Artigo

Como perder R$100 bilhões. A história de Eike Batista


Por Felippe Hermes
Outubro 15, 2020

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Foi em 19 de agosto de 2009 que um helicóptero com Eike e Eliezer Batista a bordo, pousou na Cidade de Deus, sede do Bradesco em Osasco.

O objetivo da visita poderia ser definido por diversos adjetivos, de ousado a mirabolante. 

Eike, convencido por André Esteves, que na época retornava ao Brasil recomprando o mesmo Pactual que havia vendido 3 anos antes para o Crédit Suisse, acreditava que poderia assumir o controle da Vale do Rio Doce, fundindo a maior mineradora do país alçada ao posto de multinacional por seu pai, a MMX.

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Como Malu Gaspar narra em sua biografia sobre o fundador do Grupo X, a lógica de ambos era de que o Bradesco, maior acionista privado da Vale, precisaria se concentrar em seu negócio principal, após o Itaú e o Unibanco se fundirem, e o Santander comprar o Real.

Por meio deste acordo, o Bradesco receberia uma boa grana de Eike, que por sua vez teria em mãos não apenas um projeto no papel (como todas as empresas X), mas um ativo gerador de caixa.

A tentativa frustrada seria ainda um plano de mestre no jogo político. Por essa mesma data, o ex-presidente Lula mandava sinais de que a estratégia da mineradora não lhe agradava. Era preciso, segundo Lula, aumentar o valor agregado do minério.

A pressão fazia com que Roger Agnelli, presidente da mineradora, fosse tratado como inimigo dos interesses do governo. 

Eike, que nunca escondeu suas intenções de manter boa relação com o governo, agiria ainda como um salvador dos planos do ex-presidente, ganhando seu apreço.

Longe do papel porém, os planos fracassaram. A jogada de mestre não foi pra frente, e Eike viu ali sua primeira grande derrota na “arte de negociação”.

De fato, negociar sempre foi o talento de Eike, muito mais do que entregar qualquer negócio, seu ímpeto o levaria a abrir o máximo de frentes possíveis, nos mais variados campos, de uma mineradora de ouro na Grécia a uma empresa para competir com os correios no Brasil, uma fábrica de Jipes, outra de cosméticos, um estaleiro e uma petrolífera, sem esquecer, é claro, de um porto.

Uma “mini Petrobras”, uma “mini Vale do Doce”, uma “Embraer dos Mares”, dizia Eike ao vender seus projetos. Seus planos nunca foram modestos, nem mesmo no princípio.

Quando voltou da Alemanha, onde estudou engenharia, o filho de Eliezer Batista, o arquiteto da Vale, Eike escolheu a mineração para atuar. Dando um apartamento da família em garantia, conseguiu $500 mil em empréstimos, indo para a Amazônia atrás de ouro (Eike alega que o empréstimo foi dado sem garantias).

Por lá, fundiu e ampliou minas, criando uma companhia que lhe tornaria dono de uma fortuna de $6 milhões os 23 anos.

Da Amazônia, Eike partiu para o Canadá, onde sua mineradora se fundiu com uma gigante local. Por lá, Eike apresentaria as mesmas ideias de sempre: expandir, expandir e expandir.

O resultado também seria o de sempre. Eike terminou destituído da empresa, a TVX após sucessivos fracassos nos planos da empresa.

Eike porém retornaria ao Brasil em 2001. Por essa época iniciaria uma série de projetos mal sucedidos, com exceção de um, formado justamente pela sua habilidade de negociação.

O país enfrentava um apagão de energia. Baixo quantidade de chuvas fizeram com que o governo tivesse de racionar energia. Para resolver, contratos emergenciais foram feitos para construir térmicas pelo país.

No Ceará, Eike ergueria uma usina por meio de parcerias com investidores estrangeiros, alocando algo como $25 milhões. O resultado foi um contrato pelo qual a Petrobras pagaria a empresa de nome… sim, MPX, uma grana mensal, estimada na época em $4,9 milhões, após a usina ser estabelecida.

Por conta do apagão, o contrato foi firmado com um MW sendo vendido a R$680, ou 12x o valor de 2 anos antes. 

Em 2005, quando a Petrobras indicou que iria romper o contrato, a empresa já havia desembolsado mais de $150 milhões em valores da época.

Foi também em 2005 que outro negócio de Eike se viu ameaçado. Sua siderúrgica na Bolívia havia sido nacionalizada por Evo Morales. Eike buscou, sem sucesso, apoio do governo brasileiro.

