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Casa Branca quer lei cripto aprovada até 4 de julho

Governo dos EUA definiu prazo simbólico para votar marco regulatório de criptomoedas. Entenda o que está em jogo e como isso afeta o mercado brasileiro.

Casa Branca quer lei cripto aprovada até 4 de julho
Foto: Sinful / Unsplash

A Casa Branca escolheu uma data carregada de simbolismo. O governo dos Estados Unidos quer que o Congresso aprove o marco regulatório para criptomoedas até o dia 4 de julho, feriado da Independência americana. A meta ambiciosa envolve dois projetos que tramitam em paralelo: um sobre estrutura de mercado cripto e outro sobre stablecoins.

O prazo, revelado por fontes próximas à negociação e confirmado pelo The Block, transforma o que era uma pauta legislativa arrastada em uma corrida contra o relógio. São menos de dois meses para que o Senado vote, emende e aprove legislações que vão determinar como trilhões de dólares em ativos digitais serão tratados nos próximos anos.

O que está em jogo nos dois projetos de lei

O primeiro projeto define quais criptoativos são valores mobiliários e quais são commodities, resolvendo uma disputa regulatória que opõe a SEC (equivalente à CVM americana) e a CFTC (regulador de derivativos) há pelo menos três anos. Na prática, isso determina sob qual órgão cada token será supervisionado.

O segundo trata especificamente de stablecoins, moedas digitais pareadas ao dólar que movimentaram mais de US$ 28 trilhões em transações ao longo de 2025, segundo dados da Chainalysis. Esse projeto estabelece requisitos de reserva, auditoria e licenciamento para emissores como Tether e Circle.

As duas frentes são complementares. Sem definir o que é security e o que é commodity, fica difícil regulamentar exchanges, protocolos DeFi e até a emissão de novos tokens. E sem regras claras para stablecoins, o mercado segue operando numa zona cinzenta que incomoda tanto reguladores quanto grandes bancos, como o Morgan Stanley, que acaba de entrar no mercado cripto.

Por que o prazo de 4 de julho é agressivo

O Senado americano funciona por consenso. Qualquer senador pode travar uma votação com manobras procedimentais, e o calendário legislativo é disputado por outras prioridades como orçamento, defesa e imigração. Aprovar duas leis complexas em menos de 60 dias exige um nível de alinhamento político raro.

Há, porém, razões para acreditar que o cenário é diferente desta vez. A pressão vem de múltiplos lados. De um lado, a indústria cripto investiu mais de US$ 130 milhões em lobbying no ciclo eleitoral de 2024, segundo dados do OpenSecrets. De outro, a competição regulatória global se intensificou: a União Europeia já implementou o MiCA, e mercados como Singapura e Dubai consolidaram seus arcabouços.

A própria Venezuela ilustra como a ausência de regulação clara nos EUA empurra inovação para outros territórios. Como discutido em análises recentes sobre o mercado de criptomoedas, stablecoins já funcionam como infraestrutura financeira em países com moedas instáveis, e os EUA querem garantir que o dólar digital continue sob sua esfera de influência.

O impacto no mercado brasileiro

Para investidores brasileiros, a aprovação da regulação americana teria efeitos em cadeia. O primeiro e mais imediato seria a legitimação institucional do setor. Com regras claras nos EUA, gestoras como BlackRock e Fidelity poderiam ampliar significativamente a oferta de produtos cripto regulados, incluindo ETFs de altcoins que hoje enfrentam barreiras.

O segundo efeito é regulatório. O Brasil já tem seu próprio marco legal para criptoativos, mas a CVM e o Banco Central ainda estão definindo as normas complementares. A experiência americana tende a servir de referência, especialmente no que diz respeito à classificação de tokens e à supervisão de exchanges.

O terceiro efeito é sobre preços. O mercado cripto historicamente responde a avanços regulatórios com valorização, não com queda. A aprovação dos ETFs de Bitcoin à vista nos EUA em janeiro de 2024, por exemplo, precedeu uma alta de mais de 60% nos meses seguintes. Uma regulação abrangente poderia destravar um ciclo semelhante.

O que pode dar errado no caminho

Os riscos de atraso são reais. Senadores democratas têm resistências pontuais, especialmente em relação a conflitos de interesse envolvendo figuras políticas com participações em projetos cripto. A dinâmica do mercado financeiro também pode mudar: uma crise bancária ou evento de liquidação no mercado cripto poderia esfriar o apetite legislativo.

Há também a questão técnica. A definição de quais tokens são securities envolve critérios subjetivos que desagradam tanto a indústria quanto os reguladores. Encontrar uma linguagem que sobreviva a contestações judiciais é um desafio que já derrubou tentativas anteriores.

Ainda assim, o fato de a Casa Branca ter colocado uma data específica na mesa muda o jogo. Deixa de ser uma aspiração do setor privado e passa a ser uma meta política com accountability. Se o prazo for cumprido, os EUA terão feito em meses o que não conseguiram em anos. Se não for, o custo reputacional recai diretamente sobre o governo.

Para quem investe, a recomendação é acompanhar o calendário do Senado de perto. As próximas semanas devem revelar se o 4 de julho será, de fato, um marco para o setor cripto ou apenas mais uma promessa sem entrega.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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