Confiança do consumidor dos EUA bate mínima histórica em maio
Índice do Conference Board caiu para 50,4 pontos, o menor registro desde 1967. Expectativas de inflação disparam e sinalizam cautela global.
O Conference Board divulgou nesta terça-feira que o índice de confiança do consumidor nos Estados Unidos caiu para 50,4 pontos em maio, o menor patamar desde o início da série histórica, em 1967. O dado veio abaixo dos 52,9 registrados em abril e muito aquém dos 60 pontos esperados pelo consenso de mercado.
Mais do que um número ruim, o indicador revela uma mudança de humor estrutural do consumidor americano. As expectativas de inflação para os próximos 12 meses saltaram para 7,4%, o maior nível desde 1981. É o tipo de combinação que historicamente antecede desacelerações econômicas relevantes.
O que está por trás da queda recorde
Três fatores principais explicam a deterioração. O primeiro é o efeito acumulado das tarifas comerciais impostas pela administração Trump ao longo do primeiro semestre. Com alíquotas médias acima de 20% sobre importações chinesas e europeias, o consumidor americano já sente o repasse nos preços de bens duráveis.
O segundo fator é o mercado de trabalho. Embora o desemprego permaneça em 4,2%, o ritmo de criação de vagas desacelerou para 130 mil por mês no trimestre encerrado em abril, contra 200 mil no mesmo período do ano passado. A percepção de segurança no emprego caiu para o menor nível desde a pandemia.
O terceiro elemento é a incerteza geopolítica. A escalada de tensões comerciais com a União Europeia e as negociações estagnadas com a China criaram um ambiente de imprevisibilidade que contamina decisões de consumo e investimento. Como mostramos em nossa cobertura de finanças, esse cenário tem reverberado diretamente nos mercados emergentes.
Por que o dado importa para quem investe no Brasil
O índice de confiança do consumidor americano não é apenas uma métrica doméstica. Quando o consumo nos EUA desacelera, a economia global sente. Os Estados Unidos respondem por cerca de 25% do PIB mundial e são o principal destino de exportações de dezenas de países.
Para o Brasil, o impacto chega por dois canais. O primeiro é o fluxo de capital. Com o consumidor americano mais cauteloso e a expectativa de inflação em alta, o Federal Reserve enfrenta um dilema: cortar juros para estimular a economia ou mantê-los elevados para conter a inflação. Kevin Warsh, que assume a presidência do Fed em breve, herda esse cenário complexo.
O segundo canal é o preço de commodities. Consumo mais fraco nos EUA significa menor demanda por petróleo, minério de ferro e soja, três pilares da balança comercial brasileira. Uma análise recente do desempenho do Ibovespa mostrou como a dependência de Petrobras e Vale torna o índice vulnerável a esse tipo de choque externo.
Expectativas de inflação no maior nível em 44 anos
O dado mais alarmante do relatório não é o índice em si, mas a expectativa de inflação. Os 7,4% projetados pelos consumidores para os próximos 12 meses representam uma desancoragem significativa. Para referência, quando as expectativas inflacionárias ultrapassaram 7% nos anos 1980, o Fed de Paul Volcker precisou elevar os juros acima de 20% para reconquistar credibilidade.
O cenário atual é diferente. O núcleo do PCE, indicador favorito do Fed, está em 2,8%, bem abaixo da percepção do consumidor. Essa diferença entre inflação real e percebida sugere que o problema é mais psicológico do que econômico. As tarifas criaram um “choque de preços visíveis”, como alimentos e eletrônicos, que distorce a percepção geral.
Ainda assim, expectativas inflacionárias elevadas tendem a se tornar profecias autorrealizáveis. Trabalhadores demandam reajustes maiores, empresas repassam custos antecipadamente e o ciclo se retroalimenta. É por isso que o Fed monitora esse indicador com tanta atenção.
O que esperar dos próximos meses
O consenso entre economistas de Wall Street é de que o dado de maio pode representar um piso. A lógica é que as tarifas já foram parcialmente digeridas e o mercado de trabalho, embora mais fraco, não está em colapso. Segundo a Goldman Sachs, a probabilidade de recessão nos EUA nos próximos 12 meses subiu de 25% para 35%.
Para investidores brasileiros, o momento pede diversificação e cautela com ativos correlacionados ao ciclo americano. O dólar, que já opera acima de R$ 5,60, pode ganhar ainda mais força se o cenário se deteriorar. Conforme discutimos em análises anteriores sobre proteção de portfólio, momentos de estresse externo historicamente beneficiam ativos reais e posições defensivas.
O dado do Conference Board é, acima de tudo, um termômetro de confiança. E quando o consumidor americano perde a confiança, o mundo inteiro precisa prestar atenção.
Sobre o autor
Marina AlvesJornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.