Dólar sobe com crise no STF e cenário eleitoral em foco
Alta do dólar reflete turbulência política no Brasil, com embates no STF e novas pesquisas eleitorais, enquanto mercado aguarda decisões de juros no Brasil e nos EUA.
O dólar abriu a semana em alta de 0,70%, cotado a R$ 5,161, pressionado por uma combinação que o mercado de câmbio brasileiro conhece bem: ruído político interno e fortalecimento da moeda americana no exterior. O movimento reflete menos um evento isolado e mais a convergência de três vetores de incerteza que devem dominar a semana.
O dólar futuro para outubro, contrato mais líquido na B3, acompanhou o movimento e subia 0,59%, negociado a R$ 5,179 nas primeiras horas do pregão desta segunda-feira, 14 de setembro de 2026. Para quem acompanha o câmbio, o contexto importa mais do que a variação pontual.
O que está acontecendo no STF e por que o mercado reage
O Supremo Tribunal Federal virou epicentro de instabilidade institucional. No fim de semana, o presidente da corte, Edson Fachin, chamou para si a relatoria da petição sobre mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O julgamento está marcado para terça-feira no plenário.
Fachin também agendou para o dia 23 de setembro o julgamento sobre a conduta do ministro André Mendonça como relator do caso envolvendo o mesmo banco. Em paralelo, o ministro Flávio Dino retirou o sigilo de investigações que apuram possível desvio de emendas parlamentares para a produção de um filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O acúmulo de frentes abertas no Judiciário gera o tipo de ruído que investidores estrangeiros traduzem rapidamente em prêmio de risco. Como detalhamos em nossa cobertura de finanças, o câmbio brasileiro é historicamente sensível a crises institucionais, especialmente quando envolvem o sistema financeiro diretamente, como é o caso do Banco Master.
Pesquisas eleitorais adicionam mais uma camada de incerteza
Se a crise no STF fosse o único fator, o mercado talvez absorvesse o impacto com mais tranquilidade. Mas a segunda-feira trouxe também novos dados eleitorais. Levantamento BTG/Nexus indicou que o presidente Lula ampliou a vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno e passou a ter vantagem numérica de um ponto percentual no segundo turno.
Ainda assim, o cenário permanece de empate técnico. Uma nova pesquisa Quaest, prevista para o mesmo dia, deve oferecer mais granularidade sobre o humor do eleitorado. O mercado tende a precificar não o resultado em si, mas a volatilidade que eleições acirradas produzem na condução da política econômica.
Vale lembrar que, em ciclos eleitorais anteriores, como em 2022, o dólar oscilou mais de 15% entre março e outubro. Não se trata de apostar em candidato, mas de entender que disputas apertadas incentivam promessas fiscais mais agressivas de ambos os lados, algo que o câmbio precifica em tempo real. Essa dinâmica já foi analisada em nosso material sobre o impacto de eleições nos mercados.
Semana decisiva: Copom e Fed no horizonte
Além do cenário doméstico, a semana concentra decisões de política monetária nos dois mercados mais relevantes para o real. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central e o Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos devem anunciar suas decisões sobre taxas de juros nos próximos dias.
O diferencial de juros entre Brasil e EUA é um dos principais motores do câmbio. Quando o Fed sinaliza manutenção de juros elevados por mais tempo, o dólar tende a se fortalecer globalmente, reduzindo a atratividade de moedas emergentes como carry trade. Se, ao mesmo tempo, o Copom adotar tom mais dovish em função da desaceleração doméstica, a pressão sobre o real se intensifica.
Esse efeito combinado explica parte da alta desta segunda. O mercado não espera apenas os comunicados: antecipa cenários. E a antecipação, quando carregada de incerteza política, costuma pender para a proteção em dólar.
O que o investidor deve observar nos próximos dias
A agenda da semana é densa. Nesta segunda, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, participa de evento da Esfera Brasil ao lado do ministro da Indústria e Comércio, Márcio Rosa, e da coordenadora de campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques. O tom dos discursos será monitorado pelo mercado em busca de sinais sobre a política fiscal.
Para quem acompanha o câmbio como variável de decisão de investimento, três pontos merecem atenção:
- O resultado do julgamento no STF na terça-feira e seu impacto sobre a percepção de estabilidade institucional.
- A decisão do Copom e, principalmente, o comunicado que a acompanha, já que o mercado busca pistas sobre o ritmo de eventuais cortes ou manutenção da Selic.
- O tom do Fed sobre a trajetória dos juros americanos, que define o apetite global por risco em emergentes.
Como analisamos em nossa cobertura sobre os efeitos da alta do dólar nos investimentos, a movimentação cambial de curto prazo importa menos do que a tendência estrutural. Mas semanas como esta funcionam como termômetro: mostram quão sensível o real está à combinação de política doméstica e ciclo monetário global.
Contexto importa mais do que cotação
Uma alta de 0,70% no dólar, isoladamente, não muda teses de investimento. O que muda é o padrão. Se a semana confirmar que o real está mais vulnerável a choques políticos do que o mercado precificava, o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros pode se ajustar para cima. Isso afeta desde títulos de renda fixa até a atratividade de ações de exportadoras na B3.
O investidor atento não olha apenas para a cotação do dólar às 9h. Olha para o que está por trás dela e, mais importante, para o que vem pela frente.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
