os segmentos contribuindo positivamente. A margem EBIT recorrente chegou a 10,2%, acima do que o mercado projetava, e subiu 2,7 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior.

O dado mais expressivo, no entanto, foi a revisão do guidance de fluxo de caixa livre. A companhia dobrou o piso da projeção para 2026: de US$ 200 milhões para US$ 400 milhões ou mais. Esse é o tipo de sinalização que separa uma empresa em recuperação de uma empresa em expansão.

O que explica o salto na geração de caixa da Embraer

O fluxo de caixa livre (FCF) somou US$ 401 milhões no trimestre, beneficiado por dois fatores: o desempenho operacional mais robusto e a dinâmica de PDPs, os pagamentos antecipados feitos por clientes. Quando uma fabricante de aeronaves recebe antecipadamente por encomendas futuras, isso reflete confiança do comprador e melhora substancialmente a posição de caixa.

Para quem acompanha o mercado financeiro brasileiro, a trajetória da Embraer é um caso raro de virada operacional completa. A empresa saiu de uma tentativa fracassada de fusão com a Boeing, passou por reestruturação severa durante a pandemia e agora entrega números que superam até as estimativas mais otimistas dos analistas.

A combinação de receita crescente, margens em expansão e caixa forte cria um ciclo virtuoso. A Embraer consegue investir em novos programas sem pressionar o balanço, algo que competidoras de maior porte, como a própria Boeing, não têm conseguido fazer nos últimos anos.

Aviação executiva e defesa puxam o crescimento

Os segmentos que mais contribuíram para o resultado foram aviação executiva e defesa. A aviação executiva vive um momento de demanda aquecida globalmente, com tempos de entrega alongados e preços em alta. A Embraer, com a família Phenom e Praetor, tem se posicionado como alternativa competitiva à Bombardier e à Gulfstream em faixas de mercado específicas.

No segmento de defesa, o cenário geopolítico global tem acelerado campanhas de vendas. O Super Tucano e o KC-390 são os carros-chefe, e a expectativa da companhia é que defesa represente entre 12% e 15% da receita até 2030, com rentabilidade crescente. Em um mundo onde gastos militares sobem consistentemente, como temos acompanhado nas análises sobre geopolítica e mercados, essa vertical ganha relevância estratégica.

Na aviação comercial, a Embraer planeja alcançar capacidade de produção de 110 a 120 aeronaves por ano até 2030. A empresa afirmou que a capacidade produtiva não será um limitador para o crescimento, uma declaração relevante em um setor onde gargalos na cadeia de suprimentos têm sido o principal obstáculo nos últimos três anos.

A Eve e a aposta em eVTOL a partir de 2028

A Eve, subsidiária de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOL), segue em fase pré-operacional, mas com números que chamam atenção: cerca de 3 mil cartas de intenção de compra e alguns pedidos firmes. A expectativa é que os primeiros veículos entrem em operação no Brasil e nos Estados Unidos a partir de 2028.

O mercado de mobilidade aérea urbana ainda é uma promessa, e o ceticismo é justificado. Mas a Embraer tem uma vantagem competitiva que outros players de eVTOL não possuem: décadas de experiência em certificação aeronáutica, manufatura em escala e relacionamento com reguladores. Enquanto startups puras de eVTOL queimam caixa sem receita, a Eve é subsidiada por uma operação que gera mais de US$ 2 bilhões em receita trimestral.

A companhia espera avanços significativos do programa ao longo deste ano e no início de 2027, o que pode funcionar como um catalisador adicional para os papéis, especialmente se a certificação regulatória avançar conforme o cronograma.

Por que a Embraer segue subestimada pelo mercado local

Um dos pontos mais curiosos levantados por analistas é que a Embraer continua pouco acompanhada por investidores brasileiros. Instituições internacionais já reconheceram a tese: a ação acumula valorização expressiva nos últimos 24 meses, e a carteira de pedidos dá visibilidade de receita para vários trimestres à frente.

O CEO da companhia afirmou que o crescimento do lucro deve superar o avanço da receita nos próximos anos, sinalizando alavancagem operacional. Para quem analisa teses de investimento no mercado brasileiro, esse é o tipo de dinâmica que costuma preceder reclassificações de múltiplo.

A tese é relativamente simples: a Embraer é uma das empresas tecnologicamente mais avançadas do Brasil, com trajetória clara de crescimento de dois dígitos, carteira de pedidos robusta e três verticais com potencial de expansão simultânea. O risco, como sempre em aviação, está em execução de produção, câmbio e eventuais atrasos em programas novos.

Mas o balanço do segundo trimestre de 2026 deixou uma mensagem clara: os números estão do lado da companhia. E quando uma empresa dobra sua projeção de caixa livre no meio do ano, o mercado tende a prestar atenção, mesmo os investidores que chegaram atrasados.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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