Criptomoedas

Decisão do BOJ pode sacudir o Bitcoin nesta semana

Posições vendidas em iene estão no maior nível em nove anos. Se o BOJ surpreender com alta de juros, o desmonte pode arrastar ativos de risco.

O mercado de criptomoedas tem um evento macroeconômico importante no radar esta semana: a decisão de política monetária do Banco do Japão (BOJ), prevista para terça-feira. O que parece uma reunião distante da realidade cripto carrega, na verdade, um mecanismo de transmissão direto para o preço do Bitcoin e outros ativos de risco.

O ponto central é o iene japonês. Posições vendidas na moeda atingiram o maior patamar em nove anos, segundo dados da CFTC. Isso significa que uma parcela enorme do mercado está apostando que o iene continuará fraco, financiando operações de carry trade em que se toma emprestado em ienes baratos para investir em ativos de maior rendimento ao redor do mundo.

O que é o carry trade e por que ele importa para cripto

O carry trade com o iene funciona de maneira simples. Investidores institucionais tomam empréstimos na moeda japonesa, que tem custo de financiamento próximo de zero, e aplicam em ativos que rendem mais: títulos americanos, ações de tecnologia e, cada vez mais, criptomoedas. Quando o iene se fortalece de repente, essas posições precisam ser desfeitas às pressas. O resultado é venda forçada de ativos de risco em cascata.

Quem acompanha o mercado há mais tempo lembra do episódio de agosto de 2024. O BOJ surpreendeu com um tom mais hawkish, o iene disparou em poucos dias, e o Bitcoin caiu cerca de 12% em menos de uma semana. Foi o mesmo mecanismo: o desmonte do carry trade forçou liquidações em ativos correlacionados, como detalhamos em nossa cobertura do mercado cripto.

O que esperar da reunião do BOJ

O consenso do mercado é que o BOJ mantenha a taxa de juros inalterada em 0,5%. A economia japonesa mostra sinais mistos: a inflação ao consumidor segue acima da meta de 2%, mas o crescimento do PIB desacelerou no primeiro trimestre. O governador Kazuo Ueda tem adotado uma postura cautelosa desde as turbulências do ano passado.

O risco, porém, está na comunicação. Se Ueda sinalizar que uma nova alta de juros está próxima, possivelmente em julho, o mercado pode antecipar o movimento. Com posições short em iene tão concentradas, qualquer surpresa hawkish tende a gerar um efeito desproporcional.

Dados da Bloomberg mostram que o diferencial de juros entre Japão e Estados Unidos segue historicamente alto, o que sustenta o carry trade. Mas esse diferencial está diminuindo: o Fed cortou juros em 2024, e o BOJ, lentamente, tem subido. Cada passo nessa convergência reduz a atratividade da operação e aumenta o risco de desmonte.

Bitcoin a US$ 65 mil vive momento de otimismo cauteloso

O Bitcoin superou os US$ 65 mil nesta segunda-feira, impulsionado por notícias de um acordo diplomático entre Estados Unidos e Irã que reduziu temores geopolíticos. Mas o contexto mais amplo é de cautela. Fundos de cripto estão divididos sobre se o fundo do ciclo já ficou para trás, segundo levantamento recente com gestores do setor.

A correlação entre Bitcoin e ativos de risco tradicionais permanece elevada. Nos últimos 90 dias, o coeficiente de correlação com o Nasdaq 100 gira em torno de 0,65, segundo dados da IntoTheBlock. Isso significa que choques macro, como um desmonte de carry trade, continuam afetando cripto de maneira significativa, como analisamos na editoria de finanças.

Qual é o cenário para quem investe

Para traders, o alerta é claro: volatilidade pode aumentar entre terça e quarta-feira, dependendo do tom do BOJ. Historicamente, reuniões do banco central japonês que surpreenderam geraram movimentos de 5% a 15% no Bitcoin nos dias seguintes.

Para investidores de prazo mais longo, o cenário é diferente. A tese estrutural do Bitcoin como reserva de valor e hedge contra desvalorização monetária segue intacta. O que muda é o timing. Uma eventual correção provocada pelo BOJ poderia abrir janelas de entrada para quem estava esperando preços menores.

Os dados on-chain reforçam essa leitura. O número de endereços com mais de 1 BTC atingiu novo recorde em junho, segundo a Glassnode. Isso sugere acumulação por investidores de maior porte, mesmo em meio a incertezas de curto prazo. A análise on-chain que publicamos recentemente detalha essa dinâmica.

O iene como termômetro global de risco

O que torna essa reunião especialmente relevante é o tamanho das posições envolvidas. Com shorts em iene no maior nível desde 2016, o mercado está essencialmente fazendo uma aposta coletiva de que o Japão não vai apertar a política monetária de forma agressiva. Se essa aposta der errado, o efeito dominó pode ser sentido em múltiplas classes de ativos simultaneamente.

Não se trata de fazer previsão. Trata-se de entender que o risco assimétrico está no lado hawkish. Se o BOJ mantiver tudo como está e for dovish, o mercado mal se mexe. Se surpreender, a reação pode ser violenta. Para quem opera cripto, ignorar o que acontece em Tóquio nesta semana seria um erro.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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