A despeito do mito de que Eike seria um filho da era Lula, a realidade é que o empresário havia sido esnobado pelo governo em diversas ocasiões no seu começo, tendo se alinhado ao governo apenas anos depois.

Por essa época, Eike se aproveitava de 2 fatores: a busca por ativos de commodities e os bilhões que migravam para emergentes.

Em 2006, faria seu primeiro IPO, vendendo 32% da MMX, uma empresa pré operacional com direitos de exploração na área de minério de ferro.

O valor pago pelos investidores, de R$1 bilhão, demoraria 7 meses para se pagar. Em abril de 2007, Eike vendeu uma fração de um dos projetos por $1,15 bilhão.

Na prática, em menos de um ano, a habilidade de negociação de Eike daria aos acionistas um banho de quase 300%. Alguns meses depois, a Anglo American compraria ainda uma fatia minoritária na mesma MMX, pagando R$5,5 bilhões.

A mágica de Eike fez com que R$3 bilhões em valor de mercado virassem R$20 bilhões em menos de 2 anos na bolsa, mas não apenas isso.  Eike tinha na época o aval de uma das maiores mineradoras do planeta, o que atestava a qualidade de seus projetos.

(A Anglo American terminou dando baixa de $5 bilhões de dólares no projeto anos mais tarde).

Em 2007 foi a vez da MPX se lançou a bolsa, captando não 1, mas R$3 bilhões, também em um projeto pré operacional.

No de 2008, o maior IPO da história brasileira. A OGX levantou R$6,6 bilhões em meio a euforia de investidores com o pré-sal.

A despeito da euforia, o governo, ou mais especificamente Dilma Rousseff, decidira na época que o modelo de concessão dos campos de petróleo não deveria ser o mesmo, e iria mudar em função do pré-sal.

Eike já havia recrutado dezenas de grandes nomes da Petrobras para tocar sua OGX. Pagando valores milionários, e empresa comprava a peso de ouro o conhecimento destes mesmos engenheiros, ou ao menos, era o que Eike vendia ao mercado.

O leilão de 2008 porém foi mantido. O governo venderia campos de petróleo, mas não aqueles onde estavam as reservas do pré-sal.

Este seria um enorme fracasso da Agência Nacional do Petróleo, dado que Petrobras e gigantes internacionais não deram qualquer lance relevante pelos campos ofertados.

Seria, é claro, não fosse a OGX dar lances na casa de centenas de milhões de reais, por campos em que suas concorrentes ofertavam 10, 20 vezes menos, ou mesmo não davam qualquer lance.

Meio atônitos, os concorrentes se perguntavam o que Eike sabia que todo o resto do mercado não sabia, afinal, a crença é que de não havia petróleo em quantidade relevante nestes poços.

Nos anos seguintes, Eike faria da OGX sua preferida. A empresa que chegou a valer R$60 bilhões, seria a principal responsável por fazer de Eike o 8º mais rico do mundo, com $30 bilhões.

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Nem mesmo a crise de 2008 abalava sua confiança. O minério de ferro despencava na época, fazendo sua MMX sair de $7,8 bilhões em 2008, para $900 milhões em 2010.

A OGX era a salvação da lavoura. 

Eike, dia e noite, bancava o twiteiro eufórico. Anunciava pelo Twitter descobertas magníficas de petróleo, fato que levava as ações em bolsa a subirem como um foguete.

Este fato em si, renderia a Eike uma pena de 8 anos e 9 meses de prisão, por manipulação de mercado.

Na época porém, a euforia seguia, ao menos para Eike. Em 2010 foi a vez da OSX, o estaleiro, estrear na bolsa. A intenção inicial? Captar R$9,9 bilhões. Resultado: R$2,8 bilhões captados.

O fracasso do IPO da OSX fez a companhia se voltar para o mercado de crédito. Este foi o primeiro grande sinal de que a bolsa não era suficiente para manter as empresas X.

Alguns mais tarde, a OSX se veria em uma dívida com a Caixa Econômica Federal, que gentilmente renegociou com a empresa em um prazo de 40 anos para pagar a dívida.

Na época, a OSX iria construir e fornecer as dezenas de plataformas que a OGX demandaria, além de comprar e alugar plataformas para a empresa 

No que chamou de “visão 360 graus”, Eike começou a interligar seus negócios.

A LLX, de logística, tinha sua maior receita vinda do aluguel de parte do Porto de Açu, para a OSX. A OSX por sua vez tinha sua receita vinda da OGX.

