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Circle mira 40 novos mercados: o que muda para o USDC

Emissora do USDC quer levar o dólar digital a 50 países emergentes, comprou fintech por US$ 400 mi e lançou blockchain própria. O jogo das stablecoins mudou.

A Circle, emissora do USDC, anunciou planos de expansão para cerca de 50 mercados emergentes e em desenvolvimento. A estratégia inclui a aquisição da fintech singapurense Tazapay por US$ 400 milhões, o lançamento de uma blockchain própria chamada Arc e a obtenção de licença bancária federal nos Estados Unidos. Não se trata apenas de aumentar a fatia de mercado. A empresa está redesenhando sua operação para competir diretamente com bancos e processadoras de pagamento tradicionais.

O movimento acontece em um momento em que stablecoins deixaram de ser apenas ferramentas de negociação em exchanges. Elas se tornaram infraestrutura financeira. E a corrida por esse território está longe de ser decidida.

Por que a Circle acelera agora a expansão global do USDC

O USDC possui atualmente cerca de US$ 72,6 bilhões em circulação, o que representa aproximadamente 25% do mercado global de stablecoins. É um número expressivo, mas ainda representa menos da metade do que controla sua principal concorrente: a Tether, com o USDT, detém quase 60% do mercado. A diferença é particularmente grande em regiões como o Sudeste Asiático, América Latina e Oriente Médio, exatamente os mercados que a Circle agora mira.

Jeremy Allaire, CEO da Circle, descreveu o momento atual como um “ponto de inflexão” na tecnologia blockchain. Segundo ele, a transição da fase de adotantes iniciais para a fase de escala massiva já está em andamento. A leitura faz sentido quando se olha para os dados: o mercado de stablecoins cresceu significativamente nos últimos 18 meses, impulsionado por uso real em pagamentos transfronteiriços e não apenas por especulação.

A aquisição da Tazapay é a peça mais estratégica do movimento. A fintech opera redes de pagamento locais em mais de 100 mercados, oferecendo à Circle acesso direto a trilhos bancários e regulatórios que levariam anos para construir do zero. É o tipo de atalho que separa uma empresa de tecnologia ambiciosa de uma que realmente executa.

Tazapay, Arc e a nova infraestrutura do dólar digital

Para entender a ambição da Circle, é preciso olhar além da expansão geográfica. A empresa não quer apenas distribuir o USDC em mais países. Ela quer controlar a infraestrutura sobre a qual essas transações acontecem.

O lançamento da Arc, uma blockchain desenhada especificamente para pagamentos e transações financeiras, é um sinal claro dessa intenção. Ao criar sua própria rede, a Circle reduz a dependência de blockchains de terceiros e pode otimizar custos e velocidade para o caso de uso que mais importa no momento: movimentação de dinheiro.

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Somada à aprovação como banco fiduciário federal nos Estados Unidos, obtida em julho, a empresa construiu em poucos meses um arcabouço completo. Licença bancária. Blockchain própria. Rede de pagamentos adquirida. O que falta é a execução local em cada um desses 50 mercados, algo que como o setor financeiro bem sabe, é a parte mais difícil e demorada.

O paralelo mais interessante talvez seja com o que as fintechs fizeram na última década. Empresas como Wise e Remitly construíram negócios bilionários conectando corredores de pagamento internacionais com tecnologia mais barata que a dos bancos. A Circle agora tenta fazer algo similar, mas usando stablecoins como trilho em vez de sistemas bancários tradicionais.

GENIUS Act e o papel da regulação na corrida das stablecoins

Allaire destacou que regulações mais claras, como o GENIUS Act nos Estados Unidos, estão encorajando a adoção mais ampla de stablecoins. A lei, que estabelece um marco regulatório específico para stablecoins, representa uma mudança fundamental na relação entre o setor cripto e os reguladores americanos.

O impacto vai além das fronteiras dos EUA. A clareza regulatória americana funciona como referência para outros países. Quando o maior mercado financeiro do mundo define regras claras para stablecoins, jurisdições menores tendem a seguir modelos parecidos. Isso reduz o risco regulatório para empresas como a Circle em seus mercados-alvo.

É interessante notar que Allaire não apenas aceitou, mas celebrou o fato de bancos estarem desenvolvendo suas próprias moedas digitais. “Há muito tempo o setor bancário lutou com sucesso para manter outros de fora, e eu acho que eles não estão mais no comando”, disse ele. A declaração reflete uma mudança de postura: em vez de ver bancos como inimigos, a Circle os trata como validadores do mercado.

Se os bancos estão criando seus próprios dólares digitais, isso confirma a tese de que stablecoins são a evolução natural dos pagamentos. E quem chegou primeiro, com maior escala e tecnologia mais madura, leva vantagem.

IA, stablecoins e o próximo caso de uso bilionário

Um detalhe que passou quase despercebido nas declarações de Allaire merece atenção: o uso crescente do USDC por agentes de inteligência artificial. Programas de software que operam de forma autônoma já estão usando a stablecoin para realizar micropagamentos por informações e serviços online.

Pode parecer nicho, mas o conceito de agentes de IA que transacionam entre si é uma das fronteiras mais discutidas no setor de tecnologia. Se softwares autônomos precisam trocar valor entre si em tempo real, sem intervenção humana, stablecoins em blockchains rápidas são a solução óbvia. Cartões de crédito e transferências bancárias simplesmente não funcionam nessa velocidade ou granularidade.

No mercado de stablecoins lastreadas em ativos do mundo real, os rendimentos têm se sustentado entre 5% e 7% ao ano, provenientes de crédito real, enquanto o funding cripto comprimiu para algo próximo de 4%. O mercado endereçável total desse segmento pode chegar a US$ 4 bilhões nos próximos três anos, segundo estimativas de mercado.

O que muda para quem acompanha o mercado cripto

A expansão da Circle não é apenas uma história corporativa. Ela sinaliza uma maturação do mercado de stablecoins que afeta toda a cadeia. Mais mercados atendidos significam mais liquidez global em USDC. Mais liquidez significa spreads menores e custos mais baixos para quem usa a stablecoin como veículo de pagamento ou reserva de valor em dólar.

Para a América Latina, a movimentação é particularmente relevante. A região é um dos principais corredores de remessas do mundo e sofre historicamente com taxas elevadas de transferência internacional. Se o USDC ganhar tração como alternativa a serviços tradicionais de remessa, o impacto direto é dinheiro no bolso de milhões de pessoas que enviam e recebem recursos entre fronteiras.

A disputa entre Circle e Tether pela liderança em mercados emergentes será um dos temas mais importantes do mercado cripto nos próximos anos. E quem vencer provavelmente não será quem tem a melhor tecnologia, mas quem construir as melhores pontes com o sistema financeiro local.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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