Doença de Newcastle: o impacto nas exportações de aves do Brasil
Foco da doença de Newcastle em SC já provocou restrições de mais de 40 países às aves brasileiras. Entenda o que muda para o setor e para o investidor.
Um foco da doença de Newcastle confirmado em uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, Santa Catarina, desencadeou uma reação em cadeia nos mercados internacionais de carne de aves. Em questão de horas, o Brasil viu suas exportações avícolas serem suspensas para China e Malásia, enquanto o México interrompeu completamente suas compras e outros 39 mercados impuseram restrições regionais ao produto brasileiro.
Para um país que domina o comércio global de carne de frango, o episódio levanta questões relevantes sobre vulnerabilidade concentrada e sobre como choques sanitários se traduzem em impactos econômicos concretos.
O que aconteceu em Santa Catarina e por que importa
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou a doença de Newcastle em uma granja com cerca de 6 mil aves em Nova Itaberaba, no oeste catarinense. O governo federal declarou emergência zoossanitária em quatro municípios da região, com validade de 60 dias: Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim.
A doença de Newcastle é uma infecção viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres, provocando sintomas respiratórios, neurológicos e gastrointestinais. A origem da contaminação ainda não foi identificada. O estabelecimento foi interditado e as aves serão eliminadas.
Este é apenas o segundo caso registrado em produção comercial no Brasil. O primeiro ocorreu em julho de 2024, em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, e foi controlado em menos de dez dias. A rapidez na contenção daquele episódio serve de referência, mas o cenário atual é diferente: Santa Catarina é o maior polo exportador de aves do país, o que amplifica a repercussão internacional.
Restrições já atingem mais de 40 mercados
A resposta dos parceiros comerciais foi imediata. Para China e Malásia, a suspensão abrange todas as exportações de carne de aves do território nacional, uma medida cautelar prevista nos protocolos sanitários bilaterais. A China, além disso, suspendeu a habilitação de 14 frigoríficos catarinenses.
Outros sete mercados suspenderam especificamente as compras de Santa Catarina: Cazaquistão, Chile, Tajiquistão, Ucrânia, União Aduaneira Euroasiática, União Europeia e Uzbequistão. Já 39 países adotaram restrições regionais, limitando compras do município afetado ou de um raio de 10 a 25 quilômetros da granja. Entre eles estão Arábia Saudita, Japão, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Canadá e Reino Unido.
O México merece destaque especial. As importações mexicanas de peito de frango desossado do Brasil mais que dobraram entre 2022 e 2025, saltando de 90 mil para 196 mil toneladas, segundo dados da Agência Nacional de Aduanas do México. A interrupção total das compras pelo país representa um golpe relevante, especialmente considerando o ritmo acelerado de crescimento desse fluxo comercial.
Dimensão econômica: o que está em jogo para o agronegócio
O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango. Santa Catarina responde por fatia significativa desse volume, com dezenas de plantas frigoríficas habilitadas para exportação. As restrições sanitárias são válidas retroativamente para certificações emitidas desde 21 de setembro, data da coleta das amostras que confirmaram o foco.
O impacto imediato recai sobre frigoríficos exportadores, que precisam reavaliar certificados já emitidos conforme os requisitos específicos de cada mercado importador. Isso envolve datas de produção, abate, obtenção de matéria-prima e certificação, um processo burocrático que pode travar embarques por semanas, como já analisamos em coberturas anteriores sobre o setor de commodities.
Para investidores posicionados em ações de empresas do setor avícola listadas na B3, o cenário exige atenção. A extensão dos impactos depende de duas variáveis: a velocidade com que o foco será controlado e o tempo que cada país levará para restabelecer as certificações. No episódio de 2024, o ciclo completo durou menos de duas semanas. Mas o precedente catarinense é mais complexo pela escala de exportação envolvida.
Segurança alimentar e o que esperar daqui em diante
O Ministério da Agricultura reforçou que o consumo de produtos avícolas inspecionados pelo Serviço Veterinário Oficial permanece seguro. A questão, portanto, não é de saúde pública interna, mas de diplomacia sanitária e acesso a mercados.
O Plano de Contingência de Influenza Aviária e Doença de Newcastle, que rege a resposta oficial, inclui interdição da granja, eliminação de aves, restrições a propriedades próximas e suspensão da movimentação de aves na área afetada. São protocolos reconhecidos internacionalmente, o que em tese facilita a negociação para reabertura dos mercados.
O ponto central para quem acompanha o mercado financeiro é entender que choques sanitários no agronegócio brasileiro não são eventos raros. São riscos sistêmicos que se repetem ciclicamente. A gripe aviária, a febre aftosa e agora o Newcastle seguem o mesmo padrão: detecção, pânico comercial, contenção e reabertura gradual.
A diferença é que cada episódio testa a capacidade institucional do país de responder rápido. Em 2024, o Brasil passou no teste. Em 2025, com um polo exportador maior envolvido e mais de 40 mercados reagindo simultaneamente, a régua está mais alta. O setor avícola brasileiro movimenta bilhões de dólares por ano em exportações, e a concentração geográfica da produção em poucos estados é, ao mesmo tempo, uma vantagem logística e uma vulnerabilidade sanitária.
Para investidores, o episódio reforça a importância de monitorar riscos não financeiros em empresas de proteína animal, algo que discutimos com frequência ao analisar tendências do agronegócio brasileiro. A resolução do foco determinará se o impacto será pontual ou se pressionará resultados trimestrais das companhias do setor.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