A mesma OGX forneceria o gás que geraria energia nas térmicas da MPX. E a MMX passava a deter parte dos ativos da LLX.

A mesma MMX seria sócio de siderúrgicas chinesas e coreanas em projetos em Açu.

Foi em 22 de agosto de 2011, que a OSX-1, a primeira unidade de produção e armazenamento de petróleo a ser utilizada pela OGX, saiu do porto em Cingapura.

O evento, que na época foi acompanhado por inúmeros curiosos em sites de rastreamento de navio, fez a festa dos investidores.

Era um evento magnífico. A maior empresa privada de petróleo do país nasceria ali. Com bilhões levantados em bolsa 3 anos antes.

A festa porém duraria poucos meses. Os indícios de petróleo, que foram festejados em abril de 2009 no relatório “uma estrela em ascensão”, publicado pelo Bradesco, e posteriormente noticiados também em matérias de janeiro de 2010, novembro de 2010, janeiro de 2011 e por fim em abril de 2011 deram com os burros n’água, ou melhor, na rocha.

Os campos eram formados por rochas submarinas, o que elevava os custos de produção e tornava a produção muito mais difícil.

Os 10,8 bilhões de barris (¼ do pré-sal), se mostraram inverídicos.

A maré começaria a virar, e as apostas começariam a aumentar. Eike, que na época escolhia onde gastar seus bilhões, como quando comprou parte do Burger King junto de Jorge Paulo Lemann, ou ventilava a idade de  comprar o SBT de Silvio Santos, ampliaria as buscas ao redor do planeta por sócios capaz de injetar ânimo em seus negócios.

Em maio de 2013, a Petronas, estatal da Malásia, adquiriu 40% da OGX por $850 milhões, uma fração das dezenas de bilhões que a empresa valia 1 ano antes.

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Por essa época, a Exame contabilizava em sua página principal um contador que expunha a fortuna de Eike. Como uma espécie de “Bloomberg Bilionaire Index”, a revista brasileira contabilizava as participações de Eike.

Outra série de negócios foram planejados n época, com a AUX, de ouro, e a CCX de carvão, sendo negociadas (a segunda chegou a realizar IPO). 

Eike atraiu os gigantes do Mubadala, fundo dos Emirados Árabes Unidos, alegando ter vendido 5,63% (63 é seu número da sorte) por $2 bilhões.

A venda porém, seria revelada posteriormente como um empréstimo.

Os árabes seriam os grandes responsáveis por dividir o que sobrou do império da EBX nos anos seguintes.

A Imx, de esportes e eventos, seria repassada a Mubadala, incluindo aí a Marina da Glória no Rio, o torneio de tênis da cidade, um clube de vôlei,no cirque du soleil no Brasil e o Rock in Rio (todas aquisições de Eike quando os bilhões entravam na conta).

Os $300 milhões que Eike havia investido com Lemann para comprar o Burger King se tornariam $1,2 bilhão em 2019, quando a Mubadala, que havia assumido o ativo, vendeu sua participação.

A LLX, que virou Prumo logística, seria incorporada por gigantes americanas. O Hotel Glória, que Eike queria transformar em um novo Copacabana Palace, seria repassada a investidores suíços.

E a MPX vendida a alemães. O mesmo BTG, que tentou salvar o império X, e a Cambuhy, dos Moreira Salles, compraram outra parte do negócio.

Hoje a MPX é um sucesso. Uma empresa avaliada em R$20 bilhões e considerada um projeto inovador, pois uniu a produção de gás a de energia (a OGX Maranhão, que produz gás, foi repassada a MPX). 

O Porto de Açu também entra na lista de empresas que encontraram o sucesso longe das mãos de Eike.

Em anos recentes, descobrimos que a manipulação de mercado foi apenas um dos crimes de Eike. O empresário conseguiu aquilo que almejava: se aproximou do governo.

Isto lhe rendeu no princípio algumas tentativa de ajuda, como grana do BNDES para a MMX e MPX, uma intervenção de Guido Mantega tentando sabotar um estaleiro no Espírito Santo para que ele migrasse pro porto de Eike, além de incentivos fiscais com Sérgio Cabral.

No final das contas, seu grande objetivo de união com governantes se concretizaria na prisão, onde Eike e Cabral se reencontrariam.

Suas dívidas ainda não foram todas quitadas, mas a alta recente da MMX, com a possibilidade de Eike retornar a empresa, mostra que é preciso separar os investidores que foram vítimas das fraudes, e aqueles que buscaram ativamente se iludir.

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