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Com a inflação em alta de 9% em 12 meses, governo comemora melhora nas contas públicas


Por Felippe Hermes
agosto 24, 2021

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Entre janeiro a julho deste ano a previsão de déficit do governo caiu de R$286 bilhões para R$187 bilhões. A retomada da economia e preços em alta de quase 9% estão “dando uma ajuda” nas contas públicas.

Foram ao menos 13,34 trilhões de por cento em inflação acumulada no Brasil nos 15 anos que antecederam o plano real.

Em junho de 1994, um mês antes do plano começar, a inflação em 12 meses acumulava alta de 4950%.

São números que hoje soam quase irreais, mas engana-se quem acredita que a inflação tenha deixado de ser um problema, ou ainda, que suas consequências estejam limitadas ao trabalho de remarcação de preços que ocupava milhares de pessoas pelo país.

Tendo perdurado por quase 2 décadas, a hiperinflação brasileira se tornou um problema com o qual todos conviviam, e em boa parte, ignoravam.

Para uma parcela da população, a inflação em alta era um detalhe corrigível por aplicações em over night e outras práticas de investimentos. Para a maioria da população, porém, um problema grave do qual não podiam se proteger.

Milhões de famílias sem acesso aos bancos viam seu dinheiro derreter, sem qualquer perspectiva de proteção.

Para o governo, e os bancos, que criavam o dinheiro, a inflação se tornou uma fonte de renda extra. A ideia é simples e possui um nome pomposo, o “efeito Cantillon”.

Significa dizer que se você é o criador do dinheiro, ou alguém com acesso a ele, você pegará as notas recém criadas muito antes daqueles que estão afastados do centro financeiro. Isso dá a você (governo, bancos, grandes empresas), um ganho importante.

Mario Henrique Simonsen e Ruben Cysne estimaram que apenas em 1993 os bancos e o governo tenham lucrado 6% do PIB com a inflação.

Considere que hoje os 3% do PIB que os bancos lucraram ao criar dinheiro naquele ano equivalem a R$225 bilhões e não é difícil perceber o tamanho do impacto.

O valor ganho criando dinheiro em 1 único ano era o dobro daquele que os bancos brasileiros ganham hoje prestando muito mais serviços (o crédito, atividade central de um banco), cresceu 10 vezes no período quando comparado ao PIB.

Em 2021, os números são distintos e os artifícios também, mas as consequências são bastante similares.

Para este ano, o Banco Central projetava uma inflação de 3,75%. Em julho, chegamos a uma inflação de 8,99%. Na prática, os títulos públicos estão rendendo -3,4% ao ano. O PIB nominal (que considera o aumento de preços), está crescendo 16%!

O PIB real, sem o efeito de aumento de preços, está na casa dos 6% (sim, os preços na economia estão crescendo mais do que o índice de inflação, já giram em torno de 10% no ano).

Na prática, a economia está 16% maior, e o governo, que abocanha 40% dela todo ano, está vendo sua arrecadação crescer (em 12 meses).

A arrecadação de impostos no primeiro semestre cresceu 24,5%. Um número ajudado pelo fato de o primeiro semestre de 2020 ter sido impactado pela pandemia.

Com tamanha arrecadação, o governo reduziu a estimativa de déficit, ou o quanto faltam de recursos para fechar as contas, de R$286 bilhões para R$187 bilhões em 2020.

Para 2022, a expectativa é de que o déficit caia ainda mais. Para o ministro Paulo Guedes, ele pode ficar em torno de R$25 bilhões. Já para os economistas no geral, deve ficar em torno de R$70 bilhões. Seria o melhor resultado desde 2015.

Isso ocorre pois, ao contrário dos preços que são imediatamente repassados às alíquotas de impostos, o governo não corrige seus gastos na mesma velocidade.

O salário mínimo, por exemplo, que representa ⅔ do custo do INSS (em suma, o pagamento de salários mínimos na previdência responde por R$1 em cada R$3 pagos pelo governo), não deve ser corrigido por 9%, uma vez que a inflação deve cair no segundo semestre.

Considere que cada R$1 no salário mínimo representa R$400 milhões em gastos do governo (aproximadamente, considerando 27 milhões de beneficiários vezes 13 parcelas), e o resultado é que ao corrigir o SM por 6 e não 9 ou 10%, pode significar sozinho uma economia de R$15 a 20 bilhões.

São custos de inflação que os aposentados e pensionistas terão de arcar, mas cuja renda não irá acompanhar.

Na mesma medida, o funcionalismo público também dificilmente terá correções sequer próximas ao índice oficial de inflação. Serão alguns bilhões em gastos a menos com salários e aposentadorias.

Na mesma linha, a dívida pública deverá ter uma retração significativa neste ano, saindo de 89% para 82%, o que significa que estará longe de “explodir” para mais de 100% como previsto em 2020.

Com o aumento da taxa básica de juros, é possível, e provável, que a inflação venha a ceder.

Nada disso, porém, deve ajudar a recuperar o poder de compra perdido pela população, que dependerá do crescimento econômico exclusivamente.

Cabe lembrar que dos 9% de inflação, dois setores tiveram altas ainda mais expressivas. Alimentos subiram 13% e transportes subiram 16%.

Já no mercado financeiro, uma melhora das contas públicas tende a ser vista como positiva.

Na prática, se o governo controla melhor suas contas, significa menor pressão sobre os juros, uma vez que ele demandará menos recursos para se financiar. Mais poupança deve sobrar para as empresas.

O custo de financiamento das empresas afeta diretamente suas margens de lucro (não por coincidência a bolsa caiu fortemente com sinais de instabilidade política e possíveis custos extras como os precatórios).

O fato de que as pessoas que consomem das empresas listadas em bolsa estarão com menor renda não parece incomodar, ao menos por enquanto.


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