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Finanças

CPI acima do esperado e CoreWeave: o que pesa em Wall Street

Inflação americana veio acima do consenso, Treasuries dispararam e a CoreWeave caiu 15%. O mercado começa a precificar um Fed mais duro por mais tempo.

CPI acima do esperado e CoreWeave: o que pesa em Wall Street
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

O pregão desta quarta-feira em Nova York serviu como um lembrete incômodo: a inflação americana ainda não está domada, e a euforia com inteligência artificial tem limites financeiros bastante concretos. Os três principais índices de Wall Street fecharam em queda depois que o índice de preços ao consumidor (CPI) de setembro veio acima das expectativas e a CoreWeave, um dos nomes mais quentes do setor de infraestrutura de IA, despencou mais de 15%.

Os dois eventos, aparentemente desconectados, contam a mesma história: o custo do dinheiro importa, e quando os rendimentos dos títulos do Tesouro americano sobem, ativos de longa duração e empresas que queimam caixa são os primeiros a sofrer.

O que o CPI de setembro diz sobre a trajetória dos juros

O CPI avançou 0,6% na comparação mensal, puxado em boa parte pela alta dos combustíveis. Na base anual, o índice ficou em 3,7%. O núcleo, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, subiu 0,3% no mês e desacelerou para 2,6% no acumulado de 12 meses.

O número cheio é o que mais chamou atenção. O consenso de mercado apontava para algo em torno de 0,4% na variação mensal. A surpresa altista veio justamente da energia: o petróleo Brent fechou o dia a US$ 106,06 o barril, com alta de 0,35%, refletindo riscos geopolíticos ligados à infraestrutura petrolífera saudita. Enquanto o barril se mantiver acima dos US$ 100, a desinflação de energia que ajudou o Fed nos meses anteriores deixa de existir.

O dado do núcleo, por outro lado, veio em linha e mostra que a tendência de desaceleração subjacente continua. O problema é que o Fed precisa de ambos os componentes cedendo ao mesmo tempo para se sentir confortável em cortar juros. Com a leitura de setembro, esse cenário ficou mais distante. Na ferramenta Fed Watch do CME Group, a probabilidade de manutenção dos juros na faixa de 3,75% a 4% na reunião de outubro permanece em 65,1%. O mercado, por ora, não espera nenhum movimento.

Para quem acompanha o impacto dos juros americanos nos ativos globais, a seção de finanças do BlockTrends tem explorado como decisões do Fed reverberam em mercados emergentes e no câmbio brasileiro.

Por que a queda da CoreWeave importa mais do que parece

A CoreWeave se tornou um símbolo da corrida por infraestrutura de inteligência artificial. A empresa fornece capacidade computacional em nuvem otimizada para cargas de trabalho de IA, atendendo desde startups até grandes corporações. É, em tese, uma das maiores beneficiárias do ciclo de investimento em modelos de linguagem e treinamento de redes neurais.

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O problema está no balanço. A empresa está investindo dezenas de bilhões de dólares por ano em data centers. As projeções apontam para um fluxo de caixa livre negativo de US$ 27 bilhões em 2026 e de US$ 32 bilhões em 2027. São números que fazem sentido quando o custo de capital é baixo e o apetite por risco é alto. Quando os Treasuries sobem e o mercado começa a precificar juros elevados por mais tempo, a conta muda.

A queda de 15% em um único pregão mostra que investidores estão reavaliando a sustentabilidade do modelo. Não se trata de duvidar do potencial da IA como tecnologia, e sim de questionar se o ritmo de investimento é compatível com a geração de receita. É a velha questão entre crescimento e rentabilidade, agravada por um ambiente de juros restritivos.

Essa dinâmica se parece bastante com o que aconteceu no ciclo de 2021-2022 com empresas de alto crescimento, como analisamos na cobertura de tecnologia do portal. Companhias que dependiam de dinheiro barato para financiar expansão viram suas ações derreterem quando o Fed começou a apertar a política monetária.

O setor de tecnologia como termômetro do ciclo

O setor de tecnologia caiu mais de 2,6% no pregão. A CoreWeave respondeu pela maior queda percentual do Nasdaq, mas o movimento foi generalizado. Quando os rendimentos do Treasury de 10 anos sobem, o efeito cascata é previsível: o valor presente dos fluxos de caixa futuros de empresas de crescimento diminui, e o custo de oportunidade de manter ações de tecnologia aumenta frente à renda fixa.

Esse é um ponto que muitos investidores brasileiros subestimam. A alta nos Treasuries não afeta apenas Wall Street. O dólar à vista fechou a R$ 5,0289, com alta de 0,17%, refletindo a atratividade relativa da renda fixa americana. Quando o diferencial de juros reais entre EUA e Brasil se estreita, o real tende a perder força. Isso encarece importações, pressiona a inflação doméstica e pode limitar o espaço do Banco Central brasileiro para cortar a Selic.

Em outras palavras, um CPI acima do esperado nos EUA não é só um dado macroeconômico distante. É uma variável que afeta diretamente o bolso de quem investe no Brasil, seja em renda fixa, ações ou criptomoedas. Para entender como o câmbio impacta diferentes classes de ativos, a cobertura de criptomoedas do BlockTrends acompanha essa correlação de perto.

O que esperar daqui para frente

O cenário de curto prazo depende de duas variáveis. A primeira é o preço do petróleo. Enquanto as tensões geopolíticas mantiverem o barril acima de US$ 100, a leitura cheia da inflação americana vai continuar pressionada, mesmo que o núcleo siga cedendo. A segunda é a temporada de balanços que se aproxima, especialmente dos grandes bancos americanos, que começam a reportar resultados nos próximos dias.

Para o mercado de IA, o teste é mais estrutural. A tese de investimento continua intacta do ponto de vista tecnológico. Mas o mercado financeiro não precifica potencial, precifica fluxo de caixa descontado. Se o custo de capital continuar elevado, empresas como a CoreWeave vão precisar mostrar um caminho mais claro para a rentabilidade, ou vão continuar sofrendo.

O resumo do dia é simples: dinheiro caro cobra seu preço. E tanto a inflação americana quanto o apetite desenfreado por infraestrutura de IA estão, cada um à sua maneira, testando a paciência de um mercado que já não aceita promessas sem contrapartida financeira.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